O Mundial é para as melhores equipas ou para as mais afortunadas?
Os amantes do Brasil e França de 82, da Dinamarca e URSS de 86, da Holanda de 74 e 78, de Portugal de 66, Hungria de 54, da Alemanha de 06 ou da Roménia de 94 têm direito a estar apreensivos. Nenhuma equipa jogou com a qualidade da Alemanha nesta prova. Do outro lado está a Espanha. Um conjunto que chegou cheia de fogo de artificio mas que foi demonstrando um cinismo e fortuna digna da melhor Itália. Hoje a qualidade defronta a persistência. A equipa das goleadas contra o conjunto das vitórias sofridas, contestadas, sempre pela minima. Os deuses do futebol têm a última palavra.

O polvo Paul prediu a vitória de Espanha mas já à dois anos se enganou no duelo hispano-germânico que marcou o final do Europeu da Austria-Suiça. Joachim Low estará com a sua camisola azul e Casillas tentará não distrair-se com a sua namorada, depois de ter voltado à condição de santo ao parar o penalty de Cardozo, o homem que afinal não é propriamente conhecido pela sua eficácia. Todo o tipo de superstições e cálculos passam pela cabeça dos adeptos de ambas partes. Hoje não há neutrais. Nem os holandeses, desejosos de vingar-se de 1974. Sim, daquela final.
Se Del Bosque sabe que a Alemanha "é a equipa que sempre vai às finais", já Low tem consciência de que a sua equipa terá de parar "vários Messi". A Espanha será certamente uma equipa distinta de Inglaterra e Argentina. Os primeiros eram desorganizados à frente e lentos atrás. Os segundos eram desorganizados atrás e ineptos à frente. O campeão da Europa é uma equipa mais equilibrada. Mas não é invencivel. Como o Barcelona, tão elogiado, que caiu diante do Inter, também esta Espanha tem problemas de caracter. Tem vivido (e sobrevivido) graças aos golos de Villa (só Iniesta marcou um golo na prova sem o selo de Villa) e uma que outra ajuda arbitral séria (a não expulsão do asturiano frente às Honduras, a expulsão de Medel no jogo com o Chile, o golo em off-side frente a Portugal, o tento anulado em fora-de-jogo ao Paraguai...). Falta-lhe a classe que exibiu há dois anos. Nessa altura a Espanha era outra equipa, mais equilibrada e incisiva. Hoje é mais organizada mas tem dificuldade em tratar o rival por tu. Em rasgar. E em criar oportunidades de golos. É um conjunto com mais medo a perder do que há dois anos, quando vivia o estado de graça de fazer história. Quem ganha fica diferente. Mais cinico. É inevitável. Com esta equipa não seria diferente. Não foi. Não podia ser. Os erros nos espaços defensivos estão aí, mas não tem havido dianteiros letais para os aproveitar. A época de Casillas está longe de ser perfeita. E o jogo de toque vertical do génio Xavi e do malabarista Iniesta ressente-se da notória falta de gasolina e ideias do duo do Barcelona. Mas são favoritos. Chegam com um galão ao ombro, com o olhar aprovador da FIFA e a simpatia de muitos. E com o cinismo que muitas vezes é chave nestas provas.
A Alemanha não tem nada a perder e essa é a sua maior vantagem. Talvez a mesma que exibiam espanhóis em 2008. E que funcionou.
Futebolisticamente são uma equipa muito superior. Rápida nas transições, letais no contra-golpe, eficaz na circulação de bola e incapaz de sacrificar o modelo de jogo por uma abordagem mais conservadora (ao contrário do duplo-pivot defensivo espanhol). Jogam num 4-2-4 que se transforma em 4-2-3-1 no processo defensivo. É a equipa mais jovem de sempre da Mannschaft. E uma das mais jovens de sempre a chegar tão longe num Mundial. Das mais goleadores de sempre e das que menos concede golos. Um conjunto apaixonante em todos os sentidos. Que goleou dois favoritos ao titulo. Se chegar à final de domingo, a Alemanha será a primeira equipa a chegar tão longe eliminando três equipas do top 10 do ranking FIFA. Talvez isso pese sobre eles. Habitualmente os finalistas são aqueles que rivais mais acessiveis vão encontrando. Uma fórmula que funciona na gestão do desgaste fisico e psicológico. A idade, vantagem em tantas coisas, pode pesar também na hora H. Mas afinal, esta é a Alemanha. Aquela equipa que Liniker sempre disse que ganha sempre. A equipa que já sabe o que é perder (aquela derrota contra a Sérvia, camisola errada Joachin) e o que é sofrer (a vitória in extremis frente ao Gana) e que também conhece o êxtase. Uma equipa que mistura a maturidade com a sede de vitória. Afinal, desde 1996 que a mais bem sucedida selecção europeia não prova um titulo. A mesma que, até nas horas baixas, chega às finais (2002, 2008). A mesma que tem uma espinha encravada na forma de um país arrogante que já se proclamava campeão do Mundo antes de chegar ao fim de África. Os favoritos nunca ganham. É verdade. Mas os europeus também nunca ganhavam fora da Europa. Este Mundial é um quebra-mitos. E Klose quer entrar nesse jogo. Dois golos são suficientes para ultrapassar Ronaldo. E Villa, já agora, o único espanhol endiabrado. A jogar a um ritmo diferente dos colegas. Na equipa alemã todos jogam ao mesmo. Mesmo sem o genial Muller, um dos homens chave da prova, esta Alemanha não tem medo de polvos, touros ou do piscar de olhos de Blatter a Villar. Só pode temer o fantasma que ensombra os melhores e que acaba tantas vezes por coroar os mais irritantes rivais. Por muito marketing que tenham por detrás.

O duelo de hoje leva-nos ao recinto onde a Espanha arrancou a prova. E onde perdeu. Será uma boa oportunidade para medir a resistência mental dos hispânicos, que ainda não souberam o que é jogar sem sofrer em todo o torneio. Mas também para atestar, até que ponto o génio explosivo desta Mannschaft está apto para as grandes noites. Para os alemães o jogo só acaba no fim (a Turquia deve lembrar-se bem disso). Para os espanhóis está acabado antes de começar. A Holanda espera tranquilamente o seu rival. Os deuses do futebol têm a última palavra. E esperemos que não gostem de polvo.

