Portugal sabe bem o que é uma revolta numa concentração mundialistica. Mas muitos achavam que circunstâncias dessas só se davam em países pequenos, sub-desenvolvidos e repleto de egos maiores que o talento real. Longe, muito longe da realidade. Neste Mundial as equipas europeias não se sentem bem, e rapidamente a revolta passa do relvado para o balneário. Este é também o Mundial dos coup d´etát!

Começou por ser Deco. Acabou em John Terry. E pode haver mais uns quantos antes de que esta prova termine.
As grandes equipas europeias chegaram á África do Sul rodeadas de grande expecativa. Mas cedo se percebeu que o terreno, os rivais e o ambiente era tudo menos propicio a um show europeu. Começaram a perder, algo pouco habitual num Mundial, menos se temos em conta que a prova é disputa bem longe do Velho Continente. Se em 2002 só a França, Eslovénia, Russia e Portugal cairam na primeira fase, das equipas europeias (duas chegaram às meias-finais, longe das quatro de 2006) desta vez antecipa-se uma sangria bem maior. Até dentro das grandes candidatas o ambiente é tudo, menos satisfatório. Mesmo a campeã europeia, Espanha, vive sembrada de dúvidas. Há quem não goste do técnico, da mutação de jogo e do alinhamento. Caras largas, mas disfarçadas pelo triunfo quase agónico frente à frágil equipa hondurenha. Na Itália, como sempre mais perto da eliminação do que da glória, as caras não são tão desanimadoras, até porque Lippi poupou-se ao trabalho de levar jogadores de caracter capazes de dar um murro na mesa face à pobre qualidade de jogo demonstrada. Um problema que as positivas Alemanha e Holanda não tiveram. Mas foram excepções, e sabem-no bem.
No caso português a verdade é que o affair Deco foi menos do que se imaginaria.
A grande exibição de Tiago, aliado ao fraquissimo rendimento do número 20, ajudaram Carlos Queiroz a livrar-se do sério problema de ter um dos rostos mais sonantes da equipa das quinas a discordar publicamente - e de forma tão veemente - das suas decisões. Se a isso juntamos a misteriosa ausência de Nani e as constantes desculpas esfarrapadas que a FPF gosta de publicar no seu site oficial, e havia pango para mangas. Uma goleada sana até as mais ágrias feridas, e isso viu-se bem. Resta saber, até quando.
Pior estiveram os ingleses. A equipa que hoje se joga o apuramento final, podendo ficar de fora na primeira fase, algo que não sucede desde 1958, esteve à beira de uma guerra civil. Culpa exclusiva de John Terry. O central, irritado com Fabio Capello desde que este lhe retirou a braçadeira pelos seus affairs extra-matrimoniais, quis liderar uma rebelião contra o italiano depois do segundo empate consecutivo dos Pross. Chamou a imprensa e chegou a dizer que tinha o apoio dos cérebros do balneário nesta revolução táctica que visava colocar Joe Cole em campo, Lampard como patrão de jogo e o direito a beber uma cerveja sempre que quisessem. A cara de Terry ficou de pedra quando o carpido Capello se antecipou, falou com o resto do plantel, e deixou o central sozinho, diante da imprensa, a pedir desculpas. Um ano para esquecer John, um ano para esquecer. Só a lesão de King e a suspensão de Carragher permitirão hoje que Terry esteja em campo.
Mas o prémio terá, forçosamente, de ser entregue à selecção gaulesa.
Há treinadores com toques dictatoriais como Dunga, que apresentam resultados que os avalam. Outros que apostam por misturar-se com os jogadores, como Maradona, que também criam um ambiente propicio a causar bons resultados. E depois há Raymond Domenech.
Quem conhece a realidade da selecção francesa, desde sempre, sabe que há poucas equipas tão divididas como as equipas nacionais gaulesas. Platini e Giresse não se falavam com Larios e Rocheteau. O genial Cantona não suportava Jean Pierre Papin nem Zidane e o mago de 98 vive de relações cortadas com Petit, que revelou que naquele Mundial havia três blocos muito concretos no balneário, todos divididos por questões raciais. A situação não mudou. Há muito que em Paris se queixam de que o jovem Gourcouff é posto de parte por não ser originário dos banlieus como os Benzema, Anelka, Diarras, Govou e companhia. Ser um novo-rico é um crime no balneário de um país repleto de minorias étnicas. A equipa que em 2006 se rebelou no relvado contra Domenech, com Zidane e Vieira como mentores, volta agora a bater o pé. Anelka, um jogador propicio aos problemas internos, insultou o seleccionador. O que passa com regularidade, imaginem. Mas desta vez alguém, de outro grupo, filtrou a noticia. O avançado foi expulso, o seu grupo, liderado por Evra (mas que conta também com Henry, Gallas, Govou, Sagna e Malouda) decidiu plantar cara e não treinar. Até mesmo, não jogar. Não pelos prémios de jogo, como Saltillo 86. Por uma questão de orgulho face a um treinador de dias contados e sem apoios há quatro anos, a não ser o de teimosos directivos da FFF. De fora, Zidane pica, de fora Blanc espera a sua hora. Por dentro, a França desangra estrepitosamente para fora do Mundial.

Com a fase decisiva da prova a chegar, começam também as discussões mais acaloradas, os problemas internos. Os mesmos que tramaram a Holanda de 94, o Brasil de 98 ou a Espanha de 2006. Os problemas que demonstram que um Mundial é ganho por onze em campo e um grupo no hotel, tanto como por um penalty ou um golpe de génio. Equipas sólidas, dentro e fora, serão sempre superiores. Portugal ganhou com Scolari um grupo coeso que permitiu superar muitas dificuldades técnico-tácticas entre 2004 e 2008. A licção está aí, é recente e bem próxima. Manter um plantel unido é o primeiro passo para seguir em frente. Dos fracos nunca rezou a história. Pelo menos, pelos melhores motivos.

