Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Tudo termina e mesmo que a nostalgia impeça o esquecimento, a verdade é que vai ficar pouco para recordar com gosto desta Liga Sagres 2008/2009. Uma temporada apagada, morna, onde a grande sensação foi mesmo a campanha do Leixões na primeira volta e a cavalgada final dos tetracampeões. O FC Porto esteve muitos furos abaixo do que nos habituou, especialmente no arranque da temporada, mas acabou por se impor com naturalidade numa prova sem nível competitivo e onde, de ano para ano, se notam cada vez mais as diferenças entres os clubes com projectos bem definidos (FC Porto, Nacional, SC Braga, Sporting, Paços de Ferreira), os clubes à deriva de ideias (SL Benfica, Vitoria Guimarães, Marítimo) e aqueles que, pura e simplesmente, se limitam a esperar que a sorte os salve de um destino pior.

 
Contas feitas o FC Porto voltou a fazer história – primeiro clube português a repetir quatro títulos consecutivos – e apesar do atraso com que começou deu para celebrar o titulo a três jogos do fim. O Sporting prova que não pode mais, ao continuar com esta politica de contenção salarial que lhe impede de montar um onze verdadeiramente competitivo, por muito boa que seja a Academia de Alcochete. Mais do que Paulo Bento e companhia, em Alvalade o grande calcanhar de Aquiles é a debilidade institucional e a clara falta de ambição e nível competitivo. Que o diga o Bayern ou o Barcelona que humilharam uma equipa que até soube bater, duas vezes, o vencedor da Taça UEFA. Por sua vez o SL Benfica continua igual a si próprio. Independentemente do clube, ver o Benfica à deriva é um espelho da falta de interesse que desperta o próprio campeonato. Os próprios rivais já se deram conta de que, por muitos anúncios pomposos, contratações sonantes e técnicos de renome, a equipa encarnada nunca consegue ser verdadeiramente competitiva. Tropeça nos momentos chave, falha sobre pressão e vive em constante conflito interno. O plantel deste ano das águias era dos melhores da década mas no sprint final viu-se ultrapassado pelo rival da segunda circular e chegou a estar ameaçado por Braga e Nacional. Muito pouco para quem continua sem ganhar uma prova – Taça da Liga à margem – há cinco anos.
 
Fora do pódio que voltou à normalidade dos grandes depois do brilharete vimaranense do ano passado, os postos da UEFA vão direitinhos para os clubes mais regulares e com os projectos desportivos melhor trabalhados. Por um lado o SC Braga de Jorge Jesus, é um exemplo de austeridade e ambição. Será difícil ver os arsenalistas a lutar pelo título, porque se nota a diferença de plantel, mas a equipa de Braga provou, tanto na Europa como na Liga, ter argumentos para sonhar com mais. Tropeções em momentos chaves, lesões incómodas e uma longa época que arrancou com a Intertoto em Julho justificam a baixa de forma final. Mas a verdade é que o clube pode aspirar a mais no próximo ano. É necessário um título para confirmar esta afirmação como quarto grande, na ausência de Boavista e na irregularidade dos rivais de Guimarães. Por sua vez o Nacional tem um projecto bem distinto, mais volátil, mas igualmente bem definido. Sabendo que é inevitável vender, o mérito dos madeirenses está em saber reforçar-se bem. Maicon e Nene, que chegaram de uma digressão da equipa de reservas do Cruzeiro, ou os jovens Ruben Micael e João Aurélio, são a prova de que Manuel Machado é um perito em construir onzes equilibrados e com forte vocação ofensiva. O regresso à Europa é um prémio justo para um clube bem estruturado.
 
Ás portas da glória uefeira e com um campeonato razoavelmente tranquilo, Leixões, Marítimo e Vitória de Guimarães espelham bem a realidade do futebol nacional. Os primeiros começaram bem, chegaram mesmo a liderar a prova, mas a venda de Wesley e a baixa de forma física arrebentou com as aspirações europeias dos bebés de Matosinhos. Quanto a Marítimo e Vitória, partiam com claras ambições. Os primeiros chegaram a estar bem dentro da luta até ao tiro no pé que foi a substituição do técnico Lori Sandri a sete jornadas do final. A entrada de Carvalhal não melhorou em nada as prestações da equipa que acabou por perder ritmo. Caso grave é o do Vitória. A equipa caiu na pré-eliminatória da Champions e logo na da Taça UEFA, acabando abruptamente as aspirações europeias. Os pilares da boa época passada saíram e nunca tiveram substitutos à altura e a equipa baixou de forma brutalmente em relação ao brilhante ano passando, tendo andado por lugares na parte baixa da tabela. No final da temporada recuperou para um sprint final rápido mas ineficaz. Para o ano terá de fazer muito melhor.
 
