Um exercício futebolistico interessante seria pegar num qualquer jogo do Bayern Munchen versão Jurgen Klinsmann (o mesmo é dizer, versão 2009) e compará-lo com o novo rosto do conjunto bávaro sob a batuta de Louis van Gaal. O holandês renasceu das cinzas e soube montar uma equipa equilibrada, ofensiva e extremamente jovem. Um espelho do seu primeiro Ajax? Talvez. A história está de olhos neles.

Entre 1971 e 1976 o futebol europeu foi dominado por dois conjuntos. Ajax e Bayern Munchen repartiram entre si três Taças dos Campeões Europeus cada. Vinte anos depois ambos os clubes voltaram a vencer mais um trofeu, remando já contra a maré dos favoritos das grandes ligas do sul da Europa. No triunfo do Ajax esteve um homem, até então semi-desconhecido, que revolucionou uma equipa em combustão interna. O mesmo homem que agora pode desempatar esse jogo de quatro taças para cada. Mas desta feita ao mando do Bayern. Esse homem é Louis van Gaal.
O técnico que fez do AZ Alkmaar campeão cumpriu a sua penitência no deserto. Depois da sua Holanda ter falhado a qualificação para o Mundial de 2002, passou de estrela do futebol europeu a proscrito. Antes o seu Barcelona tinha dominado em Espanha com um jogo ofensivo, mas sempre falhando nas grandes noites europeias. Um Barça aliás, onde se encontrou com Mourinho, que estava de saída com Robson, e onde lançou a fornada que hoje é o esqueleto da equipa que maravilha a Europa. Mas poucos se lembram desses pequenos detalhes.
Van Gaal montou neste seu Bayern uma equipa que se assemelha em muito ao seu primeiro Ajax, um conjunto que venceu três Eredevise, uma Taça UEFA, uma Champions (disputando a final de outra). Equipa jovem, virada para o ataque e pautada de ligeiros equilibrios. Quinze anos depois dessa noite mágica, o técnico volta a uma final em busca do Tri mais sonhado em Munique. O que emula o feito do Barça do ano passado. E ninguém tem dúvidas, em Van Gaal pode-se confiar.
Ao chegar ao novo Olympiastadion com nome de seguradora o técnico encontrou uma equipa envelhecida e sem chama.
Demorou meio ano a mudá-la. Naquela noite de glória em Turim, com uma vitória por 5-1 que dava, in extremis, a classificação para os Oitavos de Final da prova, o técnico apresentou definitivamente o seu novo Bayern.
Butt herdou o posto do instável Rensing. Lahm voltou a ser o lateral mais desiquilibrante do futebol europeu e no lado oposto, tanto o adaptado Badstuber como a surpresa Contento, provaram o olho clinico que tem o holandês para os mais novos. Foram quatro os que lançou na equipa base ao longo do ano. Mas como não é Guardiola e o Bayern não é o Barcelona, ninguém se lembra desses pequenos grandes detalhes.
Dispensou Lucio, com quem agora se enfrenta, e apostou na solidez de van Buyten e Demichelis, centrais menos de choque e com mais futebol nos pés. À frente colocou um tampão cerebral, van Bommel num notável final de época, que lhe começa a dar o toque holandês distinto de todas as suas equipas. Um papel que herda do Davids do Ajax e do próprio Guardiola, nos seus últimos anos em Barcelona. Sempre elementos chave na estratégia de jogo de van Gaal. À frente, um verdadeiro carroussel de ataque. Schweinsteiger faz o papel do desastibilizador, Tymoshuck e Altintop trazem equilibrio, Muller a audácia, Olic o faro de golo. E depois há Arjen Robben. O nome próprio desta equipa, a encarnação do modelo de jogo de Van Gaal, como o foi, em certa medida, também de Mourinho.

Na ausência de Ribery (em espirito o jogador passou o ano perdido no limbo), o holandês descartado pelo Real Madrid tornou-se, quatro anos depois, num dos melhores jogadores do Planeta Futebol.
Colocado na direita, perito em diagonais rumo ao golo, Robben foi peça-chave na campanha do clube alemão. Destroçou o Man Utd em Old Trafford, fez o mesmo com o Lyon e agora terá pela frente o duro Zanetti e a defesa que travou Messi. O estado de forma de Robben é sublime e será, certamente, o grande cabeça de cartaz individual da final. Mas sabe que não joga sozinho. E que tem uma orquestra à sua medida.
O grande mérito de van Gaal foi redistribuir prioridades. Olic no lugar de Klose e Toni (com Gomez no banco), o jovem Thomas Muller como pivot de ataque no meio, e as alas bem abertas num 4-2-4 que se transforma rapidamente em 4-2-3-1. Um modelo em tudo similar ao do Inter mas que no campo se apresenta de uma forma bem distinta. Procura o controlo de jogo mas com a bola nos pés. Reduz e aumenta a velocidade para alargar e encortar o terreno de jogo a um grito do seu general. Um homem que definiu uma nova forma de jogar no Allianz Arena, um estádio que há muitos anos não via futebol de tamanha qualidade.

Ao contrário da equipa campeã em 2001 e finalista em 1999, este Bayern afirma-se como uma máquina de ataque como só Muller, Beckenbeur e companhia souberam emular. A história está de olho nele. E neles também. Um dos clubes com mais finais perdidas contra um homem que não sabe como perder. As Parcas esperam que o fio termine de tecer para ditar a sua sentença.

