Contra e tudo e contra todos. Contra as criticas em Itália e o desprezo do resto da Europa. Contra as conotações negativas de um estilo de jogo que mais não é que o acordeão perfeito que sabe como abrir e fechar no momento certo. 45 anos depois o Inter voltou a saborear a glória europeia. Graças a um homem que há muito deixou de ser apenas um técnico de primeiro nível.

Há noites onde vale a pena começar pelo final. As lágrimas de Mourinho, um gesto expressivo diametralmente oposto ao da noite da sua primeira conquista, espelham bem o sofrimento que esteve por detrás desta campanha do Inter. Contra o Mundo. O português montou uma equipa de jogadores descartados da mesma forma que o seu FC Porto era um conjunto de jogadores baratos e com espírito de soldados. Moldou o seu exército, definiu todas as manobras militares e partiu para a guerra. Esteve perto de cair, derrotado nas primeiras batalhas. Mas aguentou e deu a volta por cima. Guardou-se para os momentos decisivos enquanto outros faziam a festa antecipada. Quando foi a doer, ninguém parou o Inter. Nem o milionário Chelsea, versão rica e melhorada da criada pelo próprio Mourinho. Nem o difícil CSKA e o seu Inverno russo. E nem o poético Barcelona, incapaz de aguentar a serpente milanesa em 180 minutos de extremos. O último obstáculo era, talvez, o mais tenaz dos rivais. Mas nunca deu a sensação de quebrar a dinâmica ganhadora dos italianos. Um golo em cada parte, um par de ocasiões mais. Um domínio que, mais uma vez, não precisou de ser ratificado pela posse de bola. O treinador defensivo venceu a sua segunda Champions com um pecúlio de cinco golos a favor e nenhum contra. Nada a dizer.
O Inter entrou melhor que o Bayern, fiel ao seu ideário em 4-3-3, com Sneijder a conectar com Milito e Etoo e Pandev como extremos bem abertos. Os alemães, magistralmente treinados por Louis van Gaal, ganharam o controlo da bola aos quinze minutos e não o perderam até ao final do jogo. Mas de pouco lhes valeu. As duas linhas defensivas do Inter tornavam impossível o ataque continuado dos bávaros. Era Robben contra o Inter, com Olic mais esforçado do que determinante. E no lado esquerdo, o turco Altintop e o alemão Schweinsteiger, nunca souberam conectar para criar o necessário desequilibro. Resultado, o ponto morto de meia hora que antecedeu o primeiro golo de Diego Milito. Gesto genial a receber, assistência perfeita de Sneijder e o golo de um ponta de lança com um faro impressionante. O filme do primeiro tempo não seria muito diferente do segundo. Milito voltou a fazer a diferença num golo que, a ser do seu compatriota Messi, estaria no lote dos melhores do ano. Aí está o poder mediático das equipas que o Inter mais esforçado deixou para trás. Mas foi o conjunto neruazzuro que manteve o controle. Durante 45 minutos aguentou as investidas alemãs e nunca pareceu soçobrar. No final, celebrou. Um grito que estava guardado há 45 anos.

Pouco importa agora para onde vá Mourinho ou se o conjunto italiano será capaz de repetir o feito do Barcelona e vencer mais três troféus. Contra as expectativas, e eliminando os dois melhores planteis da Europa, o Inter acabou uma maldição que prosperava desde a partida de Helenio Herrera. Para Mourinho não fez falta ser um mago tão metódico e perfeito como o mítico técnico argentino. A vitória do Inter, a equipa que ninguém parece gostar, é a vitória de algo que só o futebol é capaz de oferecer. O espírito de um colectivo que, desde o principio, acreditou ser o melhor. Depois foi só preciso aguentar 1170 minutos até o resto do Mundo se dar conta. A magia do futebol é também a força do querer. E nessa cadeira, o Inter aprovou com 20. E o resto são detalhes.

