Para uns são 60 anos. Para outros, 32. O céu terá uma cor particular na noite de 11 de Julho. Laranja holandês ou um celeste bem uruguaio? De uma selecção que ensinou o mundo a jogar, levando dois titulos meritórios de bónus, e outra que revolucionou o jogo pela última vez, e teve apenas direito à triste honra aos vencidos. Um duelo que enfrenta duas escolas miticas em processos de progressivo distanciamento da sua génese. Talvez seja por isso que hoje são eles que jogam.

O inesquecível Eduardo Galeano, autor do mais belo livro sobre a essência do futebol, relembrou estes dias que parte do sucesso da equipa celeste está no seu regresso às origens. Desde 1970 que o primeiro país sul-americano a vencer dois Mundiais (antes do Brasil e Argentina sequer terem ganho o primeiro) está ausente das meias-finais. Uma regressão de resultados acompanhada de uma regressão no estilo de jogo. Se na final de 1950, em pleno Maracana, o Uruguai fez metade das faltas do que o Brasil, hoje em dia a equipa sul-americana é conhecida mundialmente pela sua dureza. Tem a mais rápida expulsão da história nos seus registos e as pernas de jogadores mais virtuosos como foram holandeses, alemães, dinamarqueses, espanhóis ou franceses certamente estariam aí para demonstrá-lo.
Esse estilo nada tem a ver com a maravilhosa equipa que se sagrou bicampeã olímpica em 1924 e 1928 e campeã do Mundo em 1930 e 1950. Dessas mágicas gerações resta pouco. Oscar Tabarez, o treinador que levou o Peñarol a vencer uma Copa dos Libertadores (perderia contra o FC Porto a final da Intercontinental), tem o mérito de contrabalançar esse futebol pouco limpo da celeste para uma versão mais macia. Honestamente o Uruguai não é uma máquina de bom futebol. Vive da segurança do seu eixo defensivo (dois golos sofridos em cinco jogos) e nos destelhos de magia dos seus avançados. Quando não é o faro goleador de Diego Fórlan, é a inspiração de Luis Suarez ou a loucura de Abreu. Não há aqui, propriamente, um sistema de jogo trabalhado e infalível. Mas há ritmo, dinamismo e rápidas transições para compensar essa torpeza. E um jogo bem mais suave e limpo.
Se a equipa sul-americana foi a que mais jogos teve de disputar para chegar à África do Sul (20), os holandeses precisaram apenas de seis para confirmar um apuramento que terminaria invicto. A Holanda é a melhor selecção do Mundo. Quem o diz é o "outro Mundial", uma competição imemorial, ao bom estilo do boxe, em que o cinto de campeão está na equipa que vai ganhando à anterior dona, independentemente das provas, jogos ou rivais. Há mais de um ano que o titulo pertence à Orange, e como os holandeses se recusam a perder (são o único onze só com vitórias nesta prova), ainda é um mérito que lhes pertence.
De todas as equipas laranjas esta é talvez a menos espectacular. Mas é certamente a mais eficaz. Uma fase de qualificação invencível e uma série de jogos complicados ultrapassados sem brilhantez mas com classe. O triunfo diante do Brasil, acabando com uma maldição de 26 anos frente aos sul-americanos, é o sinal de que esta equipa está bastante diferente. Acenta no génio de dois jogadores, talvez os dois nomes próprios do ano (a par de Bastian Schweinsteiger e Thomas Muller), e no trabalho quase perfeito dos restantes oito elementos no terreno de jogo. Desde o seguro Sketelenburg ao imprescindível Dirk Kuyt. Para Bert van Maarjwick, tanto Wesley Sneijder como Arjen Robben, são o toque de classe à eficácia que exibem as camisolas laranjas. Ao contrário das equipas derrotadas em 74, 78 (na final) ou 98 (nas meias), esta Holanda é um bloco capaz de entusiasmar e irritar. Defende bem, controla o miolo, ataca pouco mas de forma eficaz. Joga pelo meio apesar dos talentosos extremos. E acima de tudo preocupa-se mais com o resultado do que com o jogo. Pode ter perdido alguns dos fãs neutrais (se é que há disso no futebol), mas está a responder com o que sempre faltou ao futebol holandês. Triunfos em jogos chave. O titulo que se resistiu aos génios da década de 70, da equipa do Itália 90 ou do França 98, está ao alcance da mão de um conjunto sem estrelas deslumbrantes, mas com um indice de trabalho e uma disciplina férrea impar.

Neste duelo entre dois dos países menos populosos que viajaram até ao fim do continente africano, há um perfume de história passada que ressoa por todos os lados. Os que sobreviveram à era do Uruguai mágico lembram-se ainda da alinhação que calou os 200 mil brasileiros que encheram o seu santuário. Os que se lembram de todas as belas equipas da Laranja Mecânica sabem que não há nenhum país na história do futebol que mereça tanto um titulo que lhes escapa há uma eternidade. Não pode haver derrotados hoje. Não há polvos para confundir e modelos para chamar a atenção. Há apenas o ecoar de uma bola, um passe de Sneijder que recebe Cruyff, um centro de Forlan para Ghighia cabecear. Um jogo perdido no tempo.

