Nem os mais optimistas se imaginavam uma noite assim. Deixando para trás a pequenez que lastra habitualmente as equipas lusas nos grandes palcos, o Sporting de Braga emergiu como uma equipa doutorada "suma cum laude" no espaço europeu depois de um triunfo histórico sobre o imenso Sevilla. Quatro golos certeiros esbateram as dúvidas e abriram asas a um projecto construido com cabeça, tronco e membros.

Domingos Paciência dificilmente contia a emoção enquanto as bancadas do Ramón Sanchez Pijzuan se esvaziavam.
Lima, a sua aposta pessoal, tinha acabado de fazer o 4-2 para o Braga. O golo que tirava toda a angústia dos ombros do técnico portuense. A sua equipa tinha feito um jogo redondo, onde tinha havido tempo para tudo, do céu ao inferno. A consagração definitiva de um sonho que arrancou por esta altura há um ano. Enquanto todos se entretêm nas eternas guerras pelo poder, o clube bracarense consolidou uma ideia que se formulava desde os dias de Manuel Cajuda, talvez o primeiro aviso à navegação de que este Braga tem aspirações mais sérias do que muitos imaginariam. Ontem em Sevilla não estava Carlos Freitas, um dos grandes mentores da revolução bracarense, mas sim a sua aposta pessoal. Domingos venceu o duelo directo com Antonio Alvarez, técnico do Sevilla, e demonstrou ser já um técnico de primeiro nível. Um técnico capaz de dar a volta ao jogo com pequenos ajustes dignos de um olho cirúrgico. Se o trabalho defensivo dos arcebispos já há muito era conhecido, a eficácia goleadora dos "Guerreiros do Minho" foi o confirmar da própria ambição do técnico, um avanço de requinte, em marcar para não ter de sofrer. Acabou por viver ambos os lados da moeda. Para acabar com um suspiro de alivio. E uma sensação de glória eterna.
O Braga, tal como em casa, sentiu nos primeiros segundos o peso da força da máquina sevillista, ferida no orgulho pela derrota em Barcelona na segunda mão da Supertaça espanhola. A pouco e pouco os bracarenses foram tomando o controlo do jogo, com rápidas trocas de bola no miolo que procuravam a eficácia e velocidade de Matheus e Alan, dois diabos à solta no relvado hispanilense. Cigarini e Zokora pautavam o jogo no eixo central dos espanhóis, mas a bola raramente chegava à dupla ofensiva composta por Fabiano e Kanouté. O enorme Vandinho, sempre escudado por Leandro Salino e Luis Aguiar, mostrava-se imperial na resolução dos problemas de defensivos, dando liberdade aos companheiros do ataque para lançar sucessivos sustos sobre o eixo mais recuado dos espanhóis. Num desses lances, rápidos e desiquilibrantes, o Braga chegou à vantagem. Paulo César cavalgou, escapando de Fazio, para depois Matheus dar a estocada a Palop. Um golo que deixava o campo inclinado e a eliminatória praticamente sentenciada e que compensava a melhor equipa em campo, apesar da labor da equipa de arbitragem, que insistia em dar primazia ao jogo duro dos espanhóis. Mas nem assim o Sevilla se mostrava perigoso. A anos-luz da equipa da época passada, a mesma que arrancou, in extremis, um lugar neste play-off.

Com a segunda parte chegou o toque especial de Domingos. O técnico lançou Lima, para o lugar do amarelado e escaldado Luis Aguiar, e surpreendeu uma equipa espanhola demasiado balançada para o ataque. Com rápidas trocas de bola e saídas em velocidade, os arsenalistas assustaram uma e outra vez Palop até que o dianteiro brasileiro começou o seu show pessoal. Lance pela direita de Matheus, genial em velocidade, e golpe seco e certeiro de Lima. O jogo parecia ter chegado ao fim com uma vitória categórica da nova sensação euroepia.
Mas não. Esse eterno medo que parece rodear as equipas lusas nas grandes provas surgiu, por breves instantes, nas tremidas mãos do brasileiro Felipe.
O guarda-redes não agarrou um remate fácil de Luis Fabiano e concedeu o 1-2 para os locais. O avançado brasileiro quase nem celebrou o golo (faltavam três para conseguir o apuramento), mas a equipa espanhola começou a acreditar. Alvarez lançou José Carlos, Negredo e Renato para asfixiar a amarelada defesa bracarense, com um Silvio superlativo a desdobrar-se como podia, e o jogo complicou-se. Navas empatou, ao minuto 84, garantindo um verdadeiro final de enfarto. O espirito das "remontadas" espanholas começou a assombrar a defensiva bracarense, mas esta revelou-se mais dura do que seria de prever. Um antes quebrar que torcer que desconcertou os espanhóis e que acabou por arrancar a equipa para uma vitória histórica quando as coisas mais se complicavam. Lima, no seu melhor jogo desde que chegou a Portugal conseguiu um brilhante 2-3, depois de uma saída em falso de Palop, para dois minutos depois, já com o público a esvaziar o recinto, a desviar de cabeça um canto ao primeiro poste para o histórico 2-4. Que não seria o resultado final já que Frederic Kanouté, ao fechar o pano, ainda teve a habilidade para reduzir a goleada que não tapa, no entanto, a imensa superioridade do conjunto português face à equipa espanhola. Um desiquilibrio raramente visto, especialmente se temos em conta que o Braga não é, propriamente, um habitué do circo europeu onde o Sevilla também se doutorou em grande, vencendo entre 2006 e 2007 duas Taças UEFA de forma consecutiva. Um ponto mais para reforçar o agigantamento deste pequeno grande Braga, desta aventura de um técnico que trabalha tudo ao mais minimo detalhe e que, apesar de não ostentar o carisma de outros colegas de profissão, não deixa de ser a partir de hoje uma das máximas referências dos bancos portugueses.

O Sporting Clube de Braga imita assim o Boavista e torna-se no quinto clube português a pisar os relvados da Fase de Grupos da Champions League. A equipa entrará para aprender, beneficiando já do enorme encaixe financeiro que a prova garante aos qualificados, e certamente terá a espinhosa missão de defrontar alguns dos colossos do futebol europeu. No entanto o apuramento, para muitos impossível, para outros impensável, é o corolário de um épico futebolistico dificil de lograr num país pequeno, mesquinho e sem ambição. Uma equipa de desconhecidos, contratados a zero e com um rendimento de verdadeiras estrelas. Afinal não é esse também um motivo para dar um 20 a este "Super Braga"?