Sábado, 27 de Março de 2010

Se houve um homem que marcou a primeira metade do século XX nos bancos foi o inglês Herbert Chapman. Desde os anos 20 que o técnico começou a questionar o estilo de jogo demasiado ofensivo praticado nas ilhas britânicas e copiado pelo resto do Mundo. O nascimento da regra de fora-de-jogo deu-lhe o pretexto que precisava e permitiu fazer do Arsenal a grande equipa dos anos 30. Mas antes da sua revolução a verdade é que as suas teorias já tinham sido testadas. Em Huddersfield.

 

Hoje todos sabem o que é o WM.

Foi a maior revolução táctica dos primeiros 50 anos do século XX. Manteve-se até aos anos 50 em muitos países como o principal sistema táctico. Caiu em desuso com a popularidade do 4-2-4 hungaro e brasileiro (que depois passariam ao formato 4-4-2 e 4-3-3 a partir dos anos 60). E resultou obra de uma mente privilegiada que resultou como peça chave na evolução táctica do jogo. Herbert Chapman morreu no zénite da sua carreira e não teve tempo para ver a real consequência da sua inovação. Quando, em 1934, caiu fulminado após uma pneumonia, o seu Arsenal era a melhor equipa britânica. E provavelmente do Mundo. Faltavam 20 anos para que nascesse a Taça dos Campeões Europeus mas se a prova tivesse sido realizada nessa década seria provavél que o clube londrino tivesse aplicado o mesmo monopólio que o Real Madrid. A aplicação do WM era a chave do sucesso gunner. Isso e a insistência de Chapman em rodear-se dos melhores. O técnico tardou alguns anos em fazer do seu modelo vencedor. Mas quando deu na tecla certa a equipa nunca mais o desiludiu. Contratou os melhores, montou uma geração de talentos únicos como Highbury Park não voltaria a conhecer. E dominou a First Division anos a fio. Para a história ficou o seu papel como treinador do Arsenal. Mas a vida de Chapman deu muitas voltas. E o seu mágico WM não começou na cinzenta Londres. Foi antes no verdejante Yorkshire, numa pequena localidade chamada Huddersfield. 10 anos antes.

 

No mitico Wembley poucos perceberam que estavam a assistir a um marco da história. Naquela tarde onde uma chuva miudinha ia irritando a cabeça dos adeptos, Chapman percebeu que tinha encontrado a fórmula ideal para equilibrar o jogo. O futebol mantinha-se sob a velha base do 2-3-5, com as equipas viradas constantemente para o ataque sem nenhuma organização na defesa e meio campo. Os extremos jogavam bem abertos, com mais três jogadores no centro, no qual um descaía para recuperar bolas. Os três médios jogavam como interiores e os dois centrais limitavam-se a colocar-se diante da grande área. Não existia ainda o fora de jogo pelo que o seu trabalho era, muitas vezes, simplesmente inútil. Chapman não gostava do modelo. Dizia que a equipa perdia muito tempo jogando sem sentido e que isso implicava uma reduzida eficácia. Para ele vencer significava marcar mas também não sofrer. Foi o primeiro técnico que manifestou essa consciência defensiva que iria marcar o jogo daí em diante. Nesse modesto Huddersfield, Chapman começou a desenvolver a sua teoria. O técnico tinha chegado até à pequena localidade depois de ter sido banido, junto com toda a equipa do Leeds, pela FA. Foi um negócio de risco para o clube mas também para ele. A união funcionou. Chapman entrou ao serviço em 1921. Nos três anos seguintes tornou a equipa na primeira da história a vencer três ligas de forma consecutiva, algo que só Liverpool e Manchester United lograram no futuro. A isso juntou uma vitória na final da FA Cup. Foi precisamente nesse jogo contra o histórico Preston North End, que o técnico colocou a sua inovação em prática. Chapman fez recuar um médio para a zona defensiva, colocando-o no eixo da defesa. Os outros dois centrais deslocam-se para as linhas laterais. Da mesma forma, dois dos jogadores do centro da linha ofensiva recuavam no terreno para assumir o papel de interiores ofensivos jogando à frente dos dois médios mais recuados. O desenho táctico podia descrever-se como duas letras bem desenhadas no rectangulo de jogo: um W e um M. Nascia a táctica mais revolucionária do jogo.

 

Nesses anos em Huddersfield muitas vezes Chapman teve de jogar com um 2-3-5 adaptado. A falta de uma regra de fora de jogo dificultava a sua inovação porque dava muitas liberdades aos avançados e extremos. Em 1925 a FIFA (e a FA) aplicaram de forma definitiva a regra que iria revolucionar o jogo. A partir daí a defesa de três podia jogar na mesma linha e apanhar o trio de avançados rivais na ratoeira. O modelo funcionou. O clube tornou-se no perfeito laboratório para que o técnico ensaiasse as suas inovações. Chapman tinha um desprezo supremo pelo jogo com extremos que se limitavam a centrar para a área. Obrigou os seus quatro elementos do quadrado de meio campo a trocar a bola em passes rápidos de apoio continuado. Os dois extremos abriam e fechavam conforme a equipa defendia e contra-atacava. Muitas vezes a sua função limitava-se a arrastar consigo os defesas rivais abrindo a porta aos avançados interiores. A eficácia defensiva permitia à equipa organizar rápidos contra-ataques. Em 1925 o Huddersfield tornou-se na primeira equipa da história a não sofrer mais de 2 golos por jogo em médio na First Division. Para a época era um feito. O técnico sempre dizia que a melhor oportunidade para marcar resulta sempre de um contra-ataque porque apanha o rival desprevenido.

Por essa altura o bicampeão tinha continuado sem o seu técnico. Chapman não resistiu aos encantos de Londres e mudou-se para o modesto Highbury Park. O Huddesfield manteve o rumo e voltou a ser campeão enquanto Chapman começava do zero com o Arsenal. Além da inovação táctica, Chapman foi o primeiro Manager profissional. Obrigava as equipas de reservas e juvenis a jogar com a mesma táctica que a formação principal. Supervisionava o treino de jogadores que, apesar de falsos amadores, eram já tratados como profissionais pelo seu staff técnico. Insistiu no jogo de passe, aperfeiçoou o trabalho dos avançados interiores e montou uma equipa perfeita baseada em contratações cirurgicas entre jogadores desconhecidos e estrelas de clubes rivais. Demorou quatro anos a vencer uma liga. Quando o Arsenal finalmente se sagrou campeão, em 1931, o seu modelo de jogo já estava consagrado na maioria dos clubes rivais. Mas nenhum o tinha aperfeiçoado como ele.

 

Durante 4 anos o Arsenal mandou no futebol inglês. À medida que o Huddersfield ia definhando, as estrelas que Herbert Chapman reuniu em Highbury iam fazendo história. Em quatro anos vencerem três ligas. No final da última época a morte de Chapman representou um duro golpe. Progressivamente o Arsenal foi perdendo impacto na prova e as restantes equipas começavam a jogar nos mesmos moldes que o técnico tinha idealizado. Mais, por essa altura, já quase toda a Europa alinhava equipas tendo por base o WM chapmaniano. Foi a revolução que pautou as grandes equipas europeias até que os mágicos hungaros destroçaram o quadrado inglês em Wembley e colocaram um ponto final à popularidade do WM. O mesmo sistema que nasceu nas verdejantes planicies de Huddersfield.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 00:02 | link do post

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