Os Mundiais existem em duas etapas muito claras. Aquela onde nos encantamos com pequenos equipas repletas de ambição e bom futebol. E a fase em que os seus sonhos são esmagados por uma potência superior, cinica, incapaz de perceber de que matéria estão os sonhos feitos. O Chile voltou a passar, uma vez mais, por este trágico carroussel. O Brasil acelerou quando foi preciso. Chegou, como sempre.

Durante a primeira meia-hora vimos o Chile de sempre. Na última meia-hora já não havia o minimo resquício daquela equipa.
É o efeito eliminatórias mais do que o peso do rival. O Brasil foi pequeno até ao primeiro golo, demasiado pequeno para uma equipa canarinha. Foi engolido pelo futebol de rápida transição defesa-ataque do esquema montado por Marcelo Bielsa e pode agradecer a ineptitude dos andinos em procurar o remate. Boa troca de bola, excelente movimentações e depois...o nada.
Com o sucessivo falhanço ofensivo do Chile o conjunto pentacampeão foi ganhando o pulso ao jogo. Encostou o rival às cordas e deu mais liberdade a Ramires e Dani Alves no apoio directo a Kaká no meio campo. O médio do Real Madrid continua um jogador vulgar e ontem pode ter agradecido à velocidade de Robinho e ao pulmão do meio-campo montado por Dunga para não ter saído do jogo como um fantasma. Assim estava o jogo quando um mau alivio da defesa chilena originou um canto. A bola, colocada nas alturas, encontrou a cabeça de Juan. O central ganhou com a parede ofensiva de Lucio e Fabiano e rematou para as redes de Claudio Bravo. Um bom golo que chegava de forma injusta quando o Chile ainda era melhor. Durou pouco o suspense. Num contra-golpe, tipico neste conjunto canarinho, a velocidade de Robinho foi chave e o timing de desmarcação de Fabiano perfeito. O dianteiro apontou o seu terceiro golo no torneio e fechou a eliminatória.
No segundo tempo o perfeccionista Bielsa, perfeitamente conhecedor da resistência defensiva do Brasil, lançou as suas armas mais ofensivas. Não chegou.
Valdivia trouxe mais toque e rapidez ao miolo mas foi incapaz de mudar o que foi realmente o grande problema dos chilenos. A bola continuava a passar longe de um tranquilo Julio César e apesar da maior posse de bola e pressão do ataque chileno, o Brasil controlava plenamente o jogo. Num desses rápidos lances, em tudo similar ao segundo golo, surgiu Robinho para confirmar o seu óptimo estado de forma e a sua boa relação com o guardião chileno a quem marca em todos os jogos. Nem foi preciso agradecer a Deus.
O 3-0 matou um jogo já de si moribundo porque o Chile perdeu esse toque de desespero que atirou a Espanha às cordas na passada sexta-feira. O 3-3-1-3 perdeu sentido face à movimentação lateral de Bastos e Maicon e os golpes a meio-campo evidenciaram mais a dureza de quem se recusa a cair sentado mas que também não sabe muito bem como cair de pé. Com este resultado, o Brasil voltou a demonstrar que é outra equipa quando decide passar o limite de velocidade urbano pelo ritmo de estrada nacional e que o jogo com a Holanda será um desafio curioso entre duas equipas com imenso potencial que até agora têm, apenas, demonstrado serviços minimos. Um deles tem a final à porta.

A queda da primeira equipa sul-americana era inevitável mas o Chile foi a prova viva de que o futebol do seu continente está bem vivo. Faltou-lhe, como sempre falta a Bielsa, aquele cinismo defensivo que caracteriza Paraguai e Uruguai. E, acima de tudo, capacidade para matar o jogo. Um problema que se tinha percebido já, de antemão, na fase de grupos. No entanto ficam vários nomes e alguns bons momentos para a memória de um país que desde o seu Mundial nunca mais soube o que é passar de Oitavos. Fica para a próxima.

