São dois nomes próprios os que definem a espantosa campanha do ressuscitado Bayern Munchen. No último jogo da fase de grupos os alemães estavam eliminados. E agora estão a marcar hotel em Madrid. O génio de Robben - sério candidato a MVP da prova - e o olfacto do irrepreensível Ivica Olic foram as armas secretas do mago van Gaal. Agora o céu é o limite...

Derrotado pelo Bordeaux, muitos pensavam que o novo projecto do gigante bávaro tinha chegado ao fim antes de começar.
Van Gaal não parecia muito popular, no balneários os problemas com as velhas glórias cresciam e na Bundesliga os sucessivos tropeções davam uma péssima imagem. Até que o técnico, um dos mal-amados do futebol contemporâneo, deu um murro na mesa e impôs as suas condições. A directiva aceitou. Os resultados estão aí. Uma época inesquecível.
Van Gaal é um dos melhores treinadores dos últimos 20 anos. E um mago a avaliar o potencial dos seus jogadores. Ao chegar a Munich percebeu que Toni e Klose eram cartas fora do baralho. Demorou a ultrapassar esse problema. Deu a titularidade a um sérvio sem curriculum, Ivica Olic, e aproveitou para lançar vários jovens das escolas de formação. Badstuber, Muller, Contento, Alaba...a nova seiva do tigre muniquês. Soube perceber também que Arjen Robben é, por direito próprio, um dos melhores do Mundo quando motivado. E também deu a volta ao problemático Ribery. Hoje o Bayern já não precisa dele, algo impensável há um ano. Mérito do holandês que apostou na força do colectivo com Schweinsteiger, van Bommell, Altintop, Tymosuchk com armas de apoio a um quarteto ofensivo de luxo. Montado o esquema, encontrada a táctica, posicionados os jogadores...inevitavelmente chegaram as vitórias.
Apurado com uma goleada das antigas em Turim, o Bayern teve de voltar a Itália depois de sofrer bastante em casa para derrotar uma Fiorentina com muitas queixas do árbitro norueguês que na época passada já tinha aberto as portas de Roma ao Barcelona. Os Quartos de Final pareciam o limite a que a equipa, então já lider da Bundesliga depois de uma notável recuperação, poderia ambicionar. Até porque vinha aí Rooney e o seu Man Utd. A partir daí começou a funcionar o binómio Olic-Robben, que foram resolvendo, tranquilamente, cada eliminatória.
Injusta afirmação para uma equipa de muitas estrelas que vive, acima de tudo, da força do colectivo. Mas foi o letal croata quem se aproveitou do deslize defensivo inglês nos últimos segundos para dar uma preciosa vantagem para o jogo de Old Trafford. E foi o holandês, com um golo memorável, quem garantiu o apuramento dos alemães depois de estes terem estado a perder por 3-0. Três semanas depois o Olympique de Lyon voltou a perceber que Robben está em estado de graça. Num jogo de um só sentido o holandês concretizou o único tento. E deixou a porta escancarada. A mesma porta que abriu a pontapés Ivica Olic com um hat-trick repleto de garra e oportunismo em pleno Gerland. E se o Bayern tinha garantido o seu apuramento com os resultados em casa (perdeu em Bordeaux, Florença e Manchester), em Lyon os bávaros pareciam em casa. Não porque o Lyon foi o que sempre foi - uma equipa séria, sólida mas pouco mais - mas porque van Gaal sabe bem o que faz. E está perto de fazer um campeão europeu.

Longe de qualquer lista de apostas, este Bayern tornou-se inevitavelmente uma das equipas do ano. Não só porque pode conquistar uma tripla histórica no seu largo historial. Mas porque joga com solvência, inteligência e classe. Van Gaal voltou a dar uma licção e quatorze anos depois regressa a uma final europeia. Vem acompanhado de um exército preparado para tudo e para todos. Que ninguém os subestime. Pode levar uma boa surpresa.

