Quinta-feira, 8 de Julho de 2010

A Itália reencarnou na selecção espanhola. Depois de um Mundial mediocre, La Roja decidiu que no jogo que mais importava era a hora de sacar todas as suas armas. Como a azzurra há quatro anos. Frente a outra Alemanha que também apaixonava, e que não mostrou ter estofo. Os germânicos ganharam em estética e perderam em garra. Espanha fez o seu jogo, repetitivo até à medula, rematou com a antiga "Fúria", e conseguiu justamente o apuramento para a sua primeira final.

Afinal este Mundial é a verdadeira negação da tradição. Afinal o favorito chegou até ao fim, a final é só de europeus - e nenhum deles com um titulo, algo que não se vê desde 1978 - fora do Velho Continente, a equipa que perdeu o primeiro jogo pode ganhar o último e as pernas não tremeram, como sempre, aos espanhóis. Foram os alemães a equipa mais espectacular do torneio, algo inédito, quem soçobrou face à pressão do momento. Como há dois anos. Com a diferença que, desta vez, a Alemanha era melhor que a Espanha. No papel. Em campo as coisas correram de maneira diferente.

A baixa de Muller prejudicou o jogo rápido e ofensivo germânico, até porque Piotr Trochowski é um jogador mediano até ao tutano. Passou sem chama pelo jogo. Joachim Low, o técnico que teve o mérito de golear Inglaterra e Argentina, foi destroçado por Vicente del Bosque. A equipa espanhola tem-lhe tomada a medida e nota-se em Low um respeito (medo) excessivo. Só isso explica a renúncia ao seu estilo de jogo por um modelo hibrido que tornou a temivel equipa teutónica num gato inofensivo. Sem unhas. Os alemães deram a bola à Espanha, um erro, e não souberam como tirá-la. Perderam a velocidade no contra-golpe e não criaram mais do que duas ocasiões de golo em todo o jogo. Foi a prestação mais fraca da equipa em dois anos. Precisamente no jogo mais importante. Mesut Ozil esteve demasiado só. Comido por Sergio Busquets, imenso ontem, nunca ajudou a ganhar a determinante batalha do meio-campo onde Espanha surgia com quatro elementos contra dois alemães. Low foi incapaz de corrigir o erro em 90 minutos. Pagou-o caro. Del Bosque arriscou ao deixar Torres no banco. Apostou em Pedro e ganhou. O jovem cumpriu um ano mágico e fez gato sapato da defesa alemã. O seu egoismo impediu uma vitória espanhola mais clara. A sua juventude foi suficiente para abanar o jogo horizontal e irritante do meio-campo hispânico. Xavi voltou a pegar na batuta e a pautar esse modelo asfixiante que tem tanto de estético como de pouco eficaz. Não fossem os remates de meia-distância de Villa e Xabi Alonso e a Espanha da primeira parte teria sido pouco diferente da dos jogos anteriores. A questão é que a Alemanha não parecia disposta a dar a réplica. Não quis fazer o jogo duro de pressão alta de suiços, portugueses e paraguaios, que optaram por não deixar a Espanha jogar confortavelmente com a bola. Mas também não teve a coragem de pegar na bola e partir para a frente. E por isso perdeu. Merecidamente.

 

Esta nova Alemanha multicultural é uma equipa bela quando o rival não incomoda, e bastante inócua quando o contrário pressiona. Viu-se com a Sérvia, viu-se com a Gana. E voltou a ver-se com a equipa espanhola.

Faltou-lhe o punch que definiu décadas de futebol alemão. As recuperações in extremis com os Rummenige, Bieroffh ou Mullers do passado. Esta Alemanha nunca se viu capaz de marcar, quando mais de igualar a contenda. Foi uma fera amansada desde o hino inicial. Futebolisticamente a Espanha não é melhor. Esta equipa continua a funcionar bastante melhor como um hábil producto de marketing acente na escola do Barcelona. Afinal, ontem, só quatro jogadores não actuavam no campeão espanhol. Uma dependência nunca vista. Mas é uma equipa mentalmente muito forte. Aguentou a derrota inicial com estoicismo. Soube dar a volta com a dose certa. Não lhe tremeram as pernas quando os fantasmas do passado voltaram. Abdicou de jogar bem para ganhar. Herdou essa cultura italiana que hoje mais nenhuma equipa no Mundo tem. E isso faz deles um rival temivel, altamente competitivo. Não se vê nessa troca de bola lateral constante um fluxo de ideias como as equipas que marcaram a evolução do jogo. Apenas a necessidade de não perder a bola até o rival cometer um falho de marcação, até que um ressalto resulte, até que um remate rasgue o jogo. E assim matam. Como o golpe imenso de Charles Puyol, um golo de raça à antiga espanhola, capaz de quebrar com a monotonia de um colectivo que joga bem para o lado e pouco para a frente.

O tento espanhol não mudou o jogo e devia ter sido um ponto de inflexão. Low já tinha perdido a batalha quando perdeu os nervos. Tirou Boateng e lançou Jansen. Sem perceber que o problema estava em Podolski, que nem defendia nem atacava. Ou na ausência de um parceiro para Schweinsteiger sair a jogar. Ou no mutismo de Trochowski. Não viu nada disso até que lançou Kroos, tarde demais. Faltou golpe de asa, coragem. Nem a velocidade de Marin ou a verticalidade de Cacau. Ontem sentiu-se a falta do clássico panzer. No dia em que Ballack foi para casa, "expulso" pelo balneário, a sua ausência fez-se notar. Ironia das ironias.

A Espanha chegou à final ganhando bem e com solvência o único jogo que realmente conta. Foi uma equipa afortunada, com arbitragens contemporizadoras (ontem, uma vez mais, um penalty ficou no bolso) garantidas pelo próprio Villar, e que soube matar os jogos quando era necessário. O seu futebol está a anos-luz de outras grandes selecções. Em números, serão o pior finalista de que há memória, incapazes de ganhar por mais de 1-0 nos jogos a eliminar. Nem a pior azurra! Só contra as Honduras ganharam com mais de um golo de diferença. Muito pouco. Mas espelho de um Mundial muito pobre. Claro que a imprensa espanhola já compara esta equipa ao Brasil de 70. Os complexos de inferioridade são assim. Mas ontem o verdadeiro conjunto "complexado" foi o germânico. Quando Low anunciou que Espanha teria vários Messis, o mundo pensou que estava só a ser educado. Mas não. Apesar de ter anulado o astro argentino, o conjunto alemão foi incapaz de anular os "baixinhos" espanhóis. E isso paga-se caro. No caso espanhol pode valer um Mundial. Um triunfo inédito para rematar uma era de ouro no desporto espanhol. Algum dia teria de ser...


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Miguel Lourenço Pereira às 08:36 | link do post

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