O rei que ninguém esperava subiu ao palco para ser coroado como o melhor. O mais improvável entre os candidatos reais ao ceptro. Do lado de lá do mar de la Plata há outro Diego capaz de levar um povo à loucura. De pegar num país às costas e carregá-lo rumo à história. Diego Fórlan foi eleito pela FIFA como o Melhor Jogador do Mundial de 2010. É dificil contrariar a votação. Este Diego também é mágico...

Quando se estreou em 2002 num Mundial de Futebol, o jovem avançado Diego Fórlan apontou um golo memorável.
Estava longe de imaginar que teria de esperar oito anos para repetir a dose. A longa ausência do Uruguai da elite do futebol remonta há quarenta anos. Falhou o apuramento para o Mundial de 2006 quando o avançado, então ao serviço do Villareal depois de um periodo menos bem sucedido no Manchester United, estava na máxima forma. Tinha ganho a Bota de Ouro, chegado com o pequeno clube valenciano às meias-finais da Champions League. Mas não teve outro remédio do que ver o Mundial desde casa. Longe do relvado.
Desta vez não houve desencontros. Noutro ano mágico, com vitória na Taça UEFA - e golo decisivo incluido na final - ao serviço de outro clube espanhol, desta feita o Atlético de Madrid, o dianteiro charrua, conhecido pela afficion colchonera simplesmente como o "uruguayo", voltou a um palco global. Na África do Sul deu cartas do primeiro ao último dia. O seu nome foi uma figura omnipresente na prova, ofuscando todos os outros jogadores do seu continente. Nem Kaká, nem Maicon, nem Julio César, nem Robinho, nem Messi, nem Aguero, nem Tevez, nem Barrios...ninguém da América do Sul esteve ao mais alto nível na prova sul-africana. Ninguém, excepto Fórlan. O herói do povo de um país com 3 milhões de habitantes e uma história de amor com o futebol dificil de explicar.
Se no primeiro dia de prova Forlan não conseguiu bater Hugo Lloris, a verdade é que desde aí só falhou por duas vezez o seu encontro com as redes.
Apontou um total de 5 golos, tendo entrado directamente na lista dos melhores marcadores do torneio, perdendo a Bota de Ouro para o jovem Thomas Muller por uma mera questão de minutos. Destroçou a África do Sul, com dois golos chave, foi um quebra-cabeças para a defesa mexicana e contra a Coreia do Sul não marcou mas foi chave na parceria com o seu jovem sucessor, Luis Suarez. No duelo épico contra o Gana, Fórlan remou sozinho contra um continente. Marcou, como só ele sabe, de uma forma sublime, o golo do empate do Uruguai. E na marcação das grandes penalidades não tremeu. Cumpriu com o seu designio. Tremeu ao ver "el Loco" Abreu picar a bola e festejou o regresso dos sul-americanos a uma meia-final. Desde os dias do seu pai, um dos jogadores mais influentes da equipa uruguaia dos anos 60 e 70, que nenhuma formação celeste tinha tido a oportunidade de jogar uma semi-final. Nesse duelo com a Holanda mecânica voltou a dar a cara. Marcou quando os holandeses já festejavam e só uma lesão, inoportuna como todas, o atirou demasiado cedo para o banco, deixando-o a sofrer quando o golo de Maxi Pereira devolveu a esperança a um povo que não acreditava que a sua equipa podia ir tão longe. Com este Diego, tudo é possível. Até fazer tremer a toda poderosa Alemanha. Com mais um golo seu. O quinto do torneio, o seu sexto - e provavelmente último - num Mundial FIFA. A história de amor do charrúa com o golo continuará este ano, previsivelmente, uma vez mais nos relvados espanhóis. Mas com um apetecido embrulho. Nem Sneijder (segundo), nem Villa (terceiro), nem os alemães Schweinsteiger e Muller, ou o ganês Gyan. Nenhum foi capaz de roubar a Fórlan o único prémio que ele não esperava ganhar. Talvez por isso, pela sua alegria contagiante, tenha sido ele o que mais o mereceu.

Com 31 anos Diego Fórlan é um mito do futebol sul-americano, entrando para a galeria das figuras inesquecíveis do futebol uruguaio, orfão de um nome impactante desde os dias de Enzo Francescoli. Mas nem ele, o homem que ensinou Zidane a jogar, conseguiu criar uma empatia com o golo, e com o público, como o dianteiro de Montevideo. Só os mais velhos se lembrarão dos Ghiggia, Schiaffino ou Varelas do passado. Os mais novos nunca esquecerão o cabelo louro ao vento de um dianteiro que levou a festa para um pequeno país, esmagado entre dois gigantes, mas com um coração de ouro e uma coragem de ferro. Como ele.

