Terça-feira, 23 de Março de 2010

É preciso vender jornais. E abrir noticiários. E mesmo com a época a entrar na sua etapa mais fascinante, é sempre preciso descobrir algo novo. Que faça com que as pessoas falem. E queiram mais. A campanha mundial orquestrada para coroar Lionel Messi como o “Melhor Jogador da História” é uma dessas tristes falácias onde tanta vez entre o jogo. Brincar às adivinhas e procurar respostas quando nem há perguntas sólidas. É só o que fica desta brincadeira.

Imaginemos todas as vezes que já dissemos “este é o melhor”. Seja onde for. O melhor amigo, o melhor cozinheiro, o melhor colega, o melhor piloto, o melhor grupo, o melhor jogador. Agora, num desses exercícios que não exigem muito, pensemos quantas vezes esse “melhor” se aguentou toda a vida. Não mudamos já tantos de melhor amigos? Não deixamos de gostar daquele chef por um grão a mais de sal que deitou no nosso prato predilecto. E não deixamos de vibrar facilmente com o nosso ídolo de jovens quando encontramos outro gigante dos relvados? Sim, efectivamente a vida é assim. Em constante mutação. Chamam-lhe evolução.

Só isso já permite analisar a perenidade do conceito melhor. Se escolhermos um espaço temporal definido (pode ser uma época desportiva, uma década ou apenas o mês que dura um Mundial), o exercício torna-se mais fácil. Quando o tempo chega ao final não somos forçados a mudar de escolha. Tudo recomeça. Mas, mesmo assim, quantas vezes revendo aquele filme acabamos por nos convencer que afinal era aquela performance, e não a que tantos gostávamos, realmente a melhor? Passa o mesmo no futebol? Claro que sim. Para mim, sempre. Já fui mais de van Basten, agora sou mais de Gullit. Já me rendi a Pelé, agora aprecio mais o trabalho de Gerson naquele México quente. E assim vezes sem conta. É por tudo isso que o debate de “Melhor de Sempre” perde valor antes de começar. Por ser uma escolha pessoal (é-o sempre, por muito que se diga que se baseia em dados concretos) e porque “sempre” é demasiado tempo para nós, Humanos.

 

Vem tudo isto a propósito de uma pequena pulga que encanta nos relvados espanhóis. Lionel Messi foi em Dezembro coroado o melhor do Mundo. Já aqui escrevi uma e outra vez que o Barcelona de Guardiola é uma máquina demasiado perfeita para assentar num só jogador. Mas se havia algum génio a destacar, esse seria Xavi Hernandez. O ano acabou, o argentino recebeu todos os prémios possíveis e imaginários, e confirmou-se o seu papel de líder mediático tanto do Barcelona como do futebol actual. A isto soma-se um Cristiano Ronaldo que não só esteve lesionado grande parte do Outono mas também que fez a escolha errada ao adoptar como seu um clube que não conhece o termo solidário. E também porque Wayne Rooney, ele sim o jogador mais em forma do ano, tem aquele ar de rufia hooligan que repele o grande público. Messi é humilde nas palavras, parco nos gestos e grande no relvado. Tudo aquilo que o público e a imprensa, sempre à procura do novo rei, precisa. O seu génio é indiscutível e este ano Messi provou que melhorou muito em relação à época passada. Está mais eficaz frente à baliza (e mais egoísta, também), e joga mais no centro, canalizando o jogo a seus pés. A mudança táctica subtil de Guardiola deu-lhe o papel de “vagabundo” que retira o protagonismo a todos à sua volta, um pouco como o melhor Ronaldinho que também arrancava de uma ala para passear alegremente pelo centro. Duas trajectórias similares, no mesmo espaço e com os mesmos prémios. A diferença está na idade. O brasileiro tinha 26 anos quando atingiu o zénite. Messi tem apenas 22.

 

E pela precocidade de um jogador que a essa idade já tem mais prémios que muitos grandes da história em toda a carreira, saltou a questão. Ou melhor, a falácia. A imprensa espanhola aproveitou-se do final e lançou a pergunta: é Leo Messi o melhor da historia?

