Na cidade da Europa onde mais se respira futebol ontem pudemos entender que há algo no verde tapete que atrai os mais assombrosos magos do futebol europeu em noites de Quarta-Feira. O maior espectáculo desportivo do ano colocou frente a frente as duas equipas europeias que melhor interpretam o beautiful game. O resultado? Ninguém acreditaria.

Quem tivesse saído do Emirates Stadium ao intervalo perguntar-se-ia que brisa de sorte brindava a equipa gunner. Os mesmos teriam dúvidas 45 minutos depois sobre quem teria sido realmente o onze mais afortunado. O embate de gigantes destes Quartos da Champions League deixou para a história o melhor jogo do ano. O mais vibrante. O mais entusiasmante. O mais puro. Lado a lado os dois técnicos que melhor sabem tratar a bola, os espaços, o tempo de jogo. E duas equipas que seguem á linha as indicações dos seus generais. Parecia que o vencedor seria quem mais tempo tivesse a bola. A filosofia de base de blaugranas e londrinos. Mas não. O futebol é mais do que isso e o resultado final provou-o. Se o Barcelona foi dono e senhor da bola, o Arsenal foi dono e senhor do ritmo. Duas partes antagónicas como as duas formações que subiram ao relvado. Se ao intervalo o Barcelona poderia ter saído a vencer por 0-4, não surpreenderia ninguém que no final dos 90 minutos o jogo tivesse acabado com uma dezena de golos. Mas não, foram apenas quatro. Como se isso importasse. Guardiola ganhou o primeiro round. Wenger venceu o segundo. No final, puro empate técnico.

O Barcelona entrou melhor. Controlou a bola. Pautou o ritmo. Cercou o espaço ofensivo do Arsenal e empurrou-o para a sua grande área. E rematou. Rematou muito. Por seis vezes Manuel Almunia salvou os gunners de sofrer o primeiro golo. Xavi, Pedro, Messi, Busquets e claro, Ibrahimovic, foram desafiando o espanhol que se manteve imbatido por 45 minutos. A lesão inoportuna de Arshavin bem cedo mudou os planos de Wenger. Habituado a jogar em 4-3-3, o jogo obrigou-o a abdicar de atacar. Só por duas ocasiões teve o Arsenal perto de marcar. Em ambas exibiu-se, uma vez mais, o grande Victor Valdés, um dos heróis deste conjunto. E se os catalães só se podiam culpar a si próprios depois de exibirem o seu melhor futebol do ano, mas sem eficácia, eis que chegaram os golos. Almunia colaborou no primeiro adiantando-se demasiado e permitindo o oportunismo de Zlatan Ibrahimovic. Minutos depois o génio, outra vez, de Xavi Hernandez voltou a descobrir o sueco. Desta feita sem contemplações. 0-2, um resultado que então era justo. Mas perigoso. Porque se Guardiola é um génio, Wenger não lhe fica propriamente atrás.
O francês leu o jogo de forma soberba e percebeu onde podia atacar o Barcelona. Pelas laterais e em velocidade. Lançou o supersónico Theo Walcott que só precisou de quatro minutos para romper as redes de Valdés. O jogo tinha mudado, o Barcelona perdeu a bola e o espaço. O desaparecido Messi ficou em campo e saiu Zlatan. Uma mudança que deu a Henry o aplauso merecido e nada mais. O Barcelona com este lance perdeu a linha ofensiva e o Arsenal subiu no terreno de forma imediata passando a jogar no campo do rival. Poderia ter dado a volta ao marcador por várias vezes mas Pique e Puyol estavam sublimes. Até que mais uma arrancada pela direita de Walcott levantou a bola para a cabeça de Bendtner. O dinamarques, espertissimo, assistiu Fabregas que se preparava para fuzilar Valdés quando prende a perna em Puyol. Penalty pelo toque de ombro do capitão. Vermelho e o momento do jogo. Fabregas marca mas lesiona-se. Sem poder ser substituido fica no relvado a sofrer. E o conjunto gunner perde o seu pensador. E o jogo adormece lentamente até ao suspiro final.

Sem Pique e Puyol para a volta, Guardiola tem um grave problema. Mas não menor que Wenger que não contará com Arshavin, mas também não poderá alinhar Gallas e Fabregas que podem estar de fora até Maio. Resultado de uma batalha inesquecível no tapete londrino que relembram ao mais comum dos mortais que a bola no pé, o espaço de campo aberto e o ritmo cardíaco ao máximo são os únicos condimentos realmente necessários para demonstrar que o futebol é mesmo o maior espectáculo á face da terra.

