Há meses escrevi neste espaço que em Portugal não se gosta de futebol. Fui criticado por todos os lados. Sem razão. O país não muda e continua a bailar ao mesmo ritmo. Numa semana europeia, repleta de desafios que prometem encontrar espaço para entrar na história, o futebol português pára para uma guerra de audiências televisivas bem longe dos relvados. Pode chegar-se mais longe. Mas não mais fundo.

Os estádios vazios em Portugal são já uma triste realidade que nem as cadeirinhas a cores conseguem escamotear. A Liga Sagres é uma chacota fora de portas em qualquer publicação desportiva de renome, já habituada a tratar Portugal por debaixo de provas do nível da Liga Jupiter Belga, da Liga Suiça ou da Liga Escocesa. Potentados do futebol, portanto. Mas se futebolisticamente esta década foi confirmando o naufrágio do nosso futebol, mediaticamente o cenário não podia ser mais lamentável. Campeões a agonizar por dividas em divisões secundárias, históricos forçados a fechar as portas, estádios com uma centena de pessoas e a formação, outrora o nosso simbolo no Mundo, deixada ao abandono. E tudo isso não merece nem uma reflexão. Mas pegue-se num túnel escuro, numa liga voltada do avesso e decidida nos escritórios da Liga de Futebol, e temos um espectáculo como ninguém é capaz de oferecer.
O futebol português é latino e mediterrânico na sua natureza. Ou seja, um futebol tremendamente impaciente, com um universo mediático que gira à volta do jogo e onde a figura tutelar do presidente absorve tudo à sua volta. Salvo raras excepções o adepto lembra-se mais depressa do presidente campeão do que do técnico. E assim nascem os falsos mitos do nosso futebol. Para o bem e para o mal. Mas mesmo em Espanha e Itália, onde o presidente continua a ser o santo e senha do jogo, seria impensável ver o que se produziu ontem. Dois presidentes, dos clubes com maior massa adepta, frente a frente à distância. E à mesma hora. Num horário onde em Munique se vivia um vibrante choque com sabor a desforra para os adeptos do Bayern. Onde no Gerland o Lyon parecia acabar com a malapata dos Quartos. Tudo isso pura insignificância. O futebol vivia-se nos estúdios da RTP e SIC. No duelo dialéctico entre Pinto da Costa e Luis Filipe Vieira. Na troca de ataques, insultos e desculpas de mau pagador de uns e outros. Com o bónus do tempo regulamentar na figura sinistra de um jurista de pouca lei para a sobremesa. E durante ambas as entrevistas o futebol foi algo que passou ao lado. Falou-se de arbitragem. Falou-se de relações pessoais. De apitos de várias cores. Mas não se falou de jogadores. De tácticas. De lances. De movimentações de jogo e de noites épicas. Em Portugal não se fala nunca do beautiful game. As tertúlias, as entrevistas, os colóquios, as análises falam de tudo, menos do que tem a ver com o jogo. Ontem, uma vez mais, o futebol nacional mostrou o seu rosto habitual neste clássico sem valores. Um verdadeiro derby à portuguesa. E sem futebol está claro!

Os benfiquistas elogiarão o novo sentido de estado de um presidente que mais se assemelha a uma figura carcelária. Os portistas focarão a resistência e rebeldia do decano do futebol europeu. Os neutros, se é que os há, falarão de tudo o resto. E a bola? E o relvado? E as redes? Ao português isso não interessa. À imprensa porque não vende, aos presidentes porque destapa os seus erros de gestão. Aos adeptos porque, pura e simplesmente, não gostam de futebol. Se houvesse uma genuína paixão pelo jogo, talvez a audiência de ambas as entrevistas tivesse sido minimo, pelo menos enquanto que a bola europeia rolava noutros campos. Mas não. Portugal continua a ter o jogo que merece. Um futebol descrediblizado, amargado pela justiça (ou falta dela) e sem perspectiva de futuro. Um futebol de caciques para uma sociedade de cordeiros. Todos a caminho do matadouro.

