A imensa sombra do "feijão" mais português que o Brasil já pariu ensombra a convocatória de 24 divulgada por Carlos Queiroz. O seleccionador terá direito às suas insónios à medida que se perceba até que ponto Pepe está apto para jogar depois de uma paragem de sete longos e desesperantes meses. 24 escolhas, quase todas com a sua dose de contenstação, de um lote descompensado pela falta de qualidade do futebol português e a teimosia de um seleccionador que se prepara para zarpar as naus sem rota definida.

Adivinhava-se a polémica dos guardas-redes.
Era algo inevitável e repetitivo até no nosso ainda curto historial de grandes provas. Foi assim em 2002, quando um par de grandes defesas de Baía afastou Ricardo das redes. Foi assim durante o mandato Scolari, primeiro entre Ricardo e o guardião portista e depois com Quim. E agora com Queiroz. O português insatisfeito procurará sempre o ponto da discórdia e se a verdade única do futebol acentasse apenas sobre os méritos desportivos seria normal ver Quim no lote de convocados. Mas Queiroz escolheu o seu homem de confiança e houve algo que lhe fez perder a confiança em Quim naquela nefasta viagem ao Brasil. Ele sabe-lo-á, trabalhou com ambos ao contrário de Scolari que se recusou a trabalhar com quatro ou cinco jogadores apontados pela FPF. Quim merecia ir mas a sua presença seria uma pressão adicional para Eduardo. Este, agora, sabendo que atrás estão os inexperientes Beto e Daniel Fernandes, não tem desculpas. E o seleccionador também não por escolher um trio tão peregrino, onde não há nem veterania nem juventude.
O grande problema de Queiroz no entanto é outro.
Pepe está ainda em fase de recuperação. Em Madrid poucos apostam que esteja pronto para o Mundial mas, é claro, querem defender os seus interesses. A entrada do 24 homem é o tampão emocional para as dúvidas do seleccionador que prefere não ter de repescar um dos outros 7 nomes que a FIFA obrigará a divulgar, por muito que ele os queira omitir. Na ausência de Pepe, a quem o técnico destinou a posição de pivot no meio-campo, entra Zé Castro. Um defesa com uma época mediana, a tirar para o fraco, sem experiência de grandes jogos e grandes palcos. Um achado no palheiro, portanto. De fora ficaram Nunes, autor de um ano espantoso na mesma liga, os sportinguistas Tonel e Daniel Carriço ou até mesmo o veterano Fernando Meira. Uma escolha arriscada por muito que o central do "Depor" possa nem vir a jogar até porque na lista estão também outros dois centrais suplentes, os igualmente medianos Rolando e Ricardo Costa. Partindo do principio que Pepe joga no meio e que já estão o portista e o atleta actualmente no Lille para substituir a dupla titular Bruno Alves-Ricardo Carvalho, para quê chamar mais um central ao estágio?
Uma dúvida que se adensa quando pensamos na real posição de Pepe no esquema de jogo de Queiroz. O meio-campo.
Aí o técnico não teve problemas em chamar Pedro Mendes e Miguel Veloso, médio defensivos naturais. Ao seu lado, mais dois médios de contenção como são Tiago e Raul Meireles e apena sum criativo puro, Deco. Feitas as contas, com o embróglio da posição de Pepe e da sua condição fisica, o técnico convoca dois jogadores para o seu posto natural e cinco para o seu posto alternativo. Um total de sete convocados - mais Pepe - dos quais só dois jogariam se o jogador do Real Madrid estiver em forma. No minimo, excessivo.
Essa abundância no sector defensivo (meio-campo e centrais) constrasta com a escassez de opções de ataque. Apenas dois avançados (Hugo Almeida e Liedson), três extremos (Cristiano Ronaldo, Nani e Simão) e um híbrido (Danny). A lateral esquerdo Queiroz prefere apostar em duas adaptações de jogadores ofensivos (Coentrão e Duda) enquanto do lado direito prevalece a veterania de Miguel e Paulo Ferreira. Muita juventude num só lado para muita veterania (e lentidão) no lado oposto. Pouco fogo no ataque para tanta contenção no miolo. Um desiquilibrio constante que poderia ter sido corregido com alguns retoques. E nem é a ausência de João Moutinho que mais surpreende (o médio do Sporting fez um ano mediocre, mas também o fez Raul Meireles), senão a falta de uma alternativa credível a Deco, chame-se Nuno Assis ou Carlos Martins, dois jogadores que até se dão bem com as bolas paradas. O problema, nesta questão, passa mais pelas lesões de Varela e Ruben Micael, jogadores que teriam dado outro pedigree e opções ao ataque. E que espelham bem a falta de qualidade do plantel português, como já criticamos na celebre lista dos 50. Não vá Vierinha ficar desiludido por ter sido deixado de fora.
O seleccionador espera agora na Covilhã que os jogadores cheguem a conta-gotas. Terá de aturar as criticas das hordas benfiquistas - com o técnico principal, oportunista como sempre, à cabeça. Terá de suportar os problemas fisicos acumulados e a gestão de egos dentro do balneário, onde alguns olham-se para o espelho e vêm montanhas onde outros apenas vales.

No meio de tantos problemas Queiroz podia ter poupado uma que outra noite de insónia. Bastaria para tal ter sido equanime nas escolhas. Honesto consigo mesmo. Sem conseguir decidir-se por um modelo (4-4-2 ou 4-3-3), sem conseguir decidir-se por um sector que reforçar, acabou por apresentar uma lista que acenta numa só ideia: um onze titular forte com o minimo de alterações. Se as lesões, os cartões e os adversários o permitirem, a primeira linha do professor pode funcionar. Caso contrário o cabo da Boa Esperança pode facilmente voltar a ser das Tormentas.

