Para os adeptos que preferem os títulos, ontem foi a noite da semana encarnada. A segunda Taça da Liga consecutiva, desta feita sem polémica à mistura, e a confirmação da superioridade no terreno de jogo face ao eterno rival. No entanto, foi na Quinta-Feira em Marselha que o Benfica mostrou o seu melhor rosto. A equipa de Jorge Jesus galopa para um final de época com um autoritarismo que não se via desde a primeira etapa de Sven-Goren Eriksson. No entanto, ainda falta muito ao novo conjunto encarnado para encontrar o mesmo significado de superioridade que o sueco trouxe pela última vez à Luz.

Foi em 1983-1984.
Nessa longinqua época - cumprem-se 26 anos este Maio - que o Benfica exibiu pela última vez a sua total hegemonia no futebol português. Desde então os conjuntos encarnados conquistaram mais cinco títulos (face a dois do Sporting, um do Boavista e...18 do FC Porto) mas nenhum deles foi um claro exercício de superioridade sobre os rivais como se viu nessa época. A equipa que até tinha perdido uma final da Taça UEFA no primeiro ano de Eriksson, o sueco tranquilo, sumava nesse Verão a sua segunda liga consecutiva. O treinador partia pouco depois para Roma, onde tomaria as rendas do conjunto da capital. Voltaria, anos depois, para voltar a ser campeão. Mas sem esse perfume e dinamica que exibiam nesse onze a ala esquerda de Alvaro e Chalana, o miolo com Shéu e Carlos Manuel e um ataque onde pontificavam Diamantino e Nené. O que destacava nessa equipa era a atitude. O que mudou na Luz da desastrosa época passada a este ano? Precisamente, a atitude.
Jorge Jesus não é um génio da táctica como José Mourinho.
E no entanto o seu Benfica apresenta números muito similares aos do técnico sadino na sua etapa praticamente invicta no FC Porto. Tanto a nível de performance, como de eficácia goleadora, este Benfica assemelha-se muito a esse imparável conjunto azul e branco que vergou Portugal e a Europa a seu belo prazer. O conjunto de Mourinho tinha emulado a supremacia de Eriksson, com a eficácia europeia que o técnico sueco nunca logrou transmitir. E apesar dos adeptos encarnados estarem entusiasmados com a previsivel vitória na Liga - a primeira em cinco anos - face a um Braga que vai mostrando, inevitavelmente, as suas crescentes debilidades, é a dimensão europeia deste Benfica que se faz notar. Vencer a Taça da Liga contra um FC Porto descrente em si mesmo, cansado e sem ideias, é um mérito pouco louvável por muito que a estatistica o conte. Ganhar uma Liga onde a arbitragem e as decisões de bastidores tiveram um forte peso, também tem o seu contra.
Mas na Europe League o Benfica está só. Sem ajudas e sem rivais débeis mentalmente, o conjunto encarnado tem exibido o seu melhor rosto. Foi dominador na fase de grupos como poucas vezes se viu a um conjunto português. Derrotou sem apelo nem agravo um Hertha de Berlim em queda livre mas que mostrou no primeiro jogo toda a frieza do futebol alemão. E frente ao ressurgente Olympique Marseille - que acaba de lamber as feridas derrotando o todo poderoso Lyon - mostrou a sua nova atitude. O eterno fatalismo luso na Europa é de longe conhecido. O Sporting voltou a sofrer dessa malapata. Mas na Luz o golo de empate do Marselha, bem perto do fim, longe de desanimar, motivou. Uma equipa capaz de dar a volta a essa situação contrária, mostra um espirito competitivo que sempre escasseia no abandonado rectângulo. Que o faço em terreno hostil, a vinte minutos do fim, marcando dois golos depois de estar a perder, demonstra algo mais.

É impensável prever a próxima eliminatória europeia.
O Liverpool é um colosso europeu mas que se comporta como um pigmeu de há vários anos para cá. O mandato de Rafael Benitez salda-se, até hoje, pela Champions League ganha de forma épica em 2005. Precisamente o seu ano de estreia. Desde então a equipa tem-se pautado pela mediocridade doméstica (onde nunca passou do quarto posto) e algum brilharete europeu. Aos Reds falta, precisamente, essa atitude ganhadora que a equipa de Jesus ostenta. O técnico da Amadora terá mil e um defeitos, mas é um general na verdadeira acepção do termo. Em terras gaulesas montou uma equipa ofensiva e nunca desistiu, mesmo sabendo que a prova não é um objectivo prioritário. A superioridade moral do segundo tempo foi abrumadora. O triunfo inevitável. No duelo frente ao histórico rival, outra vez a atitude levou a melhor sobre a apatia. Colocando um guarda-redes titular que nunca tinha disputado um só minuto na prova deu o sinal. E mesmo reservando quatro titulares, Jesus mostrou que tem todo o seu exército a remar no mesmo sentido. A verdade é que há várias épocas que o Benfica tem investido forte no mercado. Sem resultados. Faltava um elemento catalisador, um dinamo capaz de unir um plantel habitualmente desfeito, e convence-los a trabalhar em conjunto. Esse é o principal mérito do técnico. Os seus onze jogam sempre numa dinamica ascendente, verticalmente e sem receio. Os nomes não suplantam o papel atribuidos aos postos. Assim se explica a superior exibição de Airton no estádio do Algarve ou de Carlos Martins no Velodrome. Suplentes habituais que apresentam predicados de titulares.
O futebol vive de ciclos cada vez mais reduzidos.
O dominio absoluto é algo ao alcance de muito poucos. Muitas vezes aqui dissemos que o Tetra azul e branco estava desfazado da realidade, que existia mais devido à falta de participação dos rivais do que aos méritos da armada de Jesualdo. Basta ver que equipas que facilmente deslumbram como o Madrid dos Galácticos, o Barcelona de Rikjaard, o Chelsea de Mourinho, o Arsenal de Wenger ou o AC Milan de Ancelloti, dificilmente conseguiram conquistar mais de dois titulos consecutivos. Depois, a natural evolução do jogo, trata de baralhar e dar de novo. Talvez por isso se perceba que esse ciclos bi-anuais se adequem melhor ao futuro do futebol português. No próximo ano será provável que o Benfica se depare com um FC Porto renascido e um Sporting mais estável. Haverá mais atenção à Europa, pela necessidade de entrada de milhões nas arcas encarnadas, e certamente o defeso verá sair uma ou outra jóia. Talvez por isso este sucesso soe, antes de ter acontecido, já a efémero. No entanto a atitude é algo que pode durar bem mais do que um ano. Caberá a Jorge Jesus moldar a sua equipa na próxima época da mesma forma em que preparou esta.

Hoje o SL Benfica é, inquestionavelmente, a melhor equipa de futebol em Portugal. E uma das equipas em melhor forma em toda a Europa. Com dois troféus ainda em disputa, tudo pode realmente suceder. Mas antes de lançar os foguetes dos triunfos de este ano, o Benfica tem de pensar já no amanhã. A fome de titulos já não será a mesma na próxima época e as expectativas serão naturalmente distintas. Chegar ao topo é muitas vezes fácil. Permancer de forma categórica é algo ao alcance de muito poucos. Talvez por isso em quase 30 anos que nenhum conjunto encarnado tenha emulado o feito de Eriksson naquele Verão quente. Esse desafio será bem mais dificil do que a gesta de uma noite de glória.

