São as visões opostas do futebol. Um técnico que gosta de ser o centro das atenções contra um homem que se recusa a dar entrevistas e fala só no colectivo. Um amante do jogo de toque, disciplina, herdeiro da tradição holandesa do "Futebol Total". Um técnico que sabe como ninguém ocupar os espaços, controlar o cronómetro, escolher o ritmo, fatigar para ganhar. São os dois melhores generais do futebol e só um deles poderá seguir para a batalha final.

Não houve na história do futebol um conto de ascensão vertiginosa tão súbita como Josep Guardiola.
Um dos melhores jogadores espanhóis da história, o médio centro lançado aos 18 anos por Johan Cruyff, tornou-se no treinador da moda. Todos gostam dele. Do seu estilo despreocupado. Da sua honestidade face aos rivais. Da forma como encara o jogo e como procura sempre algo mais do que a vitória: o espectáculo. No seu primeiro ano como treinador orientou a equipa B do Barcelona e levou-a da III para II Divisão B. No Verão, acossado pelos criticos e com Rijkaard a sair pela porta pequena, Joan Laporta ofereceu-lhe o posto de técnico. "No tendrás cojones", disse-lhe Pep. Mas teve. Depois de um Verão repleto de polémica e de uma derrota no jogo inaugural nasceu o Pep Team. Aproveitando duas pérolas do emergente Sevilla, o defesa Dani Alves e o médio Keita, e a cantera da Masia que o técnico conhecia tão bem, Guardiola incutiu um espirito ganhador numa equipa que já tinha vencido tudo e tinha caído na mais pura decadência. Foi um ano inesquecível coroado com a vitória em Madrid por 2-6 frente ao eterno rival e em Roma, onde o Barça voltou a sagrar-se campeão da Europa. Guardiola era o homem do momento.
Agora, um ano depois, muitas coisas mudaram.
O simpático Pep está mais cinico nos comentários. Utiliza a tipica jerga dos técnicos, falando de árbitros, teorias da conspiração e queixando-se de tudo e nada. Messi, convertido em falso avançado, acapara os titulos do melhor do Mundo mas continua a ser Xavi quem pauta o jogo. A equipa abandonou o 4-3-3 por um 4-2-3-1 mais flexível. E de ter ganho todos os trofeus (6) num só ano, o Barcelona está perto de ficar a zero. Os nervos estão à flor da pele e o Camp Nou contém a respiração. O "Principe" do futebol de toque, o homem que recuperou o jogo bonito e deu-lhe uma consistência defensiva que nem nos dias do Dream Team Cruyff ou do Brasil de 82 chegou a ter, está numa encruzilhada. Já nem tudo brilha no horizonte.
Do outro lado da barricada atravessa o mar um exército disciplinado, férreo e disposto a morrer pelo seu general.
Um estatuto que Mourinho ganhou nas suas diversas campanhas de guerra. Desde que irrompeu no União de Leiria que Mourinho mostrou ser especial. Com aquela equipa de remendos montou um conjunto espantoso. Transformou o decadente FC Porto em rei da Europa em dois anos, perdendo menos do que qualquer outro técnico. Em Londres fez história, levando o Chelsea a um titulo que há 50 anos que não saboreava. E em Milão, bem, em Milão outro tipo de história espera-o. Mourinho é provavelmente o melhor treinador da última década. Falta-lhe talvez uma segunda Champions para o fazer destacar dos seus rivais. Uma Champions que procura desesperadamente. Para ele o único verbo que sabe conjugar é o ganhar. Na época passada o Inter venceu o Calcio mas caiu logo na Champions. Não havia ali um ADN ganhador. O sadino sabia-o. Mas esperou. No Verão fez negócios cirúrgicos. Sneijder, Motta, Milito, Etoo, Lucio, todos eles chegaram em boa hora. Pandev e Mariga vieram ajudar no Natal. Mas o colectivo já estava montado. Acusado de técnico resultadista e defensivo, a verdade é que Mourinho não procura o espectáculo. Procura ganhar. Não admite vencer um jogo por 5-0 e empatar o seguinte quando pode ganhar os dois por 1-0. Assim se fazem os campeões. Mas também os vilões.
O português, um pouco à imagem e semelhança de Cristiano Ronaldo no terreno de jogo, sina nossa, é o técnico mais odiado do Mundo. O outro lado do espelho de Guardiola. O lado que ninguém gosta de ver. Mourinho fala no "eu" em vez de centrar-se no "nós". Domina o espaço do terreno de jogo de tal forma que extende e comprime um encontro com um ligeiro ajuste. Ninguém muda três vezes de modelo de jogo em 90 minutos. Só ele. E só ele pode travar a irresistível campanha de dominio de um Barcelona que se assemelha muito ao AC Milan de Sacchi, a última formação a vencer por dois anos consecutivos a Taça dos Campeões. O Rei dos bancos tem a sua prova de fogo. Com o Chelsea caiu duas vezes nas meias-finais por erros arbitrais e puro azar. Agora leva para o estádio que o despreza uma vantagem curta mas que terá de saber manobrar. Quem não conhece Mourinho poderá pensar que irá defender. Mas o português quer ganhar. Sempre. E se perder, será com golos. Essa é a sua filosofia.

Com todo o respeito que o Lyon e Bayern merecem, a final da Champions 2009/2010 desenrola-se hoje à noite. Em Barcelona e não em Madrid. Num ambiente de euforia e loucura onde se define o estilo do ano. Haverá quem aposte tudo no futebol espectáculo do Barça que em Milão se viu asfixiado pela teia de aranha neruazzura. Haverá quem acredite que o cinismo no futebol compensa e que Mourinho fará este ano o que ao Chelsea pouco faltou para lograr na época passada. Será dificil que o futuro campeão europeu não esteja hoje no relvado, nessa luta entre o Principe e o Rei à procura de levar para casa o manto de Imperador. Da Europa!

