Guardiola ainda estava em casa com o equipamento de junior na máquina de lavar no dia em que o seu rival de hoje, Sir Alex Ferguson, cigarro na boca, apertou a mão ao seu futuro mentor. O árbitro Bo Karlsson tinha apitado para o final do jogo na banheira de Roterdão e o Barcelona tinha perdido por 2-1 diante da primeira equipa inglesa a alcançar uma final europeia após o desastre do Heysel e a posterior suspensão de cinco anos. O Manchester United provou a força do futebol britânico e no ano do regresso destroçou aquele que no ano seguinte, em Wembley vá-se lá ver as coincidências, ganhou justamente a alcunha de Dream Team.

Já lá estavam Koeman, Laudrup, Goicochea, Salinas, Begiristain e tantos outros. A equipa catalã tinha vindo de celebrar o primeiro de quatro titulos consecutivos que acabaria por fazer dela a mais celebre da história blaugrana. Chegavam a Roterdão com sede de vencer na Europa. Mas a ousadia de Cruyff pagou-se bem caro. O técnico holandes, fiel ao seu esquema de 3-4-3 nunca controlou o encontro, dominado pelos britânicos do principio ao fim. Com os velozes Lee Sharp e Mark Hughes no ataque, a defesa comandada por Koeman não teve mãos a medir. O meio campo dos Red Devils onde pontificavam Bryan Robson e Paul Ince, controlou o encontro, buscando lançamentos rápidos para os extremos servirem o ponta de lança Brian McClair. O encontro perdeu o equilibrio logo no primeiro quarto de hora e os espanhois nunca incomodaram verdeiramente o veterano Les Sealey, que no ano seguinte daria lugar ao dinamarques Schmeichel. Á sua frente uma defesa de sonho com Irwin, Phelan, Bruce e Pallister que controlou Salinas e Laudrup com a presição de um relógio suiço. Ferguson, irrequieto no banco, desesperava com a ineficácia ofensiva dos seus face a um trapalhão e suplente Busquets - o mesmo pai do jovem Sergio que o técnico catalão convocou hoje para o encontro - e uma defesa pouco sólida.
O homem do jogo acabou por se revelar apenas no segundo tempo. Mark Hughes, que tinha vivido uma aventura europeia precisamente na Cidade Condal, rasgou a defesa catalã e após um livre cobrado por Robson o central Bruce cabeceou sem piedade para as redes e o galês desviou para golo. Festa total na bancada, onde nem um hooligan se avistava. A licção estava bem aprendida. Quatro minutos depois o mesmo Robson voltou a combinar com Sharpe e Ince até lançar o número 10 que se antecipou a Busquets e sobre o olhar desesperado do veterano Alexanko meteu a bola dentro da baliza. O jogo estava decidido e nem o golo de livre de Koeman, a pressagiar o sucesso futuro, serviu para atemorizar os britânicos, apesar do pressing final intenso e desesperado dos catalães. A justissima vitória do Man Utd significou o primeiro trofeu europeu em vinte e três anos de história, o primeiro da era de Sir Alex Ferguson, o único treinador com titulos europeus em três décadas distintas (1983 Abardeen, 1991/1999 Man Utd, 2008 Man Utd). Para o Barcelona era um parentesis numa era dourada. Para os ingleses o principio de um dominio absoluto no futebol britanico e a primeira ameaça real na Europa.

Hoje, 18 anos depois, tudo mudou. E tudo está na mesma. Diabos vermelhos e blaugranas vão voltar a subir ao relvado de uma final europeia olhando-se nos olhos. A história está do lado dos ingleses o apoio popular prefere a linha ofensiva dos catalães. Koeman, Laudrup, Salinas ou Begiristain encarnam em Xavi, Iniesta, Messi e Etoo. Os veteranissimos Ince, Robson, Hughes e Pallister sorrirão em suas casas ao olhar para Rooney, Ronaldo, Carrick ou Ferdinand. A história volta a repetir-se uma vez mais no tapete verde do coliseu romano. Os gladiadores estão preparados e neste combate não há misericordia. É o preço a pagar para entrar para história!

