Sem pompa e circunstância, como as habituais produções à americana de Florentino Perez. Sem promessas mediáticas para recuperar em Maio do próximo ano. A era Mourinho em Madrid arrancou hoje num tom de low profile pouco habitual no português que reforça ainda mais o seu caracter messiânico. Num clube moralmente à deriva, José Mourinho é um verdadeiro profeta.

Há poucos nomes tão criticados na sempre partidista imprensa espanhola como o de Mourinho. Até que começou a soar para o Real Madrid.
Os criticos, antes habituados a sacar das facas sempre que se ouvia ao longe o nome do português, tiveram de calar a boca e falar baixinho. Jornais da capital criaram uma aura de maestro a um técnico antes tão criticado como desprezado. Na Catalunha, desde a épica meia-final entre o Inter e o Barcelona, Mourinho passou a ser mais do que uma reencarnação do diabo. É Satanás em pessoa.
É neste clima de desprezo, medo e insegurança, essa caracteristica tão espanhola, que chega o setubalense à capital "del imperio". Com a benção de uma comunidade magoada nas profundezas da alma pela acutilância estética e eficaz do braço armado da Catalunha, o lado branco da Força sob o manto de Josep Guardiola, um mentor para a história. Os que antes olhavam para Mourinho como um Darth Vader menor, agora têm de virar o disco e começar a procurar músicas com referências messiânicas. Mourinho é mais do que um São João Baptista.
Como sempre, foi ele quem decidiu os timings do seu futuro. Quando quis chegar a Madrid a máquina já estava de tal forma montada que ninguém poderia negá-lo. Com um titulo europeu debaixo do braço - uma obsessão de um clube que tem nove em casa mas que há sete anos que não passa dos Oitavos - e com aquele ar de superioridade moral que o destaca dos comuns mortais, José Mourinho estava destinado a revolucionar o Bernabeu. Um estádio feito para grandes estrelas. E que, pela primeira vez na sua história, verá uma estrela flamante no banco. Um contra-senso? Definitivamente sim.
Florentino Perez é o homem das camisolas.
Será dificil vender equipamentos com o nome de Mourinho mas coisas mais estranhas já se viram. Gastar 300 milhões em oito contratações no passado defeso não garantiu à equipa um só titulo. Nem um. A fantástica época de estreia de Cristiano Ronaldo, frustrado nesta nova aventura que pensava estar revestida de ouro, ficou apagada por mais uma avalhance blaugrana. Esteticamente o Barça foi superior. Moralmente mais ainda. No terreno de jogo, em 180 minutos, nunca perdeu o controlo. É esse o problema que Mourinho tem para resolver.
O homem que resgatou o FC Porto de um triénio de desastres domésticos. O homem que fez do Chelsea uma das máximas forças europeias, 50 anos depois do último titulo. O homem que resgatou o Inter da mediocridade europeia de quatro décadas. Um homem que é mais do um mortal com uma missão superlativa. Vencer em Madrid custa, historicamente, muito mais do que em qualquer outro recinto. Capello, Schuster e até Del Bosque venceram na última década. Mas nunca convenceram a 100%. Vencer e convencer é algo que parece natural num clube como o Barcelona, com um plano de jogo e de estilo ideado há 20 anos atrás. Em Madrid, equipa que vive do glamour, das milionárias transferências e das capas de jornais com pretensões mundiais, é tarefa impossível. Ou quase.
José Mourinho chegou hoje à Castellana com a autoridade que emana naturalmente à sua volta.
Uma autoridade tão pouco portuguesa que conquista até os mais reácios. Tem o plantel em suspenso, o presidente Florentino Perez de dedos cruzados (o homem que não gosta de treinadores, como o descreveu um dia Santiago Segurola) e o director técnico Jorge Valdano com um amargo sabor de sapo na boca. O "manager" merengue, que foi melhor treinador que jogador e melhor cronista que director técnico, durante anos destilou veneno contra o português. Até ao fim resistiu em entregar o projecto merengue nas mãos de um homem para quem Mourinho é o anti-futebol. No final engoliu o sapo e a honra que, se a tivesse, teria significado a sua saída. Mas Madrid é assim, uma cidade de estranhos contrastes.
Ao contrário de Cristiano Ronaldo, que sempre disse que nasceu para jogar no Real Madrid, o técnico português sabe que a capital espanhola é apenas mais um cromo na sua mala de viagens. Até agora repleta de boas recordações. Mais do que contratar as peças chave para o seu modelo de jogo. Ou do que resolver os graves problemas de balneário, o técnico terá de apalpar a realidade que o rodeia e carregar na tecla que melhor o favoreça. Sempre surgiu a prometer algo que os adeptos necessitavam. Agora sabe que isso significa vergar o Barcelona, e não só no que a titulos diz respeito. Mourinho terá de fazer de Cristiano Ronaldo o que Guardiola faz com Messi. Terá de contentar os defensores de um futebol de cantera (que apontam o exemplo do rival) e aqueles que defendem o caracter global de um clube milionário com contratações sonantes. E tudo isso mantendo-se fiel a si mesmo. O único truque na manga ao largo de quase uma dezena de anos de carreira profissional.

Desde Leiria que José Mourinho nunca falhou num projecto desportivo. É a essa realidade de 18 titulos em 8 anos que todos se agarram em Concha Espina. Triunfar aqui pode significar para Mourinho mais do que novos titulos. Será a cereja no topo do bolo da sua carreira. Fechará uma década inédita na vida de qualquer técnico. A prova de que, ao contrário de Wenger, Guardiola ou Ferguson, ele é capaz de vencer em qualquer ambiente, em qualquer projecto independentemente das circunstâncias. Um feito só ao alcance dos grandes profetas.

