Em Portugal o trabalho de Lazlo Boloni foi muito para lá da conquista do último título conquistado pelo Sporting. Preparou uma nova geração de talentos que foram posteriormente lançados pelos seus sucessores. Na Bélgica o romeno repetiu o feito. Resgatou da mediania um histórico como o Standart de Liege e explorou ao máximo a sua cantera. Entre as estrelas que foi lançando para a arena está o promissor Medhi Carcela.

Ao viajar ao mundo dos jovens talentos belgas o fácil seria ficar pelas duas grandes estrelas com idade ainda de júnior do actual campeão belga. Alex Witsel e Stefen Defour foram, efectivamente, peças-chave no estilo de jogo ofensivo instalado por Boloni no clube de Liege. E determinantes na reconquista de um título que escapava há demasiados anos. Mas este ano Defour esteve quase sempre lesionado e uma entrada violentíssima de Witsel valeu-lhe uma larga suspensão. Sem o seu fiel de balança, e com a concentração quase exclusivamente colocada na Champions League, a época do clube de Liege foi de mais a menos. De tal forma que Boloni acabou por pagar na pele o péssimo lugar na Júpiter Pro League. O técnico que encetou a revolução do clube e que lançou algumas das mais excitantes promessas do futebol europeu pagou cara a falta de resultados. Mas, tal como sucedeu em Alvalade (onde fez estrear, entre outros, Cristiano Ronaldo) a semente do seu trabalho ficou. Para além de Kevin Miralles (agora a jogar em França) e dos já citados Witsel e Defour, fica na retina o notável médio de origem hispano-marroquina. Carcela é o verdadeiro produto do “melting pot” em que se está a converter a Bélgica. Filho de pai espanhol e mãe marroquina, o jovem deu, num espaço de meses, o salto entre a equipa júnior do Standard até à selecção principal dos Diabos Vermelhos.
Carcela é um médio extremamente ofensivo. Jogando pelo eixo ou descaindo ligeiramente para o flanco esquerdo, utiliza a velocidade e o remate como principais armas. Joga habitualmente atrás de um ponta-de-lança mais fixo – Mbokani – e com a dupla Defour-Witsel nas suas costas. Na selecção compete directamente com outra das mais requisitadas promessas do futebol europeu, o jogador do Lille, Éden Hazard. Esquerdino, flecte habitualmente em diagonais perigosíssimas como pode perceber a defesa hábil do Arsenal no épico encontro entre ambos os colectivos na fase de grupos da Champions League. Por essa altura já Boloni tinha confirmado o médio de apenas 20 anos como titular indiscutível, chamando à atenção do novo seleccionador belga, o holandês Dick Advocaat. Semanas depois foi a vez de este dar a oportunidade a Carcela estrear-se pela selecção principal sem nunca ter passado pelas equipas de formação.

Até agora o médio apontou já seis golos na prova principal do futebol belga e dois mais na taça local. Na Champions League fez parte do onze base do conjunto belga mas foi na passada edição da Supertaça, com dois golos certeiros, que começou a coleccionar galões junto dos adeptos.
O seu futuro, aliado ao dos seus inseparáveis colegas de formação, está inevitavelmente longe de Liege. Os grandes da Europa têm o trio debaixo de olho e a ausência das provas europeias que ameaça o Liege poderá obrigar o clube a vender as suas pérolas. Mais importante ainda, o trabalho revolucionário de Advocaat à frente da selecção belga poderá reservar-lhe um papel importante no ressurgimento desportivo de uma das grandes potências futebolísticas do Velho Continente há muito adormecidas.