Nenhuma equipa como o Manchester United sabe da importância que os minutos de desconto podem ter no desenrolar de um jogo. Ontem Alex Ferguson esteve amnésico. E o Bayern teve direito a uma doce desforra. Mais do que voltar a vencer o rival inglês (que só por uma vez logrou derrotar o clube bávaro), fê-lo nesse minuto mágico...90+2.

Barcelona está vingada. Uma vez mais. Na hora certo. Minuto pontual.
Não foi apenas o facto de ontem o Bayern e Man Utd terem trocado de papéis. Os cinicos alemães tornaram-se em fantasistas de teor ofensivo e os românticos ingleses foram os cruéis defensores do jogo de táctica e ferrolho. Foi o doce grito de revolta de uma angústia que leva mais de uma década apertada no peito do adepto alemão. Ontem cada adepto do Bayern Munchen teve de reler e rever as dolorosas imagens da quente noite de Maio barcelonesa. Só eles perceberam o grito de Olic, camisola arrojada ao chão, delirio no olhar. Um golo justo. Pela história. E pelos 91 minutos anteriores. O jogo abriu com um golo e fechou com outro. Pelo meio só houve uma equipa a querer jogar. Querer ganhar. E não foi o Manchester United. Ao marechal Ferguson ontem faltaram-lhe todos os generais. Os mais veteranos esconderam-se atrás dos batalhões. Gary Neville cometeu uma falta de juvenil e abriu caminho a um fortuito empate, cortesia de Rooney. O médio Paul Scholes, que nem jogou essa mitica final, nunca se encontrou no relvado. Há anos, muito provavelemnte, que o 18 falhava tantos passes numa só noite. Destruiu o jogo de construção do United. Carrick e Fletcher, mais preocupados em destruir e perder tempo, também não ajudaram. E o jogo estancou aí. Nem Nani, demasiado verde, nem Park, pendente de recuar para formar o tampão, souberam estar à altura. E o gigante Rooney abriu as hostilidades com um golpe oportuno de cabeça para depois desaparecer. Por duas vezes teve o golo. Por duas vezes falhou. E no final saiu com dores no pé, colocando em risco tudo. A Champions, a Premier e até o Mundial. Noite negra.
Mas se houve ontem futebol ele saiu do conjunto bávaro. Ribery foi atrevido e van Bommell activo. Foram dando forma ao ataque alemão que Klose e Olic teimavam em não aproveitar. Com Robben e Schweinsteiger na bancada os adeptos desesperavam por mais contundência. O golo do United, madrugador como poucos, doía bastante. Até que o francês remata num inocente livre contra a barreira e o destino faz-lhe um favor. Tudo igual outra vez. E justiça no tapete verde. Ao contrário do que seria de esperar, o balneário fez muito mal ao Man Utd. A equipa voltou ainda mais conservadora e defensiva, se cabe. E o Bayern atacou com tudo. Com a entrada de Gomez o massacre tomou outras proporções e a defesa inglesa era incapaz de estancar a hemorragia. O Bayern jogava já num 4-1-3-1 declaradamente ofensivo pensando apenas na vitória. Ferguson tentou ludibriar van Gaal lançando Valencia e Berbatov, dois homens de ataque. Mas que se limitaram a refrescar o tampão. Nunca o United voltou a mostrar querer vencer. O empate era cómodo para a segunda mão. Assim pensavam os germânicos há 11 anos atrás. E o destino enganou-os. Desta feito o árbitro deu 2, não 3 minutos de desconto. A bola pelo corredor direito do Bayern, um erro garrafal de Patrice Evra, uma desatenção do veterano Ferdinand. Um golo de raiva contida nas entranhas.

Confirmada a malapata do United frente ao Bayern, a vitória dos alemães deixa antever uma noite inesquecível para Old Trafford. No seu castelo Ferguson é rei na Europa mas o reforçado conjunto alemão tem mais armas das que as necessárias para marcar e anular a desvantagem do golo fora. Isso obriga o United a abdicar por uma vez do seu cinismo europeu e atacar. Com todas as forças. Sem Wayne Rooney a equipa dependerá, mais do que nunca, do militarismo eficaz da segunda linha. Terá de marcar. Terá de lutar pela vitória. E não esquecer que os deuses da fortuna são traiçoeiros.

