José Mourinho nunca foi um treinador conhecido pela sua aposta na juventude. Um rótulo que funciona bem nos modelos criativos de Arséne Wenger, Louis van Gaal ou Josep Guardiola mas que, para muitos, entra em confronto com o perfeccionismo táctico que exige o técnico português. Uma teoria bem afastada da realidade e que o Special One está prestes a desmontar na sua aventura espanhola.

Que o autor do primeiro golo na final da Champions League de 2004 tenha sido um jovem brasileiro de 19 anos contratado por petição expressa do técnico mais mediático do Mundo, é algo que parece apenas ser um detalhe para os criticos de um treinador a quem a obsessão de ganhar fez perder os admiradores do futebol purista. Aqueles que, além da estética no rectângulo também se apaixonam com as constantes ondas de novos talentos que os técnicos lançam às feras. Sim, José Mourinho seria incapaz da temeridade de Guardiola ou Wenger, capazes de alinhar em jogos a eliminar uma equipa que podia passar perfeitamente pelos júniores. O seu gene ganhador impede-o. Mas isso não faz, nem nunca fez, de Mourinho, um técnico que não aposta na formação e na juventude, como contraponto à experiência, que ele sabe (não sabemos todos?) ser vital para aguentar um longo ano ao mais alto nível.
Carlos Alberto no FC Porto (e, porque não, Paulo Ferreira ou Ricardo Carvalho, então praticamente desconhecidos), foi o primeiro exemplo de um jogador jovem moldado pelo técnico para vencer. Na sua vida pós-Mourinho o pequeno génio que destroçou Manchester United e AS Monaco eclipsou-se, como tantos outros. Mesmo em Londres, rodeado de compras milionárias, o técnico luso teve tempo e paciência para armar uma equipa de futuro. John Obi Mikel, roubado das garras do Man Utd, Salomon Kalou, Lass Diarra ou Shaun Wright-Philips, foram apostas constantes do treinador quando ainda davam os primeiros passos na alta roda. Já em Milão, a última etapa da sua odisseia desportiva, o técnico não duvidou no primeiro ano em lançar aos leões o jovem David Santone, uma das grandes promessas do Calcio. Uma aposta que só não deu os seus frutos porque na sua segunda temporada em San Siro uma grave lesão afastou o lateral dos relvados durante largos meses.
Um repasso que ajuda também a explicar as motivações de Mourinho na preparação desta nova época desportiva, a sua estreia na liga espanhola. No inicio do Verão a imagem do técnico que só apostava em veteranos constatava-se facilmente pela lista de jogadores supostamente pretendidos pelos merengues. De Ashley Cole a Steven Gerrard, de Maicon a Ricardo Carvalho passando por Michael Ballack ou Didier Drogba. Veteranos dos quais só o central português, num negócio apalavrado há um ano com Roman Abramovich, se tornou em realidade soldado do exército merengue. Num plantel onde os veteranos não abundam (Casillas, com 29, é o mais antigo e um dos jogadores mais velhos do plantel), e em que até os simbolos máximos da formação local, Guti e Raúl, foram convidados a conhecer outros ares, há uma autêntica reviravolta na aposta no mercado, depois dos 320 milhões gastos no ano passado em jogadores consagrados no mercado.
Do jovem Sérgio Canales (contratado muito antes da chegada do português) à promessa espanhola Pedro León, passando pelo argentino Angel Di Maria e os alemães Sami Khedira e Mesut Ozil, este novo Real Madrid é uma equipa mais fresca, jovem e ambiciosa.
Se Mourinho encontrou essa ambição de ganhar tudo em jogadores desconhecidos no Porto, jogadores desprezados em Inglaterra e veteranos ignorados em Itália, em Espanha a fórmula parece ser mesmo apostar em jovens lobos sedentos de sangue de vitória. A mesma táctica que o Barcelona, com a diferença que o producto é de importação, e não de fabrica próprio. Pelo menos, até ver.
La Fabrica, a rival madridista de La Masia, produz mais futebolistas de primeira divisão que o centro de formação blaugrana. O problema é que só três deles estão no plantel principal do Real Madrid. O trabalho de Mourinho, como tem sido visivel na pré-época, é recuperar esse espirito, responsável pelos triunfos da Quinta del Buitre ou da geração de Raul, Guti, Morientes e companhia, antes do inicio das Galáxias milionárias. Se para isso o português precisa de tempo, já as apostas claras em jogadores jovens para escudar Cristiano Ronaldo (25), Kaká (28), Gonzalo Higuain (23), Sérgio Ramos (24), Pepe (27), Xabi Alonso (29) e Iker Casillas (29) manda um forte sinal de golpe na mesa. De jogadores que nunca ganharam nada num clube que quer ganhar sempre.

É fácil ver que Mourinho terá nos veteranos os seus braços-direitos. A figura de Carvalho e de Casillas será preponderante no equilibrio mental de uma equipa em formação, ao contrário do projecto já há muito consolidado do Barcelona. O esquema táctico será o de menos num conjunto onde o técnico apostará forte no comportamento competitivo. Uma equipa mais equilibrada de que a da época passada, mas sem tempo para experiências. Se Ozil terá a batuta e Di Maria a responsabilidade de abrir o campo, já Khedira, Canales e Pedro León terão todo o tempo do Mundo para assimilar os processos do técnico sob a sombra de Alonso, Ozil e Cristiano Ronaldo. Um trabalho que no relvado será dificil de apreciar mas que será o grande desafio de Mourinho, o homem que rompeu com a política suícida de Florentino Perez e o auto-deslumbramento de Jorge Valdano. Talvez o único homem capaz de perceber a verdadeira realidade por detrás do Real Madrid. Só por isso, seguir o desafio da progressiva maturação da sua esquadra, será um dos pratos mais apetecidos do ano. Porque Mourinho nunca defrauda.