Na época em que se confirmou o protótipo do futebolista teutónico de força, cinismo e resistência que ainda hoje domina a mente de qualquer adepto, os relvados germânicos assistiam ao desfilar do melhor futebol praticado por uma equipa alemã. Aos titulos do emergente Bayern Munchen na pequena Monchengladbach respondiam com uma beleza sem precedentes. A época em que a estética tomou de assalto a Bundesliga.

Para os mais distraidos nestas lides é preciso recordar que a Bundesliga só surgiu nos anos 60. A RF da Alemanha, ainda a viver com alguns fantasmas do pós-guerra, demorou a organizar a sua liga profissional. Quando surgiu, o dominio foi imediatamente resgatado pelas equipas do Norte, a zona mais rica do país. Mas, rapidamente, se foi produzindo um desvio rumo ao sul. No final da década de 60 subiram à I Divisão as duas equipas que iriam dominar o torneio na década seguinte: Bayern Munchen e Borussia Monchengladbach.
Os bávaros acentavam o seu jogo num futebol de força e dinamismo táctico, com Beckenbauer a surgir como o principal elo desequilibrador. Os golos de Gerd Muller - "o elefante no meio de puros-sangue", como diria Zlatko Čajkovski - e a classe de Paul Breitner, Meier e Hoeness, permitiram que os bávaros vencessem três ligas consecutivas às quais juntaram 3 Taças dos Campeões Europeus entre 1974 e 1976. Mas, apesar dos titulos, os de Munique tinham perdido na corrida à equipa mais popular da renascida Deutschland. Esse titulo pertencia à manschaft verde, negra e branca do Borussia de Monchengladbach, que pregava precisamente tudo aquilo que ia contra o futebol cinico e cientifico do Bayern.
Sob a orientação de Hennes Weisweiler, a equipa de Monchengladbach encantou alemães e europeus. O técnico tinha sido um dos primeiros formadores a nivel mundial e os seus conhecimentos tácticos e técnicos superavam a esmagadora maioria dos técnicos europeus. O jogo do seu Borussia acentava num futebol de toque constante, com progressões em bloco, numa altura onde o jogo ainda apostava numa clara separação dos sectores. Bebendo da filosofia do Futebol Total aplicado pelo Ajax, os jogadores do Borussia mantinham uma forte disciplina táctica em formato de caos organizado. Os laterais tanto defendiam como atacavam, o trio de ataque recuava e abria espaços aos médios centrais que procuravam remates precisos à entrada da grande área. A equipa era jovem e captivante. E contra toda a expectativa venceu a liga de 1969, repetindo o triunfo na época seguinte. O futebol ofensivo do Borussia tinha aberto uma brecha no estilo de jogo germânico e a sua influência espalhou-se aos países vizinhos. No entanto, os três anos seguintes seriam de crise. A cada vitória do Bayern, seguiam de perto os do Borussia. Em 1974, ano do Mundial, perderam a liga por um ponto. Na Alemanha instarou-se o debate. Em quem deveria basear-se a selecção? Nos campeões europeus e alemães, os sempre eficazes jogador de Munique? Ou no futebol espectáculo de Monchengladbach. A história permitiu uma curiosa aliança entre ambas as formações (na final jogaram sete do Bayern e dois do Borussia que tinha outros quatro jogadores no banco incluindo Netzer e Heynckhes)que se revelou determinante para o triunfo germânico sobre a máxima favorita Holanda.

Nessa histórica formação a estrela não era alemã. O dinamarquês Allen Simonsen, recrutado bem cedo ao amador futebol dinamarquês, emergiu como o lider natural de uma geração jovem e sedenta de titulos. Ao seu lado actuavam gigantes. O imenso Gunter Netzer, provavelmente o mais pulido médio da história do futebol germânico. O defesa cerebral Berti Vogts, o letal Jupp Heynckhes no ataque, o oportuno Uli Stilieke e o explosivo Bonhof. Entre os seis formavam o esqueleto da equipa que depois do hiato de três anos, e já com outra maturidade, voltaria aos titulos.
No final de 1975 o veterano Weisweiter anunciou que deixava a Alemanha para treinar o Barcelona de Johan Cruyff. Para o seu lugar chegou o enérgito Udo Lattek, acabado de ser despedido em Munique. O técnico, já sem poder contar com Netzer que também tinha saído para jogar no Real Madrid, mas com um explosivo Simmonsen, puliu a equipa de forma a entrar numa série de três ligas ganhas de forma consecutiva, igualando o seu recorde anterior ao serviço dos rivais bávaros. Nesses três anos o dominio do conjunto de Monchengladbach foi inquestionável. Ao bom jogo juntavam-se as vitórias. Só a Taça dos Campeões continuava a ser uma espinha cravada. No último ano de Weisweitter a equipa tinha conquistado, frente ao Twente, a Taça UEFA. Mas parecia pouco para a equipa mais admirada dos relvados europeus de então.
Em 1977 a equipa finalmente logrou chegar à final da Taça dos Campeões. Defrontava o Liverpool num duelo há muito esperado entre as duas equipas mais populares do futebol europeu da segunda metade dos anos 70. Bob Paisley frente a Udo Latek, um duelo que se extendia no terreno de jogo entre Keegan, Toshack, Souness e Hyenckhes, Simonsen (que acabaria por vencer o Ballon D´Or) e Bonhof. A equipa entrou bem no jogo mas acabou por cair por 3-1. Foi uma dura derrota que levaria, no ano seguinte, à saída do técnico. A perda do titulo para o FC Koln, orientado por Weisweitter, precipitou a sua saída e foi Heynckhes, o letal dianteiro, quem assumiu o lugar no banco de suplentes. Num ultimo folego as estrelas do clube, já na etapa final da sua carreira, ainda lograram vencer a Taça UEFA de 1979. Mas voltaram a perder a liga por três pontos.

Era o final da linha da Bela Alemanha. Heynckhes começaria um "reinado" de dez anos, mas o clube nunca mais voltaria a conquistar um troféu. Simonsen tinha partido para Barcelona e, a pouco e pouco, as grandes estrelas foram substituidas por jovens que acabaram por não produzir o mesmo impacto dos seus antecessores. O sonho tinha terminado.

