A Inglaterra já tem um golo do tamanho do Wembley para se queixar para o resto dos seus dias. Nisso, britânicos e germânicos acabaram empatados. Porque, no resto, o repasso monumental que Joachim Low deu a Fabio Capello, o homem contratado para fazer história, não teve igual. Vitória estrondosa e merecida de uma das mais belas equipas alemãs da história.

Beckham tinha razão quando ao intervalo interpelou o árbitro. O espantoso remate de Frank Lampard, que fez hoje o que quis com a Jabulani, entrou bem no coração das redes de Michael Neuer. Podia ter sido o empate, o equilibrio num jogo em que os ingleses se mostraram melhores que nos encontros da primeira fase. Mas acabou por não valer. Para a Alemanha, que jogava melhor e que tinha liderado o jogo com um justo 2-0, antes de Upson ter reduzido a vantagem, foi a doce desforra. Daquela tarde de 1966, a única em que os ingleses levaram a melhor sobre a equipa teutónica.
No final Capello, o homem que prometeu mundos e fundos, levou para casa a maior derrota num Campeonato do Mundo para a equipa inglesa. E uma eliminação bem antes das que condenou Sven Goren Eriksson em 2002 e 2006. Uma derrota trágica para uma das melhores gerações do futebol britânico (Terry, Lampard, Gerrard, Barry dificilmente terão outra ocasião) e um correctivo histórico para uma equipa que sacrificou a sua maneira de jogar pelo espirito resultadista do técnico italiano, acabando por oferecer a sua figura mais triste num Mundial de Futebol desde...1958.
A Alemanha continua a dar o seu particular show.
Uma equipa rápida, espantosa nas transições, com Schweinsteiger em plano estelar, e com um maestro a pautar o jogo como Ozil. Entre ambos se desenharam os lances mais belos do encontro. Apesar disso, foi um pontapé á inglesa que a Alemanha se adiantou no marcador. Neuer coloca a bola em campo, ninguém alivia e Miroslav Klose, mais rápido do que tudo e todos, antecipa-se no duelo a Upson e encosta para o 1-0. Um resultado justo que, rapidamente, Ozil tratou de orquestrar num 2-0. Passe para o jovem Mueller que viu, do outro lado, a corrida de Podolski. O centro foi perfeito, a finalização do dianteiro do Koln também. A Inglaterra estava a ser atropelada pelo panzer mais belo de que há memória nos últimos 26 anos de futebol alemão.
Aí surgiu o orgulho inglês em jogo. A equipa, com Millner, Lampard e Gerrard atrás da linha de dois avançados, foi subindo no terreno. Começou a controlar o jogo e foi criando ocasiões. Defoe enviou a bola á barra, mas o lance acabou anulado. Pouco depois, um centro hábil de Gerrard encontrou a cabeça de Mathew Upson. O central aproveitou o erro garrafal de Neuer e reduziu as distâncias. Até que chegou o remate de Lampard, esse imenso golo que entra na galeria dos grandes remates que não contam. A Alemanha suspirou. E voltou do intervalo com outra disposição. A Inglaterra era, efectivamente, uma versão melhorada da fase de grupos. Mas não chegou. Em quinze minutos, duas licções de como contra-atacar um rival descoberto atrás (caracteristica nas defesas da Argentina e Espanha, possiveis rivais alemães) deram a Muller a oportunidade de fazer história. Dois belos golos, dois momentos de grande futebol. Dois socos na mentalidade perdida de Capello, um dos maiores derrotados deste Mundial aziago para os renomes europeus.

Com este esmagador triunfo, a Alemanha reforçou a sua condição de favorita e deixa antever o próximo duelo como o grande duelo dos Quartos de Final. Um duelo onde pode sair o futuro campeão, tal a esmagadora diferença de qualidade face ao outro lado das eliminatórias. O melhor jogo do Mundial 2010 acabou com uma Alemanha reforçada e uma Inglaterra com dois anos para pensar no futuro. Naturalmente, com outro homem ao leme. Capello, desta vez, não soube como ganhar.

