A única vez na história que duas equipas francesas marcaram presença nos Quartos de Final da Champions League, uma delas foi finalista. São boas noticias para Bordeaux e Lyon. O futebol francês volta a mostrar a sua força e surge como o inesperado outsider europeu do ano. Natural evolução de um campeonato que mudou muito em pouco tempo.

Foi em 2004 e os adeptos do FC Porto lembram-se bem. Nesse ano a equipa teve de disputar os sucessivos apuramentos com as três equipas francesas em prova. Eliminou o Olympique Marseille de Didier Drogba na fase de grupos. Nos Quartos de Final defrontou o melhor Olympique de Lyon. Seguiu em frente graças aos golos de Maniche. Até que chegou a mitica final de Gelsenkirchen contra o AS Monaco. Nova vitória e um titulo inesquecível. Essa foi a primeira e única vez que a Ligue 1 logrou o feito de colocar duas equipas entre as últimas oito formações na prova rainha europeia. Até agora.
É curioso que o campeonato francês é o menos eficaz nas provas europeias das ligas de elite europeias. Provas europeias, aliás, criadas por franceses a pensar na consagração das suas melhores formações. Assim nasceu a Taça dos Campeões e mais tarde a Taça das Cidades com Feiras. Só que, até agora, só uma formação gaulesa venceu uma Champions (o Olympique Marseille em 1993) e apenas o PSG levou para casa uma Taça das Taças. Muito pouco para uma das cinco ligas principais da Europa. Muito longe de Inglaterra, Espanha, Itália e Alemanha, em titulos os franceses também estão atrás de Holanda, Portugal, Escócia e Rússia. Muito pouco para quem investe tanto, todos os anos. Mas parece que a tendência está a inverter-se.

Para lá do sucesso na Champions há ainda a possibilidade dos franceses contarem com duas equipas mais na Europe League (se Marseille e Lille seguem em frente). Significaria que teriam um total de 4 entre 16, valores superiores à Premier League (2 ou 3), La Liga (está entre 1 e 3), Serie A (1 ou 2), Bundesliga (1 a 3) ou Liga Sagres (0 a 2). Ou seja, a liga mais representada na etapa final do sprint europeu. E isso sim, seria inédito.
O resultado é espelho de uma evolução constante na própria Ligue 1. O campeonato que foi dominado de forma dictatorial nos últimos sete anos pelo Olympique de Lyon está hoje mais equilibrado do que nunca. Há cinco equipas a lutar pelo título (o ano passado foram três até bem perto do fim) e a disputa pelos postos europeus está aberta a um total de nove formações. As camadas jovens funcionam como principal fonte de ingresso dos clubes - entre jogadores vendidos e promovidos à primeira equipa - os estádios remodelados para o Mundial de 1998 garantem boas condições para os adeptos e equipas e a distribuição de lucro está mais equitativa do que nunca. Circunstâncias que permitiram o regresso de Bordeaux e Marseille à ribalta, que abrem a porta a projectos mais modestos mas ambiciosos como os de Lille, Rennes, Toulouse ou Monteplier e que tapam as más prestações consecutivas de AS Monaco e PSG.

A última noite de glória do futebol francês viveu-se ontem. Depois do histórico apuramento do Olympique de Lyon no Santiago Bernabeu, foi a vez do Girondins Bordeaux confirmar que a sua candidatura é mais do que simples ilusão. O técnico Laurent Blanc avisou dos perigos do Olympiakos e na Gasconha ainda se sofreu após o golo grego e a expulsão do determinante Aliou Diarra. Mas a superioridade girondina era clara. Depois de Gourcouff abrir o marcador na primeira parte (o jogo tinha terminado 1-0 na Grécia) coube à outra estrela da companhia, o marroquino Chamkah, fechar a eliminatória.
A vitória do Bordeaux garante assim que na sexta-feira haverá duas equipas gaulesas no sorteio. Em França há até quem prefira um duelo nacional para garantir que, pelo menos uma das duas equipas chega às meias-finais. Em ano de Mundial - onde não se espera que a França repita o brilharete de há 12 e 4 anos, respectivamente - o sucesso europeu é o melhor bálsamo para os adeptos gauleses. As quatro formações ainda em prova sabem que estão longe de ser consideradas favoritas. Mas também não o era o AS Monaco de Didider Deschamps, e só o FC Porto com a marca de José Mourinho foi capaz de os travar.

Que o futebol francês continue com as vitrines vazias, é um dos grandes mistérios do futebol europeu. Nem o Stade de Reims nos anos 50, nem o Saint-Ettiene na década de 70 ou o Bordeaux dos 80 foram capazes de quebrar a malapata. E quando houve uma equipa que sim, subiu ao mais alto, tudo se desmoronou demasiado depressa. É uma pedra no sapato de qualquer adepto francês. Sem ódios nacionais à mistura, a França quer desesperadamente um campeão a quem admirar. Se este será o seu ano, ainda está por ser ver. Mas dificilmente a conjuntura voltará a soar tão favorável para ouvir La Marseillese.