Quem se lembra de Helenio Herrera? O homem que deu duas Taças dos Campeões europeus consecutivas e quatro campeonatos ao Inter foi retirado do máximo pedestal neruazzuro. A culpa? Outro mago muito especial, o homem que quebrou a malapta de 38 anos. O homem que está disposto a tudo a vencer a sua segunda Champions aos 47 anos. E já agora, a deixar Milão em estado de sitio.

Mourinho foi lacónico aquando da precoce eliminação nos Oitavos de Final da Champions da época passada em Old Trafford.
"Sei o que faltou para seguir em frente". Palavras sábias e directas à administração. Depois do seu primeiro ano (Scudetto incluido) Mourinho conseguia com essa declaração livre alvidrio para preparar uma equipa capaz de chegar até ao final da máxima prova europeia. Onde o conjunto milanês só esteve três vezes, a última em 1972, saindo então derrotado pelo Ajax.
Desde Abril que Mourinho começou a preparar o assalto a Madrid.
Contratou Motta e Milito a um Genoa debilitado financeiramente. Aproveitou o mau "feeling" entre Guardiola e Etoo para o incluir no inevitável negócio de Ibrahimovic. Com o dinheiro que sobrou foi pescar Lúcio, de quem van Gaal não quis nem saber, e Wesley Sneijder, literalmente empurrado por Valdano para a rua. A estes juntou ainda Pandev e Mariga, no mercado do Inverno, quando as agruras do "grupo da morte" tinham sido ultrapassadas. Por essa altura eram muitos os que criticavam o estilo de jogo. Mas Mourinho fazia orelhas moucas e entretia-se a montar o seu puzzle. O seu 4-2-3-1 de combate. Provavelmente a sua formação mais ofensiva desde o Chelsea 2004/2005.
A imprensa rotulou a equipa de defensiva, apologista do anti-jogo. Disse-se de tudo. O Inter continuou sozinho a luta e foi a Londres mostrar a Ancelotti que o maestro conhece sempre melhor a sua obra. A dupla vitória sobre o máximo favorito da prova, o Chelsea, mudou a percepção do público. A eliminação do CSKA atirou a equipa para as meias-finais, pela primeira vez desde 2003. Onde estava o Barcelona à espera.
Mourinho conhecia bem Guardiola. Demasiado bem.
Montou uma teia que o técnico espanhol tardou em entender e da qual nunca se soube soltar. Um festival de futebol ofensivo em Milão e uma licção de como defender um resultado no jogo da segunda mão, com a imprensa mundial a clamar pela injustiça do jogo bonito deixado de lado pelo cinico sadino. Depois de derrotar os dois máximos favoritos (o Bayern eliminou o terceiro), é dificil não ver o Inter como favorito. Mas nesta final os favoritismos são perigosos. Desde o Liverpool-AC Milan de 2005 que nenhuma equipa marca mais de dois golos. São jogos tácticos, pensados ao mais minimo detalhe. Muitas vezes sufriveis. O terreno onde o técnico português melhor se sente. Afinal ele esteve já em duas finais europeias e as suas equipas (as tais defensivas formações à Mourinho) marcaram seis golos, um peculio que nenhum outro técnico no activo tem.
Julio César, Maicon, Chivu, Samuel e Lucio serão os legionários que terão de lidar com uma das equipas mais abertamente ofensivas do torneio. As diagonais de Schweinsteiger e Robben estarão controladas e o oportunismo de Olic também.
Ao trio do meio-campo caberá pautar o ritmo de jogo, uma arma que Mourinho gosta de ter sem preocupar-se em demasia com a bola. Deixará a iniciativa ao Bayern e fechará os espaços com a omnipresença de Cambiasso e Zanetti, os descartados de Maradona, deixando a Wesley Sneijder a batuta que tantas vezes o próprio Santiago Bernabeu lhe negou. Será um ajuste de contas de holandeses com um estádio que pode falar mais português do que nunca no próximo ano. Também velho conhecido, Samuel Etoo será a arma pelo flanco direito, o mais débil dos alemães, com Pandev a fechar ao centro as movimentações de Milito, o herói milanês por excelencia e o tipico producto do máximo aproveitamente que consegue o técnico dos seus jogadores.

Será dificil olhar para alguém que se atreva a colocar este Inter na lista das grandes equipas da história.
Não por falta de talento de jogo mas porque criou-se a ideia de que, para entrar na história, é obrigatório jogar um futebol atractivo. O mito do jogo bonito, que a Nike vendeu com as cores do Brasil e que Cruyff e Wenger adaptaram a Barcelona e Arsenal, paira sobre qualquer outra equipa. Um estilo de jogo mais posicional, mais fisico, mais pausado, ganha imediatamente todos os possiveis rótulos de anti-jogo. Essa sombra paira sobre este Inter mais do que qualquer equipa. Mais do que o atabalhoado Liverpool de Benitez, do cinico AC Milan de Ancelloti ou até de um Manchester United menos explosivo que dez anos antes.
Quem critica o modelo de jogo neruazurri esquece-se, muitas vezes, que o futebol de toque tão popularizado, é em si mesmo um oásis. Sneijder é um pensador vertical, que procura a velocidade nas transições. Não um pensador horizontal como Xavi, mais preocupado em manter a ordem e, paradoxalmente, a criar a desordem nas linhas defensivas rivais. O meio campo disciplinado, fisico e posicional de toque sul-americano respeita uma velha tradição presente nos melhores onzes da história do futebol argentino e brasileiro, do Estudiantes ao São Paulo, que em 1993 vergou o Barcelona de Cruyff numa Intercontinental inesquecível.
Sem estrelas no plantel (Etoo, Sneijder, Maicon não o são, por muito que sejam dos melhores futebolistas da actualidade), sem uma campanha de marketing hábil por detrás (a mesma capaz de tentar vender este Barcelona como um update melhorado do ano passado), e com um treinador que desperta tanto amor como ódio, isso será sempre uma missão impossível. Mas irrelevante.
A responder a esse conjunto de criticas o técnico português, de saída de Itália, terá uma oportunidade de ouro de inverter a tendência. Na milionária noite de Madrid o catenaccio que utilizou uma vez ao longo do ano poderá ser perfeitamente eclipsado por um modelo de jogo mais dinamico, ofensivo e letal. O adversário, uma equipa honesta que joga de peito aberto, é perfeito para esse duelo moral. E a oportunidade perfeita para o novo mago do Giuseppe Meazza fazer um último truque antes de que se caía a cortina.

