Quarta-feira, 21 de Abril de 2010

Não se enganava Guardiola. Não era um exercicio de falsa modéstia. O técnico blaugrana, a novidade mais refrescante do futebol europeu dos últimos cinco anos, sabia do que falava. O Inter é a equipa melhor treinada do Mundo. E, por uma vez, o futebol artistico de toque do Barça viu-se superado pela genialidade táctica do português. O Inter logrou o impossível. Quem disse que Mourinho era um técnico defensivo?

Num dos maiores recitais tácticos de que há memória, a aparente superioridade técnica do Barcelona foi suplantada pela exibição quase perfeita do conjunto neruazurri. Um exercico de controlo absoluto dos mandamentos chaves do beautiful game do professor Mourinho. Dois anos depois, e talvez pela única vez, Guardiola viu-se totalmente superado. Superado na preparação do choque. Superado no decorrer do jogo. Superado nos mais pequenos detalhes. O técnico catalão é muito provavelmente um dos mais geniais treinadores de que há memória. E só leva dois anos na alta competição. No entanto, e apesar de se ter mantido fiel á sua filosofia de futebol de toque, Guardiola não soube reagir á teia montada habilmente pelo setubalense. Se o Barcelona é a equipa de toque rápido por excelência, o Inter é a melhor formação táctica do Mundo. A que melhor controla o espaço. Sem bola não se pode jogar. Mas sem espaços também não. Venceria quem soubesse melhor roubar o que o outro tinha de vantagem. E foi o Inter. A equipa italiana exerceu durante todo o jogo uma constante pressão. Nunca marcou ao homem. Nunca foi preciso. Xavi e Messi, os dois génios do Barcelona, foram totalmente asfixiados pela ocupação do onze do Inter. Motta e Cambiasso cercavam filas e o apoio constante de Zanetti e Maicon, sem esquecer o incansável Sneijder, fizeram o resto. Durante 90 o Barcelona poucas vezes soube criar uma jogada de raiz. Teve oportunidades, marcou depois de um dos poucos erros defensivos italianos, mas foi totalmente anestesiado. Por uma equipa muito superior.

Com uma pressão vertical constante o Inter cortou a habitual táctica espanhola de começar cada lance no sector defensivo.

O jogo italiano anulou por completo as subidas de Pique no apoio a um Busquets sempre muito só nos duelos com os mais raçudos centro-campistas italianos. E se Alves foi tentando subir pela direita, a verdade é que do brasileiro veio pouco perigo. Ao contrário de Maxwell, que se revelou mais certeiro abrindo as linhas para o lance que, injustamente, colocou o conjunto catalão á frente do marcador. Um golo importante mas que não abalou o conjunto do português. Os soldados do general Mourinho fecharam filas. Juntaram-se na linha de meio-campo, exploraram o contra-golpe certeiro, enquanto iam secando todas as tentativas de Xavi em pautar o ritmo de jogo. Messi, pela primeira vez em largos jogos, foi travado de forma certeira. E sem eles a equipa de Barcelona vulgarizou-se. Ibrahimovic foi engolido pela imensa dupla de centrais, Lucio e Samuel, enquanto que Sneijder pautava, ele sim, a forma como o campo se encurtava e extendia no terreno de jogo. Num dos seus lances tipicos ajudou a desiquilibrar o contra-golpe surgindo depois para finalizar. O empate era um resultado injusto no intervalo e rapidamente o tento de Maicon colocou a justiça no marcador. Um golo depois de mais um lance tipico da cartilha Mourinho. A perder o Barcelona tentou lançar bolas para as alas. Guardiola preparava Abidal, para adiantar Maxwell como falso extremo, quando o conjunto italiano deu o golpe de graça. Milito não perdoou e garantiu que, pela primeira vez em dois anos, Guardiola fosse derrotado por mais de um golo de diferença. Uma realidade que espelha bem a superioridade no terreno de jogo do Inter. E que deixa muitas dúvidas para o duelo no Camp Nou.

Se Guardiola nunca quis abdicar do principio de jogar a partir do meio campo em constantes triangulações - bem gesticulou a Xavi para que pautasse o jogo - a verdade é que o Barcelona esteve constantemente incómodo. Sneijder explorou sempre as transições laterais e os rápidos lançamentos para os sprints de Milito, Pandev e Etoo. Se o camaronês teve (mais um) dia não, já o argentino e o macedónio foram um autêntico pesadelo para Alves e Maxwell, descaindo sempre para os flancos e permitindo a chegada da segunda linha. O jogo começou com um campo largo mas á medida que o controlo italiano ia aumentando Mourinho dava ordem para reduzir o espaço de jogo. E as linhas fundiam-se quase numa só. E anulavam todas as transições catalãs. A basculação lateral de Sneijder determinou a forma como o jogo ia saltando de um lado ao outro a seu belo prazer. Algo que Guardiola nunca soube anular, já que nem Busquets, nem Keita conseguiram tapar o veloz e imenso holandês. É indubitável pensar que Wesley Sneijder, um descartado do Real Madrid como o é também Arjen Robben, seja um dos máximos candidatos a MVP da Champions League. Uma vez mais o jogo decidiu-se na sua mente antes da bola pousar no relvado. E no entanto, nunca houve um número 10, um pensador, que ao mesmo tempo fosse o mais pressionante, o mais lutador de todos os jogadores em campo. Mourinho encontrou na sua estrela uma arma gémea.

No futebol pode suceder um pouco de tudo. 2-0 é o resultado do que o Barcelona necessita. Foi o que logrou há meses no duelo da fase de grupos. Mas Mourinho já avisou que este Inter  é outro Inter. E que na próxima Quarta-Feira a equipa estará, como um escorpião, á espera de infligir o golpe mais letal. Tal como em Londres. Tal como em Moscovo. Com golos venenosos. Com exibições personalizadas. Com um general que se prepara para a sua maior batalha.   

 



Miguel Lourenço Pereira às 00:01 | link do post

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