A debacle de Guimarães não surpreende quem antevia já o naufrágio de uma selecção que hoje existe apenas no nome. Não bastaram as criticas e dissidências após o último Mundial. O hara-kiri incompreensível da FPF na sua insaciável perseguição a Carlos Queiroz ajudou a aumentar o clima de instabilidade numa equipa das quinas onde ninguém sabe como será o dia de amanhã.

Não foi a primeira vez que Portugal cedeu pontos com um rival acessível.
Houve os miticos empates com Malta, Azerbeijão, Arménia e afins, alguns deles conseguidos por "ilustres" seleccionadores do combinado nacional. Mas nem o Chipre está nesse patamar, nem o resultado de sexta-feira deixa uma imagem tão surpreendente. Os cipriotas, afinal de contas, têm melhorado muito o seu pedigree internacional. A nivel de clubes estrearam-se na passada edição europeia na Champions League e a própria selecção revelou-se um osso duro de roer para Itália e Irlanda, os seus rivais directos no apuramento para o último Campeonato do Mundo. A imagem romântica de uma débil equipa mediterrânica deixou de fazer sentido. O Chipre é uma selecção competitiva e preparada para a alta roda. E o Mundo do futebol hoje já não admite a minima falha. Que o diga a reformatada França de Laurent Blanc, que diante de 75 mil expectantes gauleses baqueou diante da Bielorrúsia, uma equipa bem ao nível da formação cipriota.
No entanto, o grande problema de Portugal foi...Portugal.
Uma equipa que aponta 4 golos - particularmente quando é uma equipa reconhecida internacionalmente pela sua inépcia diante das redes contrárias - e sofre outros tantos é, claramente, o maior inimigo de si mesma. E não apenas porque a equipa lusa foi a segunda menos batida do último Mundial. Mas também porque foi um conjunto emocionalmente distante, partido. Ausente. Como seria de prever.
Só um lirico pode imaginar que uma selecção nacional, particularmente no arranque de uma época com vários jogadores ainda sem minutos nas pernas e rotinas competitivas, no estado de auto-destruição que vive a portuguesa pode ambicionar a mais. Vencer a dupla ronda europeia seria a grande surpresa numa equipa assumidamente em "piloto automático".
A FPF temeu em despedir Carlos Queiroz quando era a hora, para os detractores do actual seleccionador. Numa avaliação de performance, se a prestação na África do Sul tivesse sido tão negra, o técnico seria inevitavelmente substituido. Mas tanto a equipa técnica como a federação concordaram, tacitamente, que os objectivos minimos estavam cumpridos e que reeditar uma meia-final não era mais que um sonho, um feeling que não se concretizou. Fechado esse ponto, e com a expectativa de uma séria renovação geracional (que Queiroz não pode fazer durante a campanha prévia, a quente), a questão parecia solucionada. Longe disso.
Nos últimos meses temos assistido a um mini-Saltillo, uma triste reedição do episódio mais funesto da história da FPF com alguns participantes repetentes. Despedir Carlos Queiroz passou a ser o objectivo comum de entidades governativas e federativas, mesmo correndo o risco de hipotecar a presença de Portugal na sua séptima prova internacional consecutiva. A suspensão do seleccionador e as seguintes sanções, aplicadas com o único propósito de lograr uma rescisão com justa causa (e sem os 2 milhões de euros de indmenização a que o técnico teria direito) tornaram-se no eixo central da vida da selecção. Os naturais abandonos internacionais de Simão e Paulo Ferreira foram transformados em casos de rebelião, o silêncio prolongado do (ainda) capitão nacional ganhou contornos de tabu à portuguesa e a nomeação de Oliveira como seleccionador interino abriu as portas à ideia de uma clara sucessão futura. Afinal, só Portugal parte para esta campanha sem seleccionador. O resto é somar 2+2.

Se a convocatória a meias entre Queiroz e Oliveira já deixou a entender por onde caminha a renovação lusa (Silvio, Djaló e os regressados Nani, Quaresma, Varela e Micael) também deixa claro que os problemas estruturais de Portugal continuarão, seja qual for o seleccionador. A ausência de um ponta-de-lança ou de um criador de jogo será um assunto bem mais sério do que o posto do homem que coordena o futebol internacional. A mudança de Queiroz, quase inevitável, garantirá o triunfo do status quo federativo e até poderá proporcionar um regresso ao scolarismo ou uma abertura ibérico ao aragonismo. Mas não deixará de ser incapaz de arrancar Portugal da mediania europeia, onde se encontra, tranquilamente. Sem espirito competitivo, sem noção de conjunto, equipa ou grupo, Portugal joga em Oslo a sua sobrevivência mental, mais do que os três preciosos pontos. O apuramento é longo e permite deslizes. Mas o que não admite são equipas sem estofo competitivo. Sem sentido profissional. E aí é que está o problema português. Mas a culpa, é do Queiroz!