Na noite em que o Mundo decidiu parar porque uma bola redonda ia rolar sobre um rectângulo verde no norte de Madrid, o professor entrou tranquilamente na sala de aula e olhou para a plateia. Sem fazer muito ruído virou-se para o quadro e começou a desenhar. Traços perfeitos, linhas rectas, puros triângulos. Por duas vezes parou de olhar. Descansou. O trabalho estava feito. O professor podia voltar a sair de cena. Tinha dado mais uma licção de geometria.

Há desportos que roçam constantemente a perfeição. Não permitem o minimo erro ou distração. Mas há poucos que sejam tão linearmente geométricos como o futebol. Especialmente quando o jogo ganha proporções de classe magistral de um maestro catedrático.
Pequenos e grandes rectângulos sob a forma de televisores espelham o imenso espaço perfeito que é o Santiago Bernabeu. Noite quente em Madrid, a espreitar já a Primavera. Bancadas repletas de gente a fervilhar de esperança. Um ano e 300 milhões depois dos 2-6 há quem acredite que o reinado barcelonista está prestes a chegar ao fim. Ou, pelo menos, a sofrer um severo correctivo. Equipas alinhadas, um piscar de olho nada inocente entre dois grandes que o Mundo decidiu que se tinham de odiar, e um abraço sentido. Todos sentados, silêncio ensurdecedor. A aula pode começar. Durante algum tempo os alunos barafustam e o barulho e desorganização das carteiras torna imperceptivel a licção. Mas ela está ali. Enquanto os de branco, vulgo Real Madrid, preferem explicar à sua plateia que o futebol é uma questão de longas rectas, sem final aparente, o professor Xavi Hernandez decide voltar a por em práctica a matéria que o tornou numa figura iminente do meio: o futebol é coisa de triängulos.
Pequenos toques, movimentos rápidos. Só fazem falta dois homens para formar três linhas. Passe, recepção, passe, recepção. O ritmo de carrousell vai ganhando forma à medida que os pequenos triangulos se vão espalhando no tapete. O professor, no meio, vai expondo a sua teoria. Recebe, pensa, faz jogar. Como sempre. Como ninguém é capaz de fazer. Fora da zona verde o seu mentor, já formado e doutorado na teoria do triângulo, espera pacientemente. Ambos sabem o que é preciso para fazer passar a mensagem.
A vitória do Barcelona de Xavi sobre o Real Madrid de ninguém foi mais uma prova de que o futebol é geometria pura. E pouco mais há a dizer. As capas podem preferir a figura do sorrateiro Leo Messi, rápido a pensar, rápido a agir, rápido a enganar com um braço súbtil o olhar perdido do árbitro. Mas o argentino sabe que só existe, futebolisticamente, quando trabalha ao lado de um maestro da régua e esquadro. Nos dois lances de golo, o numero 6 blaugrana explicou ao senhor do cheque em branco que os milhões não pagam a perfeição do traço. Levantou a cabeça, tardou apenas leves segundos. Chegou. Tocou para Messi passando a bola por cima de toda uma defesa em estado de letargia. Rasgou o triângulo com Pedro rumo à baliza. Tirou as dúvidas de quem ainda tinha o braço no ar, disposto a fazer uma qualquer pergunta embaraçosa. Não foi preciso, há licções assim.
Enquanto o Real Madrid continua a ser uma equipa desorganizada, o Barcelona é a tranquilidade pura. Uma linha perfeita de quatro, organizada ao ritmo do relógio, soube conter a dupla ofensiva mais goleadora da Europa. O argentino Higuain continua a provar que a sua veia goleadora diminiu proporcionalmente à qualidade da equipa rival. E Cristiano Ronaldo, sempre só, limitou-se a correr, centrar e rematar para e com ninguém. Jogou um encontro à parte de todos os outros. Os colegas, que nunca o acompanharam. Os rivais, que estavam concentrados na sua licção. É dificil perceber como um jogador como o português se deve sentir ao ver o seu rival mediático benificiar do toque simples de um pequeno grande génio. A cada arrancada de Messi antecede-se um passe milimétrico de Xavi. Já Cristiano luta contra o Mundo. Sem ter quem lhe passe, sem ter a quem passar. O seu futebol não pode ser de triängulos. Para isso fazem falta dois. Ele baila só.
Guardiola arriscou com Dani Alves e teve de emendar. Até nisso se distinguem os génios. Pellegrini enganou-se desde o primeiro segundo. Nunca soube dar a mão à palmatória. O medo tomou conta do seu modelo de jogo, montado para destruir as folhas de papel onde a melhor dupla do Mundo, Xavi-Messi, ia desenhando as suas ousadas teorias. Mas ao recuperar a bola - e o Barcelona sofreu com essa pressão, jogando sem a mesma soltura a que nos habituou - esqueceu-se de que o futebol é construção. Apostou em longas linhas rectas para a frente. Sem triangulos, rectangulos ou cilindros não se pode jogar. Uma só linha não leva a lado nenhum. Nem ao horizonte. O chileno não entendeu ainda a licção básica do jogo. Numa equipa sem extremos para jogar com o meio-campo, sem um pensador de jogo para conectar com o ataque, resta esperar. 90 minutos de agónica espera com um resultado previsivel. Em jogos assim nem vale a pena acelerar. Duas fórmulas e caso resolvido. Há equações bem mais complexas para resolver. Com esta licção de geometria o clube merengue volta a olhar para dentro, para o seu eterno vazio. Não se trata de Messi estar melhor que Cristiano. É que Messi tem uma equipa por trás de si. 100 milhões de euros não fazem nada, se estão sós. Perdem-se no ar, papel sem valor. A diferença voltou a estar, como sempre, no professor que tudo ensina. Que tudo decide. Deixa para os outros as capas, os prémios. Fica com o saber dentro de si. Com a certeza de que a sua licção funcionará em qualquer universidade. Outros, mais hábeis do que muitos, vão sempre precisar dos seus ensinamentos para brilhar. Aí está a diferença entre a grandeza e o génio.

O Barcelona dos Triângulos vs o Real dos Quadrados é apenas um espelho de como o espaço é tudo neste jogo. No vazio de um quadrado há muito verde por ocupar, por tapar. No pequeno espaço que mede um triangulo cabem um, dois homens. Mas a bola circula livre, rumo ao objectivo final. Quarenta anos depois do Futebol Total ter trazido para o futebol o 3D, há ainda quem funcione a duas dimensões. Parados no tempo e no espaço mais não podem do que abrir o caderno e apontar na folha em branco. A licção de hora e meia terminou. Agora há muito trabalho de casa a fazer.

