O país que apresentou ao mundo o Wunderteam há muito que agoniza. A sua liga perde, ano atrás ano, popularidade e carisma e a equipa nacional cometeu o feito de cair na primeira ronda do Europeu que organizou. No meio de tanto drama, uma boa noticia para alegrar o futebol austriaco: Yashin Pehlivan, o profeta dos descrentes.

A diáspora turca tem uma forte presença em Viena. Longe vão os dias do cerco, mas é inevitável caminhar pelas ruas arejadas da capital do centro da Europa e não sentir a presença de Istambul por todos os poros. Num país orgulhoso da sua origem, um país onde países nacionalistas de extrema-direita conseguem votações expressivas, não deixa de ser irónico que o futuro da sua equipa nacional esteja depositada num desses filhos de nenhum sitio, a meio caminho entre a Turquia e a Áustria.
Yashin Pehlivan nasceu em Janeiro de 1989 em Viena, filho de emigrantes de segunda geração vindos da Turquia nos anos 60 à procura de uma vida melhor. Para o jovem essa vida passa pelo futebol. Sempre foi assim. Desde os seus 10 anos que joga regularmente por clubes vieneses e pela equipa nacional de um país que tem em Krankl e Polster os seus últimos grandes heróis...de há mais de 20 anos. A Austria perdeu toda a importância que detinha no futebol internacional e, exceptuando o Euro 2008 que organizou, desde 1998 que não participa numa grande prova internacional. Muito pouco para um país com tanta história. Quando Pehlivan começou a jogar, o seu país despedia-se sem honra nem glória do Mundial de França. Dois anos depois começou a sua aventura no First Vienna FC, o clube mais antigo da Áustria. Passou aí os seus anos de iniciado, com breves empréstimos ao clube que originalmente o formou, o modesto Breteinse Wat 16.
Dono de um pé esquerdo espantoso, Pehlivan começou a sua carreira como médio ofensivo. Mas a pouco e pouco foi recuando no terreno de jogo até que se viu no miolo do relvado a pautar o ritmo das suas equipas. Transformado num pensador por excelência, o jovem Pehlivan tornou-se na grande sensação do futebol juvenil austriaco durante largos anos. Teve de esperar, no entanto, até cumprir os 20 para estrear-se na liga principal pelo Rapid Wien, clube que o contratou em 2003.
As notáveis exibições que logrou nas suas primeiras aparições foram uma verdadeira lufada de ar fresco num campeonato que vivia um duelo entre os grandes de Salzburg e Graz, bem longe do eixo central vienense. De tal forma que deu o salto à equipa de sub-21 austriaca, onde passou apenas três jogos antes que o seleccionador, Didi Constantini, o chamasse para a equipa principal. Pela Áustria disputou os últimos jogos de qualificação para o Mundial, a finais de 2009, e também os primeiros amigáveis de 2010, como titular no eixo do miolo austríaco.
A sua natural evolução dentro da liga austriaca começa a deixar antever que o futuro rapidamente passará por uma transferência para Alemanha ou Itália, local habitual de paragem da esmagadora maioria dos promissores austriacos. Poucos são os que, efectivamente, aguentam o ritmo competitivo de outra prova. Mas pouco também têm o dom de entusiasmar tanto um estádio como o jovem Pehlivan.

Ao contrário da Bélgica, outra selecção clássica em horas dificeis mas que conta com uma verdadeira geração de luxo, a Áustria depende muito do talento genuíno deste jovem para reestruturar a sua equipa nacional. A fase de apuramento para o próximo Europeu será a batuta sob a qual se medirá a sua real influência. A hora da verdade não está longe.

