30 jogos depois o sofrimento dos encarnados chegou ao final. É paradoxal que a equipa que se via como campeã numa pré-época feita à medida para entusiasmar os adeptos tivesse de sofrer até aos minutos finais para saborear o segundo título da década. Ou primeiro da próximo, como se queira ver. O Benfica venceu com naturalidade uma liga repleta de nódoas dificeis de esquecer. Foi uma equipa ofensiva que soube utilizar todas as armas ao seu alcance. Uma equipa bem montada por Jorge Jesus, com um colectivo que espelhou, finalmente, os muitos milhões gastos nos últimos anos. E que, paradoxalmente, teve de esperar até ao fim para ver claudicar o Braga dos pobres. É assim o futebol em Portugal, repleto de circunstâncias inevitáveis!

Carlos Brito preferiu não utilizar Fábio Faria, central com contrato com o Benfica que não teve problemas em assumir as suas preferências para o duelo entre as suas equipas. Essa sombra de suspeição grassou ao longo do ano e marcou um triunfo que, de outra forma, teria sido justo. Mas os condicionantes à portuguesa, um problema constante num país corrupto por definição, independentemente do campeão, foram reduzindo as variantes da corrida ao título. Se o Sporting se auto-excluiu da corrida com uma politica de hara-kiris constante, já o FC Porto demonstrou ter feito mal os deveres. Vendeu dois jogadores chaves, comprou um lote de dez novos atletas, e sobreviveu à custa dos golos de Falcao, o jogador do ano da prova. Os tropeções de uma equipa que até fez mais golos e mais pontos do que em qualquer outra época com Jesualdo Ferreira ao leme, foram uma constante da primeira volta. Até ao jogo da Luz. Ao contrário do Braga, a grande surpresa do ano. Domingos fez má figura na Europe League e passou com nota de distinção a prova caseira. Manteve um pulso até ao final com Jesus - um estratega de primeira, personagem de segunda - e só pecou pelo mau perder. O que disse no final do jogo de ontem deveria ter sido o seu discurso de há vários meses. Porque nesse Dezembro quente definiu-se a liga como aqui escrevemos. O túnel da Luz causou a um demasiado inocente FC Porto a baixa "sine die" de Hulk. E deu a entender que a prova se ia discutir a dois. Até à suspensão de Vandinho e Mossoró, elementos chave na estratégia bracarense. Suspensões inexplicáveis que deram ao conjunto encarnado, já lider, uma confortável vantagem psicologica. Porque a fisica surgia, semana após semana, com duelos pautados por uma imensa desiguladade. De golos. E de homens em campo. O último jogo foi apenas mais um exemplo de uma realidade constante, inédita no futebol europeu.
Por tudo isso o 32 título encarnado ficou ensombrado quando poderia, perfeitamente, ter sido uma festa do futebol.
O onze ofensivo das primeiras jornadas, com um diabólico Saviola, um letal Cardozo e dois artistas como Aimar e Di Maria, era realmente um conjunto impressionante. Por essa altura os encarnados eram os melhores da prova, face a um Braga regular e um Porto despistado. Mas a gasolina foi falhando. Saviola desapareceu do radar, Aimar também. Começou a surgir o músculo, onde antes havia a magia. Surgiram os primeiros tropeções, as primeiras dúvidas. Jesus reagiu bem e montou um onze mais cinico para a segunda volta. Especializou a equipa nas bolas paradas confiando no excessivo número de faltas do futebol português. Saiu-lhe perfeito o lance e assim se foram superando obstáculos. O Braga, sem o seu fiel de balança, foi mantendo o pulso mas a goleada no Dragão tirou-lhe força moral. O ressuscitado FC Porto, também deitou a toalha ao chão em Alvalade de forma inexplicável, quando se pensava que poderia voltar a entrar na luta. Mais com o regresso de Hulk. Com o brasileiro, uma nódoa na primeira volta, a equipa não voltou a perder. E fez um final de época de campeão. Já nem chegava para o segundo lugar tal a regularidade eficaz do Braga e os apertos de coração dos encarnados. O titulo, anunciado desde o principio, demorou a chegar. A derrota no Dragão demonstrou a debilidade do novo campeão. O sofrimento com o Rio Ave, ouvidos postos na Madeira, pareceu um cenário surreal face à euforia do inicio da prova. Mesmo assim, foi suficiente. Para estrear-se a receber o troféu no acto, uma costume habitual noutras ligas que se estreia em Portugal. Um toque de cinismo subtil de uma Liga que passou os últimos quatro anos a entregar taças com uma época de atraso. Pela primeira vez uma liga europeia viu dois clubes receber o trofeu de campeão no espaço de um mês. Palavras para quê.

Nesta liga a três, o quarto em discórdia foi o fantasma da prova. Para muitos favorito ao titulo, face às boas sensações das quatro épocas anteriores, o Sporting desapareceu cedo do mapa. A saída do eterno Paulo Bento e o mandato cinzento de Carvalhal ficaram apenas marcados pela vitória frente ao FC Porto e pelo empate contra o Benfica. Muito pouco para um projecto tão ambicioso. Decepcionante acabou igualmente por ser o ano de Vitória de Guimarães e Nacional. Ambos pareciam disputar o último posto europeu até ao fim, mas resultados comprometedores nas últimas rondas ofereceram de bandeja ao Maritimo a possibilidade de voltar à Europa. Atrás a imensa classe pobre do futebol português. Leixões e Belenenses foram justos despromovidos, equipas sem pontos fortes e demasiada apatia para justificar algo que não seja disputar a Liga de Honra. O problema é que Olhanense, Vitória de Setúbal ou Académica poderiam ter sofrido o mesmo destino. E o futebol português pouco perdia. Acabaram por salvar-se, com os mais tranquilos Naval, Paços de Ferreira, Rio Ave e União de Leiria. Equipas que jogam sem sonhos ambiciosos e pesadelos angustiantes. Equipas sem chama nem dor. Equipas perfeitas para uma Liga apática que acabou por ir para o mais esperto da aula.

