Poucos eventos desportivos foram tão politizados como o Mundial de 1978. Um Mundial desenhado, desde as profundezas, à medida da selecção argentina. Uma equipa em descrédito, muito longe da elite, que foi ultrapassando timidamente cada obstáculo para chegar à final dos papeis brancos e derrotar, uma vez mais, a amaldiçoada Holanda.

Para a história fica o sorriso sinistro de Videla, o homem que ajudou a dar forma ao Mundial da sua Argentina.
Uma prova repleta de polémica mesmo antes da bola ter arrancado. E que ainda hoje perdura. Goleadas inexplicáveis, estádios repletas de agentes especiais destacados para fazer prisões selectivas e um astro mundial que se recusou a viajar por não querer jogar num país onde pessoas desapareciam. Provavelmente só o Mundial de 1934, sob o signo de Mussolini, foi tão politizado como este. Em ambos os casos a estratégia funcionou. Mas ao contrário daquela squadra azzura, a Argentina não era no terreno de jogo favorita. Ganhou o favoritismo a pulso, entre bons jogos, um público fanático e uma série de erros alheios. Ou talvez não. Em todos os seis jogos que antecederam a final os argentinos beneficiaram de jogar depois dos rivais, sabendo precisamente do que necessitavam para seguir em frente. Naquela tarde em Buenos Aires, com o Mundo em suspenso, a sorte esteve sempre do seu lado. O remate no ferro de Filol a poucos segundos do fim evitou a desgraça. A maior frescura fisica e a falta de crença de uns holandeses abandonados ao seu próprio desespero fizeram o resto. Um 3-1 que espelha pouco o que se passou nos longos 120 minutos de jogo. Pela segunda vez uma final ia a prolongamento. Pela segunda vez o tempo extra deu o titulo ao onze anfitrião. Kempes entrou na galeria dos goleadores. O jogo fisico de Passarella e Houseman, o talento de Villa e Ortiz e a classe de Ardilles fizeram o resto.
Foi o Mundial das surpresas na primeira fase. Nos quatro grupos os favoritos apuraram-se no segundo posto. A Polónia confirmou a boa forma e superou uma pálida RF Alemanha, bem longe dos seus melhores dias. A favorita Holanda caiu aos pés da Escócia, nessa noite histórica, para acabar atrás do Peru de Cubillas. O mesmo superior Peru que cairá, pouco depois, por seis golos, diante de uma Argentina a quem tinha ganho os confrontos anteriores com folgadez. A Áustria bateu Espanha e Suécia para passar à frente do desorganizado Brasil que depois de dois empates acabou por passar graças a uma vitória sobre uma equipa austriaco cheia de reservas. Quatro depois um cenário similar voltaria a ter a Áustria como triste protagonista. Por fim a Argentina, que tinha o beneficio de jogar em casa, não soube bater uma renascida Itália e viu-se relegada para o segundo posto. O conjunto albiceleste tinha batido uma tenra França e uma frágil Hungria. Mas sempre a sofrer mais do que esperado. Mas evitou os tubarões europeus. Os que se foram degladiando entre si entre jogos adormecidos e golos espantosos. O remate de Arie Haan decidiu uma mano a mano entre holandeses e italianos. A mesma Holanda que tinha trucidado por 5-1 a Áustria acabava por adormecer num empate a zero com a RF Alemanha. E só esse triunfo sofrido decidiu o passaporte para a grande final. Do outro lado, nada mais do que polémica a pautar cada jogo do onze argentino. A equipa orientada por Cesar Luis Menotti começou por vencer a Polónia por 2-0 com dois polémicos golos de Mario Kempes. Horas antes o Brasil tinha marcado mais um golo ao Peru. Ambos empataram a zero no confronto directo e na noite do jogo decisivo, em Rosário, o onze celeste entrou em campo a saber que o Brasil tinha marcado outros três golos à Polónia. Era simples. A Argentina tinha de vencer por cinco golos de diferença. Ou não havia final.

A história tratou de contar o resto. Os defesas peruanos não reagiam aos lançamentos rápidos de Ardilles e Luque. O guardião peruano não se estirou ás bolas. O mago Cubillas, desapareceu. Tudo parecia fácil demais. Os brasileiros desesperavam com a marcha do marcador. Depois do 2-0 ao intervalo, os argentinos conseguem três golos em 15 minutos. Para não deixar dúvidas apontam um sexto, já desnecessário. O Brasil caía, por dois golos. Dois polémicos golos. Por isso quando a bola de Resenbrink esbateu com o poste de Fillol, o general Videla sorriu. Kempes e Bertoni fizeram a festa depois. Os papelinhos voltaram a voar, os desaparecidos ficaram no esquecimento. O futebol saiu corado de vergonha do Monumental. Seria a última vez.

