Podem escrever-se tratados e livros da mais pura e cientifica investigação. No entanto, nunca o futebol será tão facilmente explicado aos descrentes se for seguido exibido o pequeno compêndio de três minutos de desconto que decidiram a final da Champions League de 1999. Onze anos depois os guerreiros de Munique voltam a defrontar-se à sua besta negra. Numa cidade dramática para os Red Devils.

A conjunção Bayern Munchen e Manchester United é histórica e faz parte das lendas do futebol europeu.
Porque foi na capital da Baviera que a melhor geração do conjunto inglês conheceu o seu trágico fim. Porque foi precisamente contra os alemães que, 41 anos depois e sob o olhar emocionado de Bobby Charlton, que começou o reinado europeu de Alex Ferguson. E porque, exceptuando essa noite mitica, os alemães sempre bateram o conjunto inglês. São ses a mais numa conjuntura imprevísvel, num jogo onde se defrontam duas filosofias bem distintas que pautam o ritmo de dois gigantes que, juntos, ostentam sete trofeus da máxima prova europeia. Por um lado os temiveis ingleses, à procura de emular um feito que ninguém consegue lograr desde os dias da Juventus de Marcello Lippi. Do outro os furiosos alemães, com o metódico van Gaal a tentar dissimular as falhas ainda visiveis nas suas hostes. Um conjunto fortemente ofensivo que acenta num 4-2-2-2 que realmente se transforma, com a bola nos pés, num 4-2-4. Com Ribery confirmado e Robben em dúvida, o Bayern vai tentar aproveitar o jogo pelos flancos utilizando os espaços deixados por Patrice Evra e Gary Neville. No meio Gomez e Muller farão a dupla ofensiva com van Bommell a pautar o jogo no miolo. O Bayern sabe que deve ter cuidado em não sofrer golos, mas a verdade é que a defesa é o calcanhar de Aquiles de qualquer equipa de van Gaal. E com este Bayern o cenário repete-se. Especialmente se em frente está um recuperado Wayne Rooney, que descansou nos últimos jogos da Premier para dar a estocada à defesa alemã. O United volta a apresentar o seu estilo de jogo europeu, mais cinico, acente num 4-5-1 de rápidos contra-ataques com Rooney como ponta-de-lança. O espectáculo está garantido. Mas dificilmente será tão emocionante como naquela quente noite de Maio.

O jogo foi dominado pelo Bayern Munchen.
A equipa treinada por Ottmar Hitzfield tinha empatado os dois jogos com o United na fase de grupos. Depois tinha galopado de forma convincente até à final. Nas meias-finais tinham batido o ousado Dynamo Kiev. Naquela noite em Barcelona pareciam invenciveis. Basler abriu o marcador com um livre estudado. Schmeichel, o gigante dinamarquês, protestou em vão. Depois disso foi um autêntico massacre. Bolas na barra, remates defendidos in extremis. E a bola teimava em não entrar. Os adeptos alemães, no entanto, já faziam a festa à medida que os minutos transcorriam no marcador. Ferguson desesperado trocava de avançados. O seu olhar dizia que a crença era infima. E o próprio Hitzfield já não imaginava outro cenário. Tirou Lothar Matthaus, o gigante a quem só a Champions lhe escapava. Saiu tranquilamente, aplaudindo os adeptos e sentou-se, preparado para celebrar. Uma bola para canto despertou o alarme. A eficácia do United em bolas paradas era conhecida por todos. Mas durante o jogo tinham sido ineficazes até aí. Beckham correu para a linha de fundo. Schmeichel veio a correr da sua área. Era a última esperança. O árbitro olhou para o assistente, levantou 3 dedos. Estavamos no minuto 90. O ar escasseava nos pulmões ingleses. A bola voa para a área, Schmeichel atrapalha as marcações alemãs que não conseguem afastar a bola. Giggs recebe-a e remate, sem olhar. A bola vai para fora, desesperada. Encontra o pé do pequeno Teddy Sheringham. Um beijo subtil desvia-a perante o olhar aterrado de outro gigante, Oliver Kahn. Segundos depois os adeptos ingleses explodem de euforia. O jogo ia para prolongamento. Mathaus tapava a cara, Ferguson saltava. O árbitro dava o pontapé de saída e os alemães perdiam, infantilmente, a bola. Contra-ataque e desvio inocente para novo canto. Beckham corre entusiasmado. Acredita. Centra, tenso. Sheringham volta a beijar a bola. Foi amor à primeira vista. Um toque súbtil com destino incerto. O pé de um bebé treinado para matar. O norueguês Solksjaer desvia o cabeceamento. Kuffor grita de dor. A reviravolta é completa. O futebol explica porque é único.

Onze anos é muito tempo. Depois dessa noite o Bayern Munchen voltou ao seu historial de imbatilidade. Já se vingou mais de uma vez do Man Utd. Mas aquela dor é permanente. O velho Olympiastadion deu lugar a uma majestosa Arena. O sério Hittzfield já não está. Já nem Kahn se encontra no relvado. Outra geração, de um lado e de outro. Neville, Giggs e Fergie sim. Eles lembram-se. E partilham a mesma ambição. A final, curiosamente, é de novo em Espanha. Mas só um pode chegar ao último dia. Ferguson sabe que a eliminatória dura 180 minutos e hoje será paciente. Os alemães aprenderam que afinal Liniker estava errado. Nem sempre ganham os alemães.

