Durante anos o binómio Raul Gonzalez-Real Madrid fizeram parte da mitologia desportiva. O número 7 merengue sobreviveu à era dos Galácticos e manteve-se como o simbolo espanhol de um clube sempre à procura do melhor lá fora. Dezasseis anos depois, a eterna relaçao de amor chega ao fim. El Capitán vai procurar em Gelsenkirchen demonstrar que há vida para lá do Bernabeu. O estádio que nunca o esquecerá...

Nao foi o melhor jogador que passou por Concha Espina na longa história do Real Madrid, mas provavelmente é dele a mais longa relaçao de amor entre um jogador e o clube mais titulado do Mundo. Com a ajuda da imprensa da capital, Raúl tornou-se num simbolo incontornável. Um simbolo espanhol numa equipa de Galácticos estrangeiros. Um simbolo da cantera, numa equipa que sempre apostou em productos feitos. Ao contrário de Butrageño, a quem sucedeu no ataque da equipa merengue pela mao de Jorge Valdano, sempre teve do seu lado a exigente afficion do Madrid. Marcou golos fundamentais na história recente do clube. O gesto em que mandou calar o Camp Nou fez dele um herói imortal, que nisto das rivalidades os adeptos nao perdoam. Venceu tres Champions League, duas Intercontinentais e um sem fim de Ligas. Sobreviveu a Figo, Zidane, Ronaldo e Beckham sem nunca perder o seu número 7. Uma associaçao única, glorificada em Espanha, respeitada na Europa. No entanto, e apesar de tantas glórias colectivas, sempre passou ao lado dos troféus individuais, exceptuando os atribuidos pelo jornal Marca. Por duas vezes esteve perto do Ballon D´Or, mas a sua fama de avançado letal, mas limitida, passaram factura numa era onde ser espanhol ainda nao estava na moda.
Perdido numa encruzilhada, Raul tomou a mais dificil decisao da sua carreira.
O avançado anunciou hoje o que já há semanas se sabia em Madrid. Parte para a Alemanha, rumo ao Schalke 04, um clube com ambiçoes próprias e com um nivel de exigencia alto. Ao contrário de Guti, o herói maldito do Bernabeu, que rumará para o Bessiktas, para nao falar em Beckham, Henry ou Cannavaro, velhas glórias da sua geraçao, o dianteiro espanhol quer demonstrar que a sua veia goleadora nao ficou em Madrid. Desde há dois anos para cá que Raul era cada vez mais um peso para o Real Madrid. O clube era incapaz de lidar com o seu natural envelhecimento. Os adeptos pediam a sua utilizaçao, as boas épocas de Higuain significavam uma inevitavel mudança de ciclo. As más relaçoes entre o histórico Capitán, dono da braçadeira desde 2002, com o presidente Florentino Perez, tornaram a sua saida inevitável. O jogador queria mais destaque, algo condigno com o seu estatuto no balneário. Mas Perez, o homem que tentou vender o avançado por várias vezes no passado, e Mourinho, querem começar do zero. Um projecto que nao conta com pesos pesados mas data de validade à vista como o 7 e o 14.
O mérito de Raul está, como sempre esteve, na sua ambiçao. O abutre de área quer demonstrar que continua a ser um atleta de alta competiçao. Estará na linha da frente entre os titulares dos germanicos, um dos mais fortes candidatos a vencer a Bundesliga. E voltará a jogar na Champions League, onde continua a ser uma das maiores referencias goleadoras. Com Inzaghi e van Nistelrooy faz parte do trio de goleadores máximos da prova rainha europeia que venceu por tres vezes, um palmarés que supera o de qualquer outro jogador de top em actividade. E que muito diz do seu passado goleador, ele que marcou em duas das finais que disputou. 
Raul teve de sofrer de fora o sucesso do futebol espanhol. Forçado a sair da selecçao após o Mundial 2006, catalogado como o "problema de balneário" espanhol, viu de longe os triunfos recentes de La Roja. Mas em Madrid continua a ser o herói intocável, o capitao com mais trofeus conquistados dos últimos 50 anos. O seu primeiro golo com a camisola branca foi contra o Zaragoza. O último também. Uma história circular de um amor eterno. Raul pode rumar até ao coraçao do Rhur. Para os adeptos do Real, ele será sempre o seu capitán. E muitos sentir-se-ao incapazes de dizer-lhe adios...

