Os adeptos não tiveram dúvidas e elegeram-no o melhor da sua história. E agora terbo de sofrer e vê-lo do outro lado. Um sofrimento mutuo. Thierry Henry ainda está apaixonado pelo Arsenal. Ponderou nem jogar esta eliminatória. Acabará por subir hoje ao relvado de um estádio que ajudou a pagar. Mas, mais do que alguém alguma vez esteve, o seu coração estará partido. Já não existe o amor eterno!

Há três semanas viu-se o rosto de Beckham ao voltar a Old Trafford. E o aplauso senhorial do público. Para hoje espera-se uma reacção ainda mais apoteótica para o homem que definiu o que é o Arsenal do novo milénio. Só que ao contrário de Becks, a verdade é que Henry nunca se foi. O jogador que recusou em 2006 uma oferta milionária do Barça apenas porque era incapaz de deixar os adeptos gunners precisamente após estes perderem a final da Champions frente aos blaugrana, estará de regresso. Mas magoado consigo mesmo. E com o cruel destino.
Se do lado do Arsenal a sua actual figura é um catalão de Arenys de Mar, formado na Masia, e que todos os anos sonha em voltar ao Camp Nou, é curioso que do lado do Barcelona esteja a estrela número 1 da constelação gunner. De todos os tempos. Oito anos (1999-2007) bastaram para os adeptos do clube londrino o elegerem como o melhor de sempre. À frente de qualquer elemento da equipa de Chapman, do irlandês Liam Brady, do férreo Tony Adams, dos goleadores Wright ou Bergkamp. O francês suplantou-os a todos. Naturalmente. Nunca os gunners jogaram tão bem. Nunca foram tão letais do que com o número 14. Em oito anos a equipa venceu duas vezes a Premier, foi a uma final da Champions e outra da UEFA. Venceu 3 FA Cups. E sobreviveu às constantes sangrias que, Verão após Verão, fustigava Londres. No meio de tudo isso Henry era o elo. Agora estará a sofrer, com a camisola do rival. Guardiola jogará com ele porque não conta com Iniesta. Mas a cabeça do francês, profissional como poucos, estará mais do que dividida. Em Barcelona encontrou os titulos europeus que o Arsenal não lhe podia dar. Esperou 10 anos pela sua Champions. O Arsenal ainda não ganhou a sua. Mas o seu coração ficou em Londres. Com a sua magia.

Foi no Verão de 1999.
O Arsenal tinha vendido o espectacular Nicolas Anelka ao Real Madrid por números inimagináveis. Começava a funcionar a politica de captação de jovens talentos posta em prática anos antes por Arsene Wenger. O técnico que em 1998 tinha devolvido os titulos ao clube gunner já tinha substituto. Foi a Turim resgatar um apagado Henry, um dos seus discipulos dos dias do AS Monaco. Em Itália o avançado, campeão do Mundo em 1998, tinha estagnado. Em Londres explodiu. Ao lado de Suker e Bergkamp tornou-se na chave do jogo do Arsenal. Venceu por três vezes o prémio de Melhor Marcador e Jogador da Premier. Marcou golos de antologia. Celebrou duas ligas, uma das quais, a dos Invencibles, consagrou-o como um dos melhores de sempre na história da competição. O Arsenal tornou-se o clube de Henry e mais 10. Os veteranos foram saindo, os mais novos iam chegando e partindo. Henry estava sempre aí. Parecia uma história de amor à antiga. Até que chegou Paris, 2006. O Arsenal perseguia a sua primeira Champions. O Barcelona a segunda. Dois clubes de futebol de ataque, ofensivo, mas sem grande palmarés europeu. Henry não marcou, o Barça ganhou. Aí o francês percebeu que a taça que todos queriam teria de ser ganha noutro sitio. Teve uma oferta milionária de Joan Laporta. Recusou. Conquistou o coração dos adeptos com a frase "Os fãs já perderam a Champions para o Barcelona, não merecem que eu também me vá." Ficou, um ano mais. Não ganhou nada. No final da época Laporta voltou à carga. Wenger não se opôs. O sonho era mais forte que a realidade. Henry partiu. Em Can Barça perdeu a magia do tempo. Aos 33 anos já não era a mesma gazela que cavalgava em Highbury. O posicionamento táctico, a relação com Ronaldinho. Tudo atrapalhou. Saiu o brasileiro e chegou Guardiola, admirador e amigo. Manteve-o num posto que não queria, mas deu-lhe liberdade. Henry foi o menos determinante do trio da frente. Mas conseguiu o que queria. Em Roma. Com a camisola maldita para os gunners.

Talvez Henry quisesse hoje estar do outro lado. É um atleta acabado em Barcelona, mais pela relação com a imprensa e a futura direcção - de um critico seu como é Sandro Rossell - do que com o técnico. Fala-se no seu sonho de ir para os Estados Unidos, conhecido que é o seu fascinio pela cultura yankee. Mas ao ver a casa que ele também ajudou a financiar com os seus golos, a nostalgia certamente entrará pelas entranhas. Beckham saiu de Old Trafford mas nunca manifestou o desejo em voltar. Henry sempre acalentou um regresso de filho pródigo. Volta, sim, mas como um guerreiro rival numa luta de vida ou morte. O amor pode ser mortal. Resta saber para quem.

