Num país dominado pela macrocefalia da capital é dificil encontrar pólos urbanos dispostos a exercer de alternativa. A progressiva decadência da cidade do Porto permitiu a emergência do burgo do lado esquerdo do Douro. Mas no aspecto desportivo, apesar de ter todas as condições, Vila Nova de Gaia continua a ser um deserto. A cidade vive desfigurada por dezenas de pequenas instituições enquanto procura o seu particular porta-estandarte.

Não é por acaso que o centro de estágio do FC Porto se encontro em Gaia. Nem que algumas das maiores legiões de admiradores dos dragões vivam do outro lado do rio. O dinamismo social da cidade gaiense é um dos grandes fenómenos urbanos do Portugal pós-1986. O crescimento da urbe, hoje já a terceira maior do país em população, foi acompanhada de um novo pulso social, que tanto abriu espaço ao urbanismo como ao consumismo, ao turismo ribeirinho, ao desenvolvimento da maior costa lusa de bandeiras azuis e, também, a parques empresariais de primeira ordem. No meio de toda esta politica concertada de crescimento também o desporto encontrou o seu lugar. Nos últimos 10 anos foram várias as infra-estruturas de bom nível que foram nascendo nos quatro pontos do concelho. E no entanto, desportivamente, a cidade continua a ter um papel inexpressivo, incompatível com a sua nova posição social no país. Gaia assume-se cada vez menos como uma cidade-dormitório do Porto e mais como um pólo de crescimento alternativo da zona Norte. Mas para tal ganhar forma, é necessário criar vários simbolos locais, porta-estandartes da urbe, capazes de competir com o nome Porto e tudo a que ele vem associado, do vinho que até descansa na margem gaiense ao clube que tem dominado o futebol português (e não só) dos últimos 30 anos.
Nesse aspecto Vila Nova de Gaia é hoje o que sempre foi. Uma cidade sem vida desportiva para lá da sombra do FC Porto que agora reina só na Invicta, depois de ter perdido a concorrência de Salgueiros e Boavista. Essa macrocefalia desportiva dos azuis e brancos num espaço urbano de mais de um milhão de pessoas. Um cenário que deverá mudar, caso a urbe queira assumir o seu papel.
Gaia é uma soma de pequenos retalhos, ainda dispersos pelos bairros e freguesias que dão cor à aguarela urbana gaiense. Clubes, muitas vezes, sem relações entre si, a não ser antigas rivalidades que não desaparecem mesmo quando embates são, cada vez mais, apenas a nivel local. Que uma cidade da dimensão de Gaia não tenha nenhuma equipa entre as 32 que participam nos campeonatos profissionais, é algo a reter. Que nunca tenha tido, é um sinal de que este fenómeno é antigo e de dificil solução.
A ideia promovida, há vários anos, pelo Governo Regional da Madeira, de unir os três principais clubes do Funchal (Maritimo, Nacional e União) esbarrou com a vontade popular e a administração dos três clubes. Mas a Madeira conta com dois desses conjuntos na prova rainha do futebol português há vários anos e é uma força desportiva por excelência. Em Gaia os muitos clubes que existem são inexpressivos, tanto na sua base de apoio popular, como no seu historial. Uma união séria e concertada entre muitos desses clubes de bairro poderia ser o primeiro passo para a criação desse porta-estandarte. Um cenário que nunca ganhou forma a não ser nos sonhos de pouco.
Entre os conjuntos gaienses o mais popular será provávelmente o Vilanovense Futebol Clube.
Fundado em 1914, o quase centenário clube, foi o que mais perto esteve por várias vezes de ascender aos escalões profissionais. Sem nunca o lograr. Os seus imensos problemas financeiros levaram o clube a acabar com a equipa sénior e recomeçar do zero, na 1 Divisão Distrital do Porto, depois de se ter apresentado este ano a apenas dois jogos. Desportivamente o conjunto viu-se superado na última década por um modesto clube de Sandim, o Dragões Sandinenses. Fundado numa das freguesias rurais do concelho, com o Douro à vista, o clube é naturalmente por nome facilmente associado ao FC Porto. Também ele, depois de vários anos na 2 Divisão B, está agora condenado a disputar o campeonato distrital portuense. No centro histórico sobrevive o Coimbrões, pequeno clube local que tem sobrevivido à razia dos clubes cêntricos, tendo garantido a promoção à II Divisão.

Entre as restantes freguesias há várias instituições de forte implantação local mas sem expressão desportiva histórica. Do Valadares ao Avintes, do GD Candal (que durante vários anos teve uma forte ligação com o Boavista) ao SC Canidelo, passando por Arcozelo, AD Grijó, São Félix da Marinha, CF Serzedo, Gulpilhares FC, todos eles a militar nas provas da AFP, são vários os nomes mas poucos os triunfos. Para que se tenha uma ideia, o clube desportivo com mais sucesso da zona vive na fronteira com o concelho. O Sporting de Espinho foi, durante alguns anos, equipa de 1 Divisão. Mas a localidade, já do distrito de Aveiro, sofreu também na pele a crise económica que destroçou os pequenos clubes portugueses a partir de meados dos anos 90. E hoje milita na II Divisão
Face a este pobre cenário, é legitimo pensar que dificilmente Gaia alguma vez terá expressão no panorama desportivo português. E no entanto todas as condições estão reunidas para que a situação se inverta. Seguindo o exemplo de algumas cidades europeias, até há bem pouco tempo igualmente inexpressivas no panorama desportivo, a aposta nas infra-estruturas e na formação juvenil pode ser o pontapé de saída para uma maior profissionalização das instituições. Não é natural, nem sadio, que coexistam tantos clubes num espaço tão pequeno. O processo natural, por muito largo que possa vir a ser, tenderá a reforçar um a dois pólos centrais com o natural desaparecimento ou empobrecimento dos restantes. Uma politica que poderia eventualmente receber o apoio camarário e que certamente daria as armas financeiras e estruturais para que um destes clubes emerja como o simbolo futebolistico do concelho nortenho. Se há vários anos essa posição poderia ter sido assumida pelo Vilanovense, clube cêntrico e mais antigo da zona, agora o mais provável é que esse pólo de decisão se centre na periferia do centro histórico gaiense.

Quando, a meados dos anos 90, o futebol português descantralizou-se para os subúrbios, permitindo a subida às primeiras divisões de clubes das cidades satélites de Porto, Coimbra e Lisboa, procedeu-se ao natural esvaziamento do futebol da zona interior. De todas essas urbes periféricas, apenas Vila Nova de Gaia se manteve longe da ribalta. Hoje o cenário é, aparentemente desolador, particularmente para uma cidade que quer ser o outro peso na balança da Área Metropolitana do Porto. A emergência de uma potência desportiva regional com âmbito nacional é, portanto, um elemento chave na própria afirmação do concelho. As condições estão reunidas. Será suficiente?

