18 de Maio de 2009. 1 de Abril de 1990.
Duas datas que ficarão para sempre marcadas a letras de ouro na história do futebol português. Datas que marcam uma carreira repleta de números igualmente dourados. Como a geração que liderou durante quase vinte anos. De 1989 em Riade a 2009 em Milão, Luis Filipe Madeira Caeiro Figo foi o lider do futebol português. Venceu inúmeros prémios colectivos e individuais, oito ligas divididas entre Barcelona, Real Madrid e Inter, uma Champions League, uma Taça das Taças, uma Supertaça Europeia, 1 Taça Intercontinental, 2 Mundiais Juniores por Portugal, 1 Taça de Portugal...e perdemos conta aos trofeus colecionados pelo primeiro jogador português a ganhar o Ballon D´Or e o FIFA Award. Enfim, o primeiro português galáctico num país orfão de um lider desde o mitico Pantera Negra e que viu os seus mais ilustres maestros (Gomes, Oliveira, Chalana, Jordão, Futre) serem eternamente subvalorizados no espectro do futebol internacional. Figo foi o primeiro nome unânime do futebol nacional moderno - pós-Eusébio, subentenda-se. O primeiro a vender a sua imagem como ninguém. E o primeiro entre uma geração memorável.

De Figo interessa pouco falar de titulos. Ficam para a história e para os arquivos futuros. Quem os viveu lembra-se menos das ligas ganhadas e mais dos dribles fantásticos em direcção á grande área, rompendo as pernas dos laterais mais ousados. Lembram-se daquele remate que Seamen nem ousou desviar com o olhar. Do determinante grito de guerra naquela recuperação memorável com a Inglaterra. Ou da lágrima de raiva nas duas eliminações diante do amigo Zizou. Em vinte anos vimos vários rostos de Luis. O jovem de cabelo largo que surgia em Alvalade, lado a lado com uma nova geração de jovens talentosos que já conhecia das seleções de Queiroz. O jovem que assinou dois contractos com Parma e Juventus e acabou por se tornar parte da última etapa do Barça de Cruyff, da equipa montada por Bobby Robson - seu velho conhecido de Alvalade - ou da versão mais holandesa dos culés pela mão de Louis van Gaal. Durante esse periodo Figo teve sempre de viver na sombra. De Laudrup e Stoichkov, de Ronaldo, o verdadeiro e explosivo Ronaldo, ou até mesmo de Rivaldo...até áquela Verão onde, por um valor louco, trocou a braçadeira blaugrana pelo luxo de Madrid e se tornou no primeiro galáctico. Pela primeira vez era o cabeça de cartaz. Pela primeira vez soube jogar com a imagem. Venceu os dois mais importantes prémios individuais pelo que fez dentro e fora de campo. Liderou a mais espantosa equipa portuguesa na Bélgica e Holanda e fez parte da vergonhosa expedição á Coreia do Sul. Por então já tinha companhia galáctica e uma Champions no curriculum. E depois do fim da galáxia veio a reforma dourada em Milão, acompanhada de mais três titulos de campeão.

Recordo-me essencialmente das arrancadas de génio como a que sentou Peter Schmeichel num amigável em Leiria. Dos remates cruzados que apontava sem piedade ao lado mais recôndito das redes fosse o relvado que fosse. Ou do espirito guerreiro que lhe permitia ser o lider natural numa geração de grandes talentos como Rui Costa, João Vieira Pinto, Paulo Sousa...enfim, o lider dentro e fora de campo que nunca foi Paulo Futre ou Chalana, nem nunca será Cristiano Ronaldo, verdadeiros génios com a bola nos pés mas incapazes de levar um país aos ombros. Figo teve muitos defeitos, no tapete verde e nos bastidores. Como extremo era perfeito, mas tacticamente tinha limitações técnicas que por vezes o faziam um jogador pesado para jogar pelo meio. Nunca foi um goleador natural e muitas vezes tinha um grave problema nas compensações defensivas. Mas a verdade é que marcou uma era. Na selecção ideal dos últimos vinte anos seria certamente um dos titulares, um jogador que entraria na selecção ideal de qualquer amante do futebol. E mais do que os prémios dourados que tenha no armário, no futuro Figo lembrar-se-á mais depressa das palmas e dos assobios, dos dribles e das lágrimas...enfim, lembrar-se-á do mesmo que nós...dessa magia que era capaz de fazer sempre que calçava as chuteiras, saía do tunel e caminhava sobre o relvado de um qualquer campo desse mundo sem fim...
