A Holanda já não é aquela máquina de futebol de encantar que durante décadas deixou qualquer adepto neutro - se é que isso existe realmente - com um fraquinho pelo modelo Orange. Bert van Maarjwick aplicou um modelo de puro pragmatismo com resultados demonstrados. A Holanda está nos Quartos de Final à espera do Brasil e vontade de desforra.

Por duas vezes a Holanda caiu diante do Brasil nos últimos 16 anos nas últimas rondas do Mundial.
A derrota em 1994 (3-2, com a Holanda a lograr uma notável reviravolta) e em 1998, nos fatidicos penaltys, deixaram marca no actual seleccionador holandês que já disse, por diversas vezes, que está interessado mais na vitória do que no jogo. Por isso talvez esta Holanda especule mais e arrisque menos. É uma equipa de serviços minimos, que se esforça quando sente necessidade, mas que sabe controlar os tempos de jogo de uma forma que o conjunto orientado no último Europeu, por exemplo, nunca foi capaz. E acabou destroçado pela veloz Rússia quando todos já os viam com o ceptro na mão. Essa abordagem não podia ser, no entanto, real não fosse o trabalho herculeo realizado pelos homens fortes da equipa. Van Persie, Kuyt, Sneijder, van Bommell, De Jong e até mesmo Arjen Robben, foram hoje, uma vez mais, incansáveis na aplicação prática dessa nova teoria holandesa. Se o génio do extremo do Bayern Munchen decidiu o jogo, a verdade é que o ataque holandês tentou de todas as formas e feitios evitar sofrer até ao fim perante uma Eslováquia heróica que podia ter feito mais para ferir a ainda débil defesa holandesa.
O jogo começou, precisamente, com uma Eslováquia super-ofensiva.
Vladimir Weiss arriscou, sabendo das debilidades atrás dos holandeses, e colocou o seu onze mais atacante com o seu filho, Miroslav Stoch e Marek Hamsik atrás do ponta-de-lança revelação, Vittek. Os primeiros minutos pareciam dar-lhe razão porque o onze holandês não se encontrava cómodo e Sketelenburg acabou por ter de prestar mais atenção ao jogo do que poderia esperar. Mas a revolução inicial foi sendo controlada pelo trabalho no miolo de van Bommell e Sneijder que rapidamente lançaram o vendaval ofensivo holandês. Várias ocasiões de golo e finalmente o tento número 1 de Robben na prova. O extremo holandês está no seu ano de glória e conseguiu em 55 minutos o que Messi não logrou ainda em 360.
Depois do golo os holandeses não abrandaram e Mucha, o guardião eslovaco, foi testado de diversos angulos, acabando sempre por sair como o herói do filme. Com a segunda parte surgiu mais uma vez a Eslováquia lançada, mas a Holanda voltou a mostrar uma maturidade nem sempre presente nas provas anteriores e soube neutralizar e adormecer o jogo rival. As entradas de Elia e mais tarde de Huntelaar, foram importantes para dar ar fresco ao ataque da Laranja Mecânica. A dez minutos do fim, Wesley Sneijder, a outra grande estrela holandesa, arrancou o aplauso do banco de suplentes, onde van Maarjwick podia respirar, por fim, tranquilo. Nem mesmo o infantil penalty marcado, de forma errada, pelo árbitro espanhol Undiano Malenco (felizmente poupou o vermelho ao guardião holandês), e o consequente golo - o quarto, os mesmos de Higuain - de Vittek foram suficientes para travar a festa e merecido apuramento holandês.

Uma vitória como todas até agora, marcadas pelo profissionalismo extremo e ritmo frenético do bloco ofensivo holandês, que deixa água na boca para o duelo dos Quartos de Final. É essa a eliminatória mais problemática que a Holanda tem neste Mundial. Superado esse desafio, que é possivel com o bom jogo oferecido por Sneijder e Robben hoje, e os holandeses podem começar realmente a sonhar com uma noite de glória. A última vez que estiveram numa final, há 32 anos, foi precisamente no hemisfério sul. Será um sinal do que nos espera?