Na eterna luta pela despromoção encontramos as restantes oito equipas, o que demonstra bem como é o campeonato português. Três lutam pelo título, cinco pela Europa e o resto para não descer. Só mudam os rostos dos dois últimos grupos. Mas costumam ser os suspeitos do costume. Os primeiros a salvarem-se da despromoção foram os surpreendentes jogadores do Estrela da Amadora. Mesmo sem receber regularmente desde o início da época, mesmo sem o treinador inicial e com menos três pontos retirados na secretaria, o Estrela da Amadora merece um especial louvor. Não tinha condições para competir e mesmo assim ficou à frente de clubes com outros orçamentos e expectativas. Salvou-se cedo e bem e apesar de correr o riso de descer na secretaria, pelos salários em atraso, em campo mostrou ter jogadores de carácter. O mesmo que a Académica. Os de Domingos Paciência foram uns autênticos sofredores. Óptimos resultados no Municipal de Coimbra e péssimas exibições fora de casa impediram que a equipa mais sólida dos estudantes dos últimos anos pudesse aspirar a mais. O técnico deverá estar de saída, um golpe duro para um clube histórico que ainda não se habituou ao ritmo da primeira divisão. Por fim sobra o excelente Paços de Ferreira, que por méritos de Taça estará na próxima Taça UEFA. A equipa de Paulo Sérgio mostrou sempre bom futebol e até perdeu o seu melhor goleador bem cedo, mas apesar de alguns altos e baixos mostrou uma interessante regularidade na Mata Real.
Sofredores até ao fim, Naval 1 de Maio, Vitória de Setúbal e Rio Ave tiveram de fazer das tripas coração para garantir a permanência. Os da Figueira sofreram sempre pelo plantel pouco competitivo e a falta de um real apoio dos seus adeptos mas dos aflitos foram os primeiros a garantir a permanência. Foi aliás na Figueira que o Setúbal também evitou a descida, resultado essencialmente de um bom final de época de Carlos Cardoso, um técnico perito já em salvar o seu Vitória de momentos de aflição. A grave crise financeira e institucional do clube do Sado não garante a sobrevivência a curto prazo mas, pelo menos, evita que os setubalenses caiam esta temporada no poço da II. Por sua vez em Vila do Conde fez-se a festa também no último dia. Carlos Brito, salvador da casa sempre, juntou uma equipa de jovens ambiciosos e com Yazalde e Coentrão desenhou um bom final de época que acabou por evitar uma descida de divisão que parecia inevitável a meio da temporada.
 
A caminho da II Liga estão Trofense e Belenenses. Os primeiros subiram este ano e nunca deram a real sensação de ter um projecto sólido que lhes garantisse a permanência apesar do futuro brilhante que parece ter o seu jovem técnico, Tulipa. Uma descida natural e esperada ao contrário da do Belenenses. Os da Cruz de Cristo há anos que brincavam com o fogo e este ano queimaram-se por completo. Três treinadores, direção demissionária, problemas financeiros e um plantel altamente desiquilibrado foram condenando o histórico clube á descida de divisão. Uma descida consumada em pleno relvado da Luz e que prova, mais uma vez, que os históricos já não conseguem a manutenção pelo seu estatuto se não têm um projecto sólido para apresentar ao longo de uma larga temporada. Resta saber se para o ano a equipa terá forças para voltar ou se cairá no mesmo ritual auto-destructivo de outros clubes do seu nivel.


publicado por Miguel Lourenço Pereira às 00:12 | link do post | comentar

5 comentários:
De jotas a 25 de Maio de 2009 às 16:55
Concordo em parte com o que dizes, especialmente no que toca às questões que dizem respeito aos projectos consolidados de certos clubes, algo que reconheço, faz muita falta ao meu clube.
Mas ontem, fiquei espantado com alguma falta de respeito da comunicação social em ralação à festa do Porto, ninguém resolveu interromper as suas emissões normais para mostrar imagens da festa, a Sic, preferiu mesmo falar dos pasteis de Tentúgal.


De Bruno Pinto a 26 de Maio de 2009 às 02:07
O FC Porto é um clube à parte em Portugal, amado pelos seus adeptos, mas odiado por todo o resto do país. A razão é simples: ganha quase sempre e isso gera inveja e mal-estar. O FC Porto já está habituado à falta de respeito da generalidade da comunicação social e ganhar campeonatos é tão natural que isso já é encarado como algo normal e esperado. Notícia é quando não ganha.


De Miguel Lourenço Pereira a 26 de Maio de 2009 às 11:16
Como se diz na Invicta, assim ainda sabe melhor.

É verdade que o FC Porto está mais do que habituado ao desprezo do público em geral, mas isso também é brincar com o fogo. Esquecendo os miticos 6 milhoes de benfiquistas, todos os estudos apontam que para além da perseguiçao em titulos, o FCP é hoje tambem o clube que mais novos adeptos conquista e daqui a anos (uma questão puramente demografica) igualará o SL Benfica com mais adeptos.

Apesar da imprensa continuar a portar-se muitas vezes como se só os encarnados existissem, a verdade é que o rosto do futebol portugues dos ultimos 30 anos sao os dragoes. E ignorar isso será cada vez mais dificil.

Um abraço


De Bruno Pinto a 26 de Maio de 2009 às 14:13
Sem dúvida, Miguel. O Benfica foi durante muito tempo o maior clube português. No entanto, essa realidade já começou a esbater-se e não tarda nada não passará de um mito para adormecer os que gostam de andar a dormir. O FC Porto ganha compulsivamente. Já ultrapassou os títulos internacionais do Benfica, brevemente ultrapassará os títulos nacionais, a diferença no número de adeptos tem vindo a encurtar. Daqui a uns anos, só o tamanho do estádio será o factor visível da suposta grandiosidade benfiquista face ao FC Porto. Continuam a agarrar-se aos apitos e à fruta, negam a realidade que está mesmo à sua frente. Genericamente, são o espelho do presidente que têm.


De Miguel Lourenço Pereira a 26 de Maio de 2009 às 19:34
É um clube sem rumo. No inicio dos anos 90 lembro-me que o FC Porto vencia mas sofria porque o Benfica tinha sempre excelentes equipas e um projecto solido. Hoje em dia sao um fantasma de si proprios. Tarde ou cedo o FC Porto ultrapassa-lo-a em tudo...sinais dos tempos, ai se Pedroto o pudesse ter visto...


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