Dentro da sempre mediática Liga BBVA os jornalistas amontoam-se para seguir as conferências de Pep Guardiola e José Mourinho. Mas não disfrutam tanto como quando viajam ao El Molinón. Comeu o pão que o diabo amassou e continua aí, de sorriso tranquilo e lingua honesta, sem medos para enfrentar a maré que lhe chega aos pés. Em Espanha não há técnico mais (a)Preciado do que Manolo.

Os episódios de Manuel Preciado no banco de suplentes do Sporting Gijón começam a ganhar o contorno de mito futebolistico.
Não é normal, nos dias tensos que correm em que quase todos os técnicos espelham do primeiro ao último instante (Guardiola e Mourinho incluidos) uma tensão abrumadora, que surja uma personagem como Preciado. Uma genuína personagem do norte de Espanha, amável e directo, sem papas na lingua e com um desejo inconfessável de romper as normas. Sempre com um sorriso.
Na última visita ao Camp Nou houve quem se lembrasse das palavras do ano passado. Derrotado, sem apelo nem agravo, Preciado surgiu resignado na conferência de imprensa "É o Barça, que estavam à espera? Milagres? Eu estou contente, podiam ter sido mais!". Uma frase que muitos não perdoariam ao seu treinador. Mas em Gijón Preciado tem o seu particular santuário e séquito. O El Molinon rendeu-se há muito ao talento de um treinador que resgatou um histórico do futebol espanhol e lhe deu a estabilidade que faltam a tantos clubes da liga. Esta época, no mesmo recinto, o Gijón voltou a perder. Preciado não teve reparos, durante o jogo, de se aproximar de Guardiola (um dos seus admiradores confessos) quando Andrés Iniesta se queixou de uma dor no adutor. "Tira o Andrés, Pep que não quero que façam mal ao miudo!". A cara surpreendida de Guardiola, captada pela televisão, dizia tudo. De Preciado pode-se esperar de tudo. Até que decida dar a táctica ao rival.
A sua vida não foi fácil. Perdeu no espaço de um ano a mulher (vitima de um cancro) e o filho (morto num acidente de viação). Momentos duros que viveu estoicamente quando
Nasceu em 1957 em El Astillero, localidade pesqueira da Cantábria, um dos pontos mais a norte do país vizinho, pautado por um tempo agreste, violento e capaz de moldar o caracter de homens. Foi futebolista profissional por vocação e necessidade e durante os anos 60 e 70 actuou em várias equipas da zona norte, especialmente no Racing Santander, onde deixou boas recordações. Terminada a carreira, botas penduradas, pegou nos livros e seguiu em frente. A vida como treinador era algo inevitável em que já respirava futebol quando deambulava pelos empapados relvados do El Sardinero ganhando o carinho dos adeptos que desculpavam alguma da sua torpeza como central de marcação. Como técnico arrancou em Torrelavega, onde tinha terminado a carreira, e depois passou à equipa B do Racing Santander onde se manteve quatro temporadas. Em 2004 saltou à equipa principal dos cantábros onde terminou a temporada para depois arrancar com um novo projecto no modesto Levante de Valencia, cumprindo a palavra dada a meio da época com o presidente do clube levantino e rejeitando uma primeira abordagem do Gijon. Na primeira época logrou um histórico regresso à I Divisão mas acabou por assinar pelo Múrcia e logo de novo pelo Racing antes de chegar em 2006 a Gijón. O clube asturiano militava na parte baixa da II Liga e depois de um ano de transição conseguiu a ambicionada promoção, mais de dez anos depois da queda no abismo. O carácter afável e directo do técnico junto com uma nova vaga de talentos lançados de Mareo, o centro de formação dos rojiblancos, funcionaram como a base de trabalho de uma equipa condenada por tudo e todos a descer na época seguinte. Preciado sofreu até ao fim mas aguentou a categoria com um sprint final electrizante marcado também por algumas das suas mais directas afirmações sobre o futebol espanhol. Na passada temporada voltou a fazer do El Molinon um recinto quase inexpugnável com uma equipa muito jovem e aguerrida e conseguiu um excelente 15 posto na classificação. A tranquilidade, palavra esquecida nos corredores do belo estádio do Sporting, voltava a fazer sentido. Graças ao filósofo do norte.

"Para tirar a bola a Xavi seria necessária estudar álgebra". Palavras sábias do treinador mais apaixonante e "entrañable" da Liga Espanhola. Para tirar a sabedoria e frontalidade ao descarado Manolo Preciado seria falta muito mais. E seria totalmente desnecessário. A sua presença é um oásis na frieza que vai arrebatando os campos espanhóis. Manolo é de outra era e está determinado em mantê-la eterna. O futebol espanhol merece-o menos do que Manolo merece todo o protagonismo no centro mediático que rodeia o futebol espanhol.