O mundo de hoje cai rapidamente no facilismo. O mundo do futebol não é diferente. A chicotada psicológica dificilmente o chega a ser e não deixa de espelhar essa opção mais simples de eliminar o alvo de todos sem procurar entender a raiz do problema. No caso do Sevilla, o problema nem existe. Apenas uma incrível falta de coerência por parte de um clube que se orgulhava de ser, até agora, o mais estável da última década em Espanha.

No final de um patético empate com o Xerez, fruto puro da distração da equipa, Jose Maria del Nido - que gosta de dizer que é o presidente do maior clube do Mundo - baixou ao balneário, encarou Manolo Jimenez e informou-o que estava despedido. O contestado técnico não queria acreditar. A equipa tinha caído na semana anterior nos Oitavos de Final da Champions League. Depois de empatar a 1 em Moscovo perdeu por 1-2 contra o CSKA no seu próprio estádio. Por culpa de um golo concedido pelo experiente Palop. A equipa seguia a dois pontos do quarto posto, o último que garante a presença na Champions, e estava a cinco do terceiro lugar, o objectivo previsto para a época. A dez jogos do fim.
Mesmo assim Del Nido optou pelo caminho mais fácil e despediu um técnico que sempre foi mais do que isso. Chegou com 17 anos ao Sevilla e aí passou toda a vida. Até aos 35 como jogador da primeira equipa e depois como treinador das camadas jovens até subir à equipa B, o Sevilla Atlético. Quando Juande Ramos, o técnico mais bem sucedido da história do clube, bateu com a porta, del Nido recorreu a ele. Uma herança dificil mas que, como andaluz de cepa, Jimenez soube pegar pelos cornos.
Sem o mediatismo de Josep Guardiola, o técnico sevillista era um exemplo perfeito de um técnico precoce e ambicioso que encontrava o espaço no seu clube. Mas em Sevilla alguém se esqueceu das limitações do clube. E começou a exigir ao técnico resultados nunca antes logrados. Nem mesmo pelo vencedor de duas Taças UEFA. O estilo de jogo atractivo de Ramos era constantemente comparado com a eficácia de Jimenez, que preferia um meio-campo de musculo a uma equipa assumidamente criativa. E os adeptos, embriagados pelos exitos pretéritos, começaram a contestar o treinador dia sim, dia sim. Até o presidente, que alardava da estabilidade do Sevilla face a qualquer outro clube espanhol, deixou-se levar. E optou pelo caminho mais fácil.
Poucos lembram-se de que no inicio da década o Sevilla andava pela Segunda Divisão com um passivo asfixiante. Depois de uma direcção de gestão de Roberto Alés que limpou as contas do clube emergiu a figura de Jose Maria del Nido. O polémico advogado tornou-se na figura central do clube de Nervion e emergiu como o lider natural de um conjunto histórico renovado. Com Joaquin Caparrós moldou uma equipa para voltar à ribalta e disputar os postos europeus. O técnico, hoje no Athletic Bilbao, montou uma equipa dura mas tremendamente eficaz onde brilhavam, entre outros, Manolo Jimenez. Quando este se retirou foi-lhe oferecido um posto de treinador nos juvenis. Aí começou a sua saga particular enquanto que Juande Ramos, sucessor de Caparros, colhia os frutos do trabalho deste e de Monchi, o popular director desportivo. A sua labor permitiu ao clube recrutar várias promessas, dentro e fora de Espanha, e moldar uma equipa rejuvenescida e com sede de titulos. A Sevilla chegaram Luis Fabiano, ferido por uma experiência para esquecer no FC Porto, o argentino Javier Saviola, o francês Frederic Kanoute, o espanhol Andrés Palop, dispensado do Valencia e os brasileiros Julio Baptista e Dani Alves. A estes juntou-se uma nova fornada de talentos jovens como Sergio Ramos, Antonio Puerta e Jesus Navas. Em três anos o Sevilla voltou à Europa, venceu duas Taças UEFA e conquistou uma Copa del Rey. Depois de um polémico Verão o técnico foi embora. Amargado com a direcção. Com a época em curso e sem um nome forte para o lugar Del Nido arriscou. Chamou Jimenez. O sevillista aceitou.

A chegada de Jimenez não significou uma mudança de estilo. Pelo contrário, Jimenez aperfeiçoou o modelo de Ramos e explorou ainda mais o jogo pelos flanco utilizando os jovens Navas e Capel. A pouco e pouco foi introduzindo outras promessas que já tinha orientado na equipa B. Os argentinos Fazio e Perroti entraram no onze. A morte de Puerta abriu uma brecha sentimental que feriu a equipa. Teve de ser Jimenez a tapar os remendos. Contra todas as expectativas o treinador recuperou um conjunto destroçado. As sucessivas vendas de Ramos, Baptista, Alves e Keita fragilizaram o onze andaluz. Os reforços não eram do mesmo nível. Mas mesmo em esforço, e com muita juventude à mistura, Jimenez logrou colocar a equipa na luta pelos primeiros lugares. Na Europa, naquela que era a primeira participação na Champions, logrou bater o Arsenal quebrando um recorde de 18 jogos dos gunners sem perder. Qualificou-se como primeiro de grupo mas nos Oitavos de Final caiu diante dos turcos do Fenerbache nas marcações de grandes penalidades. Uma fatalidade que se repetira dois anos depois. Jimenez falhou no final da época 2007/2008 o quarto posto, de acesso à Champions, o grande objectivo da equipa por um ponto. Mas montou um conjunto sólido. E no ano seguinte demonstrou-o terminando no terceiro lugar, o melhor lugar logrado nos últimos 50 anos pelo clube. Esta época, com Negredo a juntar-se ao duo de ataque, a equipa arrancou bem e logrou eliminar o Barça da Taça do Rei, depois de se qualificar para os Oitavos da Champions pela segunda vez. No meio de um clima de crispação interna, um mês de Janeiro surpreendente atirou o clube do terceiro para o quinto posto. A queda frente ao CSKA, de novo no Sanchez Pizjuan, de novo de forma fortuita, cobrou a sua vitima. Del Nido esperou um pretexto. Teve-o no golo nos últimos segundos do Xerez, o último. Demitiu o técnico que manteve o clube na alta roda. Contra tudo e contra todos. Seguiu o mais fácil.

Jimenez deixou a equipa a lutar pelo objectivo de época e na final da Copa del Rey. A isso juntou uma boa prestação europeia e um imenso carinho no balneário. Mas não resistiu a uma ambição desmedida. Numa época em que Barcelona e Real Madrid batem recordes jornada após jornada, qualquer êxito parece demasiado insignificante. Assim foi o seu destino. Suceder-lhe-á um dos seus adjuntos, que tem a dificil missão de manter o rumo. Longe do relvado, no lugar cativo que sempre manteve em Nervion, Jimenez promete torcer, de cachecol, como um adepto mais. Era mais fácil devolve-lo ao meio dos adeptos. O dificil é entender porquê.