Rapidamente vieram os seus defensores. Colegas, técnicos, dirigentes, foram os primeiros a dizer que sim. Logo outros técnicos, de equipas rivais, jogadores e figuras do futebol espanhol juntaram-se à campanha. E um que outro estrangeiro também se deixou seduzir. Que sim, que aos 22 anos Messi é melhor do que Pele, Maradona, Di Stefano, Cruyff (o quarteto habitual de todos os top 5) juntos. Que é mais rápido, mais eficaz, mais participativo no jogo e mais carismático. Que nem lhe falta ganhar um Mundial (embora desse jeito), porque nem Cruyff, Di Stefano ou Platini o conseguiram. E aqueles que há um par de anos colocavam nesse top ao francês Zidane (depois de anos antes terem feito  o mesmo com o brasileiro Ronaldo), agora não têm duvidas. É Messi el mas grande?

Messi é um grande jogador. E pode acabar por ser o melhor da história. É possível. Tanto ele como Cristiano Ronaldo (que já confessou que é o seu grande objectivo) têm condições, talento e carácter para entrar directamente no Olimpo do jogo. Mas a cerca de 10 anos (por alto) de terminar a sua carreira desportiva, é um crime tentar saltar mais de 100 anos de futebol para coroar um excelente atleta que, no entanto, nunca foi assim tão superior aos seus colegas e rivais.

 

De Pelé muitos dizem que só jogou no Brasil e que não provou o difícil que é jogar na Europa. De Di Stefano falou-se na falta de espírito de equipa e na explosão tardia. Quanto a Cruyff criticou-se o seu carácter conflituoso e falta de grandes troféus colectivos. O mesmo a Platini. Zidane também foi criticado por jogar a espaços e Maradona por ser um cometa de rápida destruição. Eusébio, Charlton, Garrincha, Meazza, Beckhambauer, Zico, Baggio, Mazzolla, Puskas e companhia já nem na lista têm direito a entrar. São incomparáveis perante esse astro argentino ascedente. Realmente? Talvez Messi seja o grande beneficiário de uma conjuntura perfeita. Cresceu num grande – o Barcelona – rodeado de estrelas (Xavi, Iniesta, Deco, Etoo, Ronaldinho, …) que ajudaram a potenciar o seu jogo. Teve dois bons e pacientes técnicos, uma direcção que o adora e uma fase desportiva na história culé a todos os títulos fenomenal (algo que Czibor, Cruyff, Ronaldo, Figo ou Rivaldo não puderam ter, por exemplo). Não foi forçado a elevar um clube do zero, como Maradona fez com o Napoli. Não provou a dureza de quatro Mundiais, ganhando três como Pele. Nem esteve na génese de um modelo de jogo revolucionário como Cruyff. E no entanto, com toda a facilidade do Mundo, elegem-no acima de todos os outros. Como se fosse assim tão fácil olhar para trás e apagar tudo o que foi feito em nome da ditadura do presente. Fará sentido sequer incluir a Messi – ou Cristiano Ronaldo, que tem exactamente os mesmos méritos até hoje ganhos pelo argentino, mas muito pior imprensa pelo seu carácter intempestivo - a este altura, nesse lote restrito de 15 ou 20 nomes que o tempo não apaga? O mesmo lote onde só Ronaldo e Zidane podem dizer que entraram já nos finais das suas carreiras, depois de se comprovar a sua trajectória? Obviamente, não!

 

Daqui a oito anos, quando cumpra 30 e tenha disputado mais três mundiais (no primeiro passou desapercebido), Messi poderá estar perfeitamente nessa elite. Ou não. Tal como Ronaldinho ou Rivaldo, antigos deuses do Camp Nou, profetas do Mundo, entretanto caídos em desgraça. E aqueles que hoje proclamam a inevitabilidade da divindade terão de perguntar-se o que é que realmente se passou aqui?

 



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 18:08 | link do post

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