Há poucas equipas com tanta história no futebol germânico como o mitico conjunto do FC Kaiserlautern. O clube fundado fez parte do período aureo do futebol germânico mas há quatro épocas que agonizava na segunda divisão. Até agora. A dois jogos do fim os guerreiros do Rhur estão de regresso à elite.

Kaiserlautern é uma cidade pequena no sul da Alemanha de apenas 100 mil habitantes que deve o seu nome ao simples facto de que o imperador Frederico Barba-Roxa gostava de se retirar nas suas terras a caminho de caçadas.
As bandeiras norte-americanas são ainda omnipresentes, resultado directo das várias bases da NATO na zona tão antigas como a Guerra Fria. Mas com o passar dos anos as bandeiras foram diminuindo e hoje são poucos os marines que se referem à cidade com K Town. Os mesmos que faziam vibrar as bancadas do Fritz Walter Stadium, o único recinto na história dos Mundiais que recebeu uma prova enquanto o seu clube militava numa divisão inferior. Essa é a importância do Kaiserlautern para o futebol alemão.
Tetracampeão da Bundesliga, o último titulo de liga remonta a 1998, precisamente na época que se seguiu à sua primeira despromoção. A equipa que viu nascer para o futebol várias estrelas, dos irmãos Walter, heróis de Berna, a Miroslav Klose, goleador-mor da Mannschaft da última década, depois caiu na penumbra. E só agora se ergueu. Definitivamente. E com um sabor agridoce. A equipa tinha perdido na sexta-feira por 1-0 contra o Hansa Rostock, outro histórico a lutar para não cair nas ligas regionais. Uma derrota que parecia adiar o inevitável. E assim foi. Dois dias depois o empte do Augsburg e o FSV Frankfurt, confirmou o que só a matemática tinha teimado em adiar. A subida de divisão. Os sete pontos de vantagem sobre o terceiro a dois jogos do fim garantem que, pelo menos, o segundo lugar pertence aos Diabos de K Town. O titulo de campeão está à mera distância de um empate. Para confirmar no fim de semana que vem.
A época do histórico Kaiserlautern correu de feição. Apesar dos pontuais tropeções parecia que os adeptos acreditavam que a subida de divisão era apenas uma questão de números. Nos últimos anos o histórico conjunto tinha deixado sempre a sensação de não estar preparado para atingir a elite. Este ano tudo foi diferente.
É uma equipa sem estrelas ou nomes sonantes. Maioritariamente germânica com o ascedente do leste europeu que sempre atraiu os alemães. Sippel defende as redes com invulgar eficácia. A linha defensiva de Dick, Schulz, Amedick e o brasileiro Rodnei cumpre serviços minimos mas é no meio-campo onde está a força do conjunto vermelho. O veterano Fuchs, o bósnico Paljic, Bugera e Mandjkec, jovem promessa emprestado pelo Sttutgart, surgem em apoio da dupla ofensiva Nemec-Jendrisek. Sem nomes, mas com a raça do técnico Marco Kurz. Assim se moldou a campanha ganhadora do histórico conjunto. Desde cedo nos lugares de topo, quase nunca com dúvidas onde antes pululavam incertezas. O título está perto, para garantir um regresso à elite em estilo. Mas há muitas dúvidas no ar. Depois da péssima gestão desportiva que obrigou a actual direcção a vendar o mitico Fritz Walter, remodelado para o Mundial, há pouco dinheiro em caixa. E muita expectativa. Cumprir com as exigências de uma liga de elite como se está a tornar a Bundesliga é um exercicio complexo. Que o diga o Hertha de Berlin, há poucos anos a disputar a Champions League e que agora se prepara para fazer o caminho inverso. Ou o Karlsruher, finalista vencido de uma Taça UEFA nos anos 90 e que há vários anos se afoga em cada tentativa de voltar entre os grandes.

A festa na pequena localidade faz eco com todos os nostálgicos dos clubes de elite. Até há dez anos atrás só havia quatro clubes alemães que nunca tinham conhecido o sabor amargo da despromoção. Hoje só sobrevive o histórico Hamburg SV. Um fenómeno que começa a transladar-se a outras ligas da Europa. Cada vez mais a competetividade do futebol actual não dá oportunidade a argumentos nostálgicos de um passado distante. Talvez por isso o projecto FCK 2010 mereça uma atenção especial. Por uma vez a equipa esqueceu-se de quem foi e cumpriu com o seu sonho. O coração dos adeptos pode voltar a bater com tranquilidade.

