Talvez seja fácil de entender o que define um treinador marcante. É como Átila. Por onde passa, dificilmente o relvado do tapete verde volta a crescer de forma tão intensa e vigorosa. Nesse apartado chave, tão marginalizado entre disputas estéticas, nenhum é capaz de superar José Mourinho. Não é o homem das longas declarações de amor a uma causa. É um ganhador em qualquer ponto do Planeta. Pela terceira vez voltou a exemplificar quão básica e elementar é a sua cartilha. Uma causa vencedora à partida.

É fácil não gostar de José Mourinho. Demasiado até. E isso torna impossível não o adorar neste mundo de idolos de pés de barro.
O técnico da década - inevitavelmente - é também o nosso Homem do Ano. Pela terceira vez nos últimos dez. Depois de fazer de um destroçado FC Porto uma potência à escala europeia (sete titulos em dois anos) e de ressuscitar um velho clássico como o Chelsea (seis títulos em três épocas), agora coube a vez de fechar o ciclo de Milão. Porque Mourinho é um homem de etapas, não de compromissos.
Vive num mundo diametralmente oposto aos Ferguson e Wenger, técnicos capazes de permanecer uma larga eternidade ligados a um só projecto, uma só ideia. José Mourinho gosta de desafios. É fácil não gostar de saltimbancos. As pessoas admiram a estabilidade, a coerência, a fidelidade. E Mourinho só é fiel a si mesmo. Mas nunca engana ninguém. O seu amor eterno ao seu Chelsea, ao seu Inter (no caso do FC Porto reiteradas vezes lhe lembraram que não era dele...) é etéreo. Não presencial. As suas tácticas, os seus mind games, a sua postura choca com o politicamente correcto que grassa e apesta no mundo de hoje. Um mundo onde o melhor não pode dizer que o é, tem sempre de esperar à maioria. Um mundo onde a eterna ambição de ganhar é castrada com a eterna aspiração de beleza. Mourinho é diferente, não vai nessas cantigas, boas para vender jornais e alimentar conversas de café.
Quando Mourinho chegou ao San Siro, muitos duvidavam sobre o sucesso da sua incursão no Calcio.
A eliminação europeia tão precoce na sua primeira temporada deixou muitas dúvidas no ar. Mas foi um mal necessário. Com essa licção aprendida Mourinho rodeou-se dos melhores. Não dos mais mediáticos, mas sim dos jogadores capazes de seguir a sua filosofia até ao fim. Adriano, Julio César, Mancini, Quaresma, Maxwell e companhia foram postos de parte, depois do técnico entender que eram incapazes de sentir as regras do colectivo como fundamentais para vencer. Remeniscencias do velho Helenio Herrera, o homem que deixou Kubala tantas vezes na bancada por troca com o mais colectivo Luis Suarez.
Com uma legião de homens fieis até ao suspiro final, Mourinho tinha o exército que precisava. Dotou-o das armas necessárias (psicologicamente preparou-os para tudo e isso percebe-se no rosto de cada um dos seus jogadores) e montou o esquema de campanha. Poderia ter caído na fase de grupos mas a resistência dos neruazzuri era maior do que aparentava. Contra todos os prognósticos humilhou o Chelsea e vergou o Barcelona. Tudo graças à licção, sempre oportuna, do sadino. Secou as suas antigas glórias e calou os amantes do jogo bonito blaugrana. Chegou a Madrid e aí, nos 90 minutos finais, não ofereceu a minima hipótese ao seu velho amigo, van Gaal. Deu-lhe a bola, ficou com o espaço. Abriu o jogo, marcou. Fechou o jogo, controlou. Voltou a abrir, voltou a marcar. Uma cartilha que a muitos enoja, mas que faz parte do "b-a-b-a" dos ganhadores. E não há um homem tão nascido para ganhar como Mourinho.
Quebrada a quarta etapa na sua carreira, começa agora o sonho de Madrid. Num clube que está nos seus antipodas. Num ambiente pouco propicio para a sua tábua dos mandamentos. Tal como em Itália, onde não foi feliz, em Espanha Mourinho não terá o respeito da critica e público. Recebe agora os elogios dos jornais oficiosos do clube merengue, mas espera-o a mesma recepção fria, distante e critica que teve, o ano passado, outro ganhador nato português. Juntos, a dupla Mourinho-Ronaldo pode tornar-se parte da história. Mas não a esperem demasiado longa. O tempo de vencer uma Liga e uma Champions e completar o Poker de três. Porque ninguém espere esse amor eterno a Madrid que muitos juram e perjuram. Mourinho é um homem de desafios. E haverá sempre um novo ao virar da esquina. Por essas e por outras é que ele acaba sempre por ser o mesmo. Sem defraudar. Sem perder. Mais especial, impossível!

