Domingo, 26 de Abril de 2009
Vinte anos depois da queda do muro de Berlim, a nostalgia torna-se irresistível. O Bloco de Leste, liderado a telecomando por Moscovo, marcou a politica do século XX mas também deixou bem vincada a sua presença no universo desportivo. E o futebol não foi excepção. A obsessão pelo colectivo, o trabalho minucioso e científico criaram autenticas máquinas, capazes de fazer a diferença a qualquer instante, mas sempre preferiram valorizar o poderio do grupo. E talvez por isso, ainda hoje, resulta complicado a muitos descubrir dentro dessas equipas históricas algum que outro nome próprio.
Se a Europa de Leste já tinha mostrado o primeiro perfume de bom futebol que se praticou no continente (a Áustria de Hugo Meisl, a Checoslováquia do pré-guerra, a Hungria mágica de 54, ainda a viver essa ilusão primaveril), a chegada do bloco de Leste alterou para sempre a fisionomia das suas equipas. Nasceu uma Checoslováquia seca, campeã da Europa em 1986 e da qual só nos lembramos de um nome (esse mesmo) por um simples gesto de rebeldia individual no instante decisivo. A RDA e Roménia vivam do físico e do golpe, a Polónia da velocidade dos seus sprinters (Lato e mais tarde o letal Boniek), enquanto que a Hungria se tornou num fantasma de si mesma. Só a Jugoslávia, não-alinhada, até no desporto, conseguiu a alcunha de “Brasil do Leste”, pela sua eterna irreverência, mas que nunca os levou muito longe na hora da verdade. O centro deste método era, sem dúvida, a selecção soviética. Campeã europeia em 1960, finalista vencida em mais duas edições, a selecção soviética passou a segunda metade do século XX a ser considerada como potência mundial. Mas salvo os seus geniais guarda-redes (primeiro Yashin e logo depois Dassaev e Chanov, a sua sombra) e o irreverente Oleg Blokhin, de poucos nomes individuais reza a história dessas equipas desenhadas com regra e esquadro.

Igor Belanov talvez não fosse o mais virtuoso futebolista que nos deu a URSS.
Nem o mais hábil tecnicamente, nem o mais letal dos avançados. Mas esse pequeno jogador de quem muitos hoje já nem se recordam, é para mim, o espelho dessa mentalidade soviética que impunha respeito, até para os mais temíveis oponentes. Belanov não era o líder da geração de 80, criada no laboratório de Kiev por Valery Lobanovsky e transportada para a equipa nacional que conseguiu o seu ponto mais alto na final perdida do Euro 88. Era uma geração unida, sem líderes, mas capaz de praticar um futebol fascinante. O pequeno avançado, que habitualmente descaía para as alas, em apoio da dupla de avançados soltos – Oleg Protassov e Valery Zavarov – nem tinha a habitual compleição física do desportista da “europa comunista”. Mas a sua velocidade, o seu sentido de oportunidade e, como não, o seu espírito de sacrifício, fizeram dele peça nuclear para que o Dynamo de Kiev vencesse oito campeonatos soviéticos, a Taça das Taças de 1986 e que só fosse interrompido pelo majestoso FC Porto na caminhada da Taça dos Campeões Europeus do ano seguinte.
1986 foi, aliás, o seu ano.
A selecção soviética até tinha sido eliminada nos oitavos de final pela Bélgica no Mundial do México (esse louco 4-3 com o hat-trick de...Belanov) mas o jogador acabou por receber o Ballon D´Or, numa época em que o prémio só era atribuido a jogadores europeus...e por isso, e só por isso, não foi para um tal de Maradona.
Um curioso prémio individual para um dos apologistas máximos do colectivo. Com o fim do Bloco de Leste, a escola de Kiev desmoronou-se e Belanov acabou por passar, sem pena nem glória, pela Borussia Monchenlagdbach. A sua era o seu mundo tinham acabado, mas não sem antes termos tido a oportunidade de o ver correr quilómetros, nesse estilo desengonçado, tão distinto dos virtuosos Blokhin ou Mikailitchenko, mas tão exemplar de uma forma de pensar o jogo que ficou parada no tempo...
