HabituadA a ver a vizinha Cibeles celebrar às duas por três, há dezasseis anos que a fonte de Neptuno adormecia silenciosa cada noite, contendo a impotência de um clube perdido em questões existenciais. Ontem rugiu. À distância de 2170 km sentiu o remate certeiro de Forlan e abriu os braços para receber uma nação orfã de momentos de glória. Momentos como ontem.

Aguero correu pela esquerda, mais com o coração do que com a cabeça. Esperou, apontou o dedo para Forlan e disse-lhe, com aquele sotaque charrua "Ahí". O uruguaio deu três passos, penteou a bola, arrancou a camisola e levou os adeptos colchoneros à histeria. Faltavam quatro minutos e todos sabiam que o sofrimento tinha acabado.
O mais contestado dos jogadores atléticos, assobiado pela própria afficion depois de, na época passada, ter sido decisivo com a Bota de Ouro no apuramento para a Champions do conjunto madrileño, foi o herói da final. A segunda ganha pelo Atlético de Madrid depois de, em 1962, ter vencido a Taça das Taças. Pelo meio poucas finais, todas marcadas por copiosas derrotas e um trauma profundo na mente dos adeptos. O "Pupas" espanhol ontem esqueceu-se dos medos e atirou-se para o abismo sem olhar para trás. Foi suficiente para amedrontar um heróico Fulham, mais pela presença numa final europeia do que pelo futebol apresentado. Ontem e nos jogos prévios.
Roy Hogdson, que voltou a perder uma final da UEFA depois do seu Inter ter caído com Schalke 04 há treze anos, tem de estar orgulhoso. A sua equipa nunca deveria ter chegado a Hamburgo. Mas aí estava, contra todos aqueles que até eram optimistas. Dominou a segunda parte, soube reagir à adversidade e quase conseguiu chegar aos penaltys, o seu objectivo claro a partir do momento em que se soube que haveria um prolongamento. O Fulham, com Duff e Zamora debilitados, é menos equipa ainda do que se supõe. Não levou o correctivo do Middlesborough, outro modesto britânico derrotado por outro espanhol, mas ficou claro que esta oportunidade é uma vez na vida.
Muitos não deixaram de olhar para o Atlético de Madrid como um vencedor feliz.
O conjunto espanhol entrou na Champions League depois de um play-off sofrido. Foi humilhado pelo FC Porto e Chelsea e sofreu até ao fim para superar o modesto Apoel do Chipre. Caiu na fase a eliminar da Europe League com um novo técnico - Quique Sanchez Flores - e sem Maxi Rodriguez, um dos seus capitães. Foi ganhando por tropeção os duelos com Galatassaray, Sporting e Valencia, com empates consecutivos que lhes valiam o apuramento por golos fora. Golos, muitas vezes, com o oportunista selo de Forlan. À medida que os favoritos iam caindo por todos os lados, os colchoneros chegaram às meias-finais para defrontar o Liverpool. O mais débil dos conjuntos Reds da década. Mesmo assim sofreram até ao último segundo para marcar o lugar na final. Onde, apesar de tecnica e tacticamente superiores, não se livraram de um bom justo. Um campeão sim, mas um campeão que emerge entre uma mediania gritante que pautou a primeira edição da prova.
Com Reyes e Simão apagados (e bem substituidos por Jurado e Salvio), coube a De Gea nas redes, Dominguez na defesa e Aguero no ataque, carregar com a equipa. À frente, o "uruguayo", esperava. Marcou o primeiro. Marcou o segundo. Dois golos de oportunismo. Dois golos com o selo de fome. De titulos, de glória, de história, de raiva.

Com Neptuno acordada toda a noite, Madrid descubriu que tem em si uma equipa ganhadora para lá do histórico Real, algo que o tempo deixou esquecido depois de 16 anos de vazio. A UEFA consagrou a Champions como a prova do glamour, mas há algo nesta Europe League que continua a soar de forma gritante a segunda divisão europeia. Uma década de poucas noites entusiasmantes e ainda menos equipas fascinantes que ganha mais um nome para o seu historial. Um nome que há muito o céu sem estrelas de Madrid queria gritar.

