O Bordeaux terminou com o reinado do Olympique de Lyon. Coube ao Marseille dar a estocada final. Não houve bicampeão nem um regresso ao passado recente. O futebol francês recuperou a dinamica dos anos 90 - de 1993 a 2002 nenhuma equipa repetiu o título - graças a uma conjuntura inesperada de circunstâncias que favoreceram o regresso de um velho campeão. Pela mão do mesmo homem.

Deschamps ergue aos céus a histórica Champions League de 1993 em Munique.
Foi o último grande troféu dos marselheses em 17 anos. Depois da glória, o inferno. A despromoção, o titulo despojado, a longa agonia. Regressa Deschamps, regressam os titulos. Uma analogia inevitável que aumenta ainda mais a aura do antigo capitão aos olhos do magnifico e vibrante Velodrome. O homem que, com o AS Monaco não conseguiu bater o Lyon (apesar de chegar a uma final da Champions), soube finalmente o que é ser campeão francês...no banco.
O seu Olympique Marseille não foi a melhor equipa do ano. Nem a que melhor futebol jogou nem a que tinha melhor plantel. Mas saiu a ganhar de um ano curioso para o futebol gaulês.
A notável época europeia de Bordeaux e Lyon abriram o caminho para o irromper do trovão azul. Depois de uma primeira volta a roçar a mediania, Deschamps mexeu na equipa, mudou o esquema e a jogada saiu-lhe bem. Foi subindo postos na classificação e chegou-se à frente. Em três semanas passou do quinto ao primeiro lugar depois dos sucessivos tropeções de Lyon e Bordeaux, que alinhavam reservas na liga doméstica a pensar na final de Madrid. Quando os "Gonnes" eliminaram o Bordeaux, este já estava demasiado longe da cabeça. Quando, por sua vez, o Bayer Munchen venceu no Gerland, foi a vez do Lyon perceber que o Marselha estava noutro plano. Preparado para celebrar.
Ironicamente o titulo acabou por ser disputado entre quatro equipas inesperadas. Monteplier primeiro e mais tarde Auxerre e Lille, foram os únicos conjuntos que fizeram realmente sofrer os adeptos marselheses. Os triunfos nas últimas quatro jornadas confirmaram o titulo.
Atrás do insuspeito campeão, veio o Lyon.
A equipa de Claude Puel desde cedo que atestou baterias na Champions e depois de uma excelente primeira fase e da eliminação do Real Madrid em pleno Bernabeu, o sonho de superar a barreira dos quartos foi mais forte. O técnico passou a utilizar uma versão soft na Ligue 1 e pagou bem caro o preço. Chegou a andar longe dos postos europeus e só um sprint final repleto de garra e oportunismo garantiu que não caía na mesma dinamica auto-destructiva do Bordeaux, que acabaria o ano em sexto lugar e muito longe da glória europeia num ano para esquecer para os de Blanc.
No último posto Champions acabou o Auxerre treinado pelo técnico do ano, Jean Fernandez. O homem que melhor soube manobrar a imensa herança de Guy Roux, montou uma equipa organizada e aplicada que foi ganhando os pequenos duelos contra os seus rivais até se ver, subitamente, a lutar pelo titulo. o braço de ferro durou três semanas, até ao encontro com o futuro campeão. A partir daí a luta passou a ser por um regresso à Champions, prova onde o conjunto não está desde que venceu o seu último titulo em 1995. Missão cumprida às custas de Lille e Monteplier. Os de Rudy Garcia, apoiados por Cabaye e Hazard, fizeram uma época excepcional e mereciam algo mais, tendo deixado no entanto boas indicações para a próxima época. Já o Monteplier, sensação durante a primeira ronda, foi perdendo gás sem tropeçar e conseguiu um posto europeu inesperado para quem arrancava a época com o temor da despromoção. Foi um ano redondo, especialmente depois da péssima época do eterno rival de Toulouse.
Atrás do conjunto europeu ficaram os de sempre. Desde os decepcionantes AS Monaco e PSG, que continuam a arrancar, ano após ano, com altas expectativas, para terminar sempre em terra de ninguém. Surpreendente foi mesmo o ano do modesto Lorient, do goleador luso-francês Kevin Gameiro, que se sagrou melhor da prova a par de Niang. O conjunto do noroeste lutava para não descer mas acabou a meros cinco pontos de um lugar europeu. No extremo oposto o Toulouse, de Gignac e Sissoko, que dos sonhos europeus da época passada passou a sofrer com o espectro da despromoção, que só evitou a poucos jogos do fim. Despromovidos acabaram mesmo por ser Grenoble, Bologne e Le Mans. A equipa orientada no inicio do ano por Paulo Duarte não resistiu aos maus resultados enquanto que Grenoble e Bologne passaram o ano sempre em postos de despromoção, nunca dando ideia de poder inverter a tendência negativa.

Para o próximo ano todas as cartas estão na mesa. O Bordeaux, sem Blanc, terá de recomeçar do zero enquanto que o Lyon ameaça reforçar-se à altura do desafio. Caberá ao Olympique Marseille tentar repetir o feito de 1991, a última época em que logrou o bicampeonato. Vinte anos espaços no tempo numa liga sempre emocionante.

