Vila Belmiro é mais do que o nome do estádio do Santos, o clube que Pelé eternizou na história do desporto mundial. Na sua imensa escola de formação de talentos o recinto baptizou também a nova geração de estrelas brasileiras que pede desesperadamente a oportunidade de reinvindicar-se. Oito anos depois da explosão do binómio Diego-Robinho, o clube do porto paulista está rendido aos novos "Meninos da Vila".

Neymar. Paulo "Ganso" Henriques. André. Wesley.
São os nomes e os rostos desta revolução mediática que assaltou este ano o Brasileirão. De tal forma que metade do país ficou estupefacto quando Dunga, o mal amado, rejeitou entrar na onda e levar os atletas ao último Mundial. Jogadores com meio ano de futebol internacional nas pernas mas com um fascinio que não deixa ninguém indiferente. Geração que sabe que o futuro é seu.
Desde que Robinho chegou ao Santos, por empréstimo do Manchester City, que o fenómeno mediático à volta do clube paulista triplicou. De isso aproveitou-se também a nova geração de talentos de um clube habituado a dar ao Brasil alguns dos seus melhores jogadores. Esta equipa santista, lançada por Dorival Jnr, rejuvenesceu-se por completo e aposta agora em atletas, todos eles menores de 20 anos, para voltar aos titulos que escapam desde que Diego, Robinho, Elano, Alex, Renato e companhia abandonaram o país rumo ao sonho europeu.
Neymar e Paulo Henriques lideram a nova vaga. São cobiçados por mais de meia Europa e resta saber qual será o preço desorbitante que Chelsea, Real Madrid, Barcelona, AC Milan ou Inter estão dispostos a pagar para conseguirem os serviços das futuras estrelas brasileiras que o país quer ver à frente da selecção canarinha no "seu" Mundial, daqui a quatro anos.
Neymar é o mais atrevido de todos.
Médio centro ofensivo, é um jogador com uma técnica fora do vulgar. Domina a bola como se fosse parte do seu organismo. Não tem a destreza táctica de um jovem europeu mas joga com o espirito livre de um miudo que dribla os barcos e velas que albergam o porto santino.
Com 19 anos é a já uma estrela, mesmo antes de ser um jogador formado. Tem um pontapé demoniaco e um estilo pícaro, capaz de inventar uma "paradinha" sem piedade do guardião contrário, no momento mais angustiante de um jogo decisivo. Com 15 anos já era a grande sensação do futebol juvenil brasileiro. Agora deu um salto qualitativo que lhe permite ombrear com os melhores, sem receios. A sua arrancada explosiva, recortada com vários dribles sem direcção determinada, tornam-no tão imprevisível como perigoso. Dos rivais diz que não que ter piedade, que o futebol é mais bonito quando se marcam 15 golos em vez de 5. Um espirito competitivo admirável mas que pode virar-se contra o feiticeiro quando passar o resto dos seus anos em ligas onde o 0-0 dura, dura, dura...
Do outro lado do ataque surge o elegante "Ganso", uma das estrelas maiores do último Mundial de sub-20 que o Brasil perdeu na final contra a selecção ganesa. Paulo Henriques é um esquerdino com um olho de falcão. Joga descaído no flanco mas com a mente no miolo central. Dá, reparte, volta a dar e assim enreda o adversário numa série de movimentos de plasticina pura. Perito no último toque, o "Ganso", é provavelmente o mais completo dos pequenos fenómenos que brotam em Vila Belmiro. Talvez por isso seja, também, o mais comedido.
Para completar a "Santissima Trindade" do Peixe, alcunha histórica do clube portuário, está o jovem André, dianteiro de 17 anos e muitos sonhos. O seu estilo de jogo e aparência fisica lembram Robinho. E não lembrava Robinho um tal de Pelé? Chamam-lhe o "garoto" numa equipa de miudos, mas o seu faro de golo é de gente grande. Trinta golos em seis meses é sempre muito. Mesmo nas ligas estaduais brasileiras. É rápido, gosta de se associar com os seus dois parceiros de ataque, e joga bem longe da área, um defeito que por vezes acompanha muitos dianteiros jovens brasileiros. Para ele o Mundo só termina numa baliza.

Se estes são as estrelas que fazem capa dos jornais diários brasileiros, a verdade é que este plantel santista tem mais opções de futuro. Do jovem Wesley, um médio ala com critério e rapidez ou o guardião Felipe, que superou um controlo anti-doping positivo para voltar à sua melhor forma. Os tubarões europeus cercam, cada vez mais de perto, o peixe miudo da Vila Belmira. Resta saber se algum deles conseguirá evitar cair na mesma ratoeira em que mergulharam Diego, Robinho, Elano e companhia.

