O destino é a fatalidade da condição humana e persegue-nos a todos, qual sombra pegajosa. O de Virgilio Mendes encontrou-o ontem. Não sabemos se estava preparado ou se o apanhou de surpresa, como esses desarmes fora de horas que nos deixam estonteados com tamanha rapidez. Virgilio era um desses mitos que sabia o que encontrava, quando se encontrava no vestuário, antes de um grande desafio. Nessa altura chamavam-lhe desafios a esses encontros repletos de emoção e incerteza que faziam parte desse nosso futebol dos anos 40 e 50.

Durante toda a vida Virgilio foi dragão. Na época, ainda se vivia o fantasma dos andrades, mas o poderoso jogador do FC Porto não temia a vivos e mortos e em campo impunha a ordem numa equipa que teimava em encontrar-se. Fez parte dessa equipa que viveu o primeiro grande oásis e lançou as bases do único team campeão azul em muitos, muitos anos. Mas ficaria para a história como leão. Não de verde ao peito, mas de raça. Essa raça que marcaram a vida dos grandes defesas azuis e brancos. Foi em Génova, frente á toda poderosa Itália com as quinas ao peito. O resultado final aqui conta pouco (4-1 para os mais curiosos...a favor dos italianos, claro). Foi a exibição de Virgilio que enlouqueceu os italianos, mais predispostos que quaisquer outros a elogiar defesas talentosos. A imprensa portuguesa aproveitou a fama e catalogou-o como "Leão de Génova" para apagar a má imagem colectiva da derrota, mas a verdade é que de Itália e Espanha começaram a soar os temidos cantos da sereia. Mas Virgilio ficou. Tinha inaugurado o novo Estádio das Antas e estaria presente na celebre dobradinha de Yustrich e mais tarde nas vitórias com Guttman.
Mais do que o seu papel chave no FC Porto e na selecção nacional desses turbulentos anos 50, Virgilio foi sempre o espelho do jogador gentlemann que começava a desaparecer. Para muitos o melhor lateral direito de sempre a actuar em relvados nacionais, Virgilio tinha ao clube que o acolheu em 1947 essa devoção de outros tempos.Tornou-se na prata da casa e ganhou um lugar na história de um desporto que sempre viveu mais de mercenários do que de abnegados. Aqueles 8 contos ao mes que ganhava contra as 15 mil pesetas que lhe ofereceu o Celta de Vigo são, ainda hoje, uma lição de devoção num mundo cada vez mais pobre de valores.


