Portugal enfrenta hoje um dos desafios mais importantes da sua história. Bater a Espanha, actual campeã da Europa e musa dos puristas do romantismo futebolistico, era a maior bofetada de luva branca que uma geração criticada e cercada poderia dar. Era um golpe na mesa de uma equipa longe do talento individual da "geração de ouro" mas com o espiritio de sacrificio que tanto pedem estas provas.

Espanha está nervosa. Espanha está preocupada. Espanha duvida.
A equipa que chegava à África do Sul com um imenso recorde de invencibilidade (um jogo perdido em dois anos e meio) e com o histórico titulo europeu no bolso. Mas que à primeira se desmoronou, como um castelo de cartas. Contra a Suiça a equipa espanhola jogou como sempre mas perdeu. Algo que parecia impensável e que abalou fortemente a auto-confiança de uma geração que acreditava ser especial. E todos sabemos que a auto-confiança espanhola é, habitualmente, para inglês ver. Por dentro, os nervos dos espanhóis costumam ser uma imensa gelatina, incapaz de manter-se de pé nos momentos dificeis. Aquela tarde fez história e abriu debates até então impossíveis. Questinou-se o modelo idolatrado, perguntou-se sobre a utilidade de dois médios de contenção, da presença de um dianteiro apagado ou se era melhor jogar com extremos. Dúvidas que não existiam antes, numa equipa que parecia que entrava em campo já como ganhadora. Apesar das vitórias nos seguintes jogos, a qualidade de jogo baixou muito. Nem a exagerada imprensa espanhola o consegue esconder. As Honduras sofreram apenas dois golos, um deles num ressalto e o Chile idem aspas, com uma preciosa ajuda do guardião e da equipa de arbitragem. Um penalty falhado, muitos remates ao lado, pouca precisão no passe e jogadores atropelados por colegas no miolo. Esta era a Espanha que ninguém achava que iria ver. Uma equipa marcada profundamente pelo peso da pressão.
Portugal, pelo contrário, surge solta. Sem responsabilidades.
Depois da "Geração de Ouro" ter chegado ao seu final, ninguém esperava que a equipa se mantivesse na ribalta. A saída de Scolari parecia deixar entreaberta a possibilidade do terceiro país com melhor média de prestações nas provas da última década, só atrás de Alemanha e Brasil, entrar num periodo de vacas magras. Cristiano Ronaldo, simbolo máximo do futebol internacional, era uma figura mais do que ausente e os seus escudeiros não tinham o perfil de Figo, Rui Costa, Paulo Sousa, Maniche, Costinha, Baía, Jorge Andrade, Nuno Gomes ou JV Pinto.
No meio de tanta critica, Carlos Queiroz apostou na força do colectivo. Montou uma equipa pensada de trás para a frente com um eixo defensivo extremamente sólido. A prova está nos poucos golos sofridos por Portugal nos últimos dois anos. Eduardo, Paulo Ferreira (depois da lesão de Bosingwa), Ricardo Carvalho, Bruno Alves e Duda (agora rendido brilhantemente por Coentrão) deram essa estabilidade que sempre faltava à equipa das quinas. A partir daí cresceu a equipa, com um jogo no miolo sem a mesma classe de algumas formações de renome, mas com tremenda eficácia. O golo continua a ser o grande problema, com a enganadora goleada à Coreia do Norte a tapar as debilidades face a marfilhenos e brasileiros. Mas, mesmo assim, a equipa portuguesa é hoje mais equipa do que era quando chegou à África do Sul, envolta em polémicas internas e criticas externas. É um conjunto dificil de bater, sabedor dos pontos fracos do rival e com uma tremenda paciência para dar a estocada. Talvez o Portugal mais italiano, mais "mourinhiano" que temos visto. E quem não se lembra do que sucedeu ao Barcelona, que até dá oito jogadores a esta equipa espanhola, às mão do técnico português?

A vitória é o único objectivo aceitável para hoje. O medo não tem razão de ser, a Espanha deixou há muito de ser o papão que todos vendiam. Pode suceder de tudo, afinal isto é futebol, mas não estaremos diante de um David contra Golias como parte da imprensa quer vender. Veremos sim, um jogo tacticamente complexo, onde vencerá a equipa que melhor saiba gerir a pressão. A velocidade portuguesa contra a temperança espanhola. Os nervos poderão decidir. Os de Cristiano Ronaldo e o seu ego ou os do atascado colectivo espanhol. Por aí penderá a balança. Depois virá a fortuna, haverá quem se lembre de Aljubarrota. Mas o jogo é na Cidade do Cabo. O cabo em que dobramos o Mundo!

