O Barcelona e Real Madrid continuam, lado a lado, na luta pela Liga BBVA. Empatados em pontos e expectativas. E ontem, depois de mais uma jornada, empatados em hat-tricks. Com perfume argentino. Dois aromas distintos que definem bem o estilo de cada equipa.

Serão os dois avançados elegidos por Diego Armando Maradona para o ataque da albiceleste no próximo Mundial. E são também os lideres pela corrida ao Pichichi que ainda pertence a um uruguaio, este ano bem longe da linha da frente. Ontem decidiram dois obstáculos mais rumo à conquista do título. Cada um à sua maneira, cada um com o seu perfume. Os dois conjuntos seguem empatados na liderança. Apenas o goal-average dicta a teórica vantagem merengue. E ontem, para ajudar, mantiveram-se as distâncias. Graças a dois hat-tricks. Se um deles define a natureza do jogo blaugrana - oportuno, colectivo e eléctrico - o outro é o espelho vivo da realidade madridista. Oportunista e vertical. No meio deste duelo de peritos em tango futebolistico só destoou mesmo o missil com selo lusitano. Afinal, Cristiano Ronaldo voltou a mostrar que em Madrid sente-se menos cómodo com a baliza. Mas que sabe como deixar a sua marca. Só que a noite não foi dele. Foi do eterno rival externo e do novo "rival" interno.
Frente ao Valencia o Barcelona esteve muitos furos abaixo do esperado. Controlado na primeira parte por um surpreendente conjunto "che", o Barça estava coxo. Bojan continua a demonstrar que funciona melhor como producto de marketing do que, propriamente, como goleador. E sem um homem com faro de golo, o jogo catalão foi-se esmorecendo. Graças também à implacável marcação do meio-campo do Valencia aos cerebros blaugrana. Desde a bancada, o castigado Guardiola, soube ler o jogo. Lançou o francês Thierry Henry e desbloqueou Leonel Messi. O pequeno argentino agradeceu a companhia. E o veterano francês foi fulcral. A sua movimentação no terreno de jogo ajudou a expandir a dinâmica ofensiva do Barça. E, naturalmente, abriu a Messi os espaços que este precisa. Em três arrancadas, Messi decidiu o jogo. Quebrou os ossos aos centrais do Valencia, revelou-se repleto de oportunismo e pôs o ponto final em três lances que tiveram tanto do seu engenho individual como do espirito colectivo ofensivo tipico neste Barcelona de Guardiola. O hat-trick, o terceiro este ano na Liga, significa que atingiu já os 22 golos na prova, o seu novo recorde. Muito para quem joga de extremo, mas que não deve surpreender os mais distraídos. Afinal esta versão 2.0 do Pep Team está cada vez mais feita à sua medida.
Apenas uns minutos depois e a mais de 800 kms de distância, o José Zorrilla via o outro lado do futebol. O lado sem beleza, emoção ou espectáculo. Mas com uma temível eficácia. O Valladolid, histórico como poucos, está prestes a cair no poço da II Divisão. E precisa de oxigénio, e depressa. O Real Madrid de golos, para cimentar uma liderança ficticia. Pelo menos até ao duelo do "siglo", como se costuma vender cada derby como se fosse um fenómeno que não se repete, minimo, duas vezes ao ano. Os de Pucela foram superiores na primeira metade e podem queixar-se, e com razão, de um par de penaltys e de muito azar. Também devem agradecer a complacência com que cada árbitro olha sempre que Cristiano Ronaldo cai no chão. A inveja nunca fez bem a ninguém. O português até já tinha marcado, mas foi o mal amado Higuain quem chamou a si o protagonismo. Gozado por tudo e todos depois dos falhanços frente ao Lyon (não foram poucos os que se lembraram que, em 21 jogos na prova, o argentino só tenha marcado dois golos ao Zurich), Higuain provou que é um futebolista de poucas palavras. E gestos. Basta-lhe um toque. O do oportunismo. Nos três golos com o seu selo o seu mérito é sempre inferior ao do colega. Ele limita-se a dar a estocada, estando já o touro de rastos. O livre de van der Vaart, o toque de cabeça genial de Ronaldo e o remate de este, que o guardião castelhano Justo Villar defendeu para a frente, para os pés do "Pipita", selaram o injusto resultado final. Higuain persegue Messi e cala os criticos. Mas, olhando-se no espelho, deverá repensar na natureza do seu jogo. O seu oportunismo neste lances dificilmente disfarça o nervosismo que lhe entra no pé quando tem de dar mais de três toques seguidos na bola.

Se Messi é o exemplo acabado de um jogador que controla todos os registos do jogo (passe, dominio, finta, remate), tanto em potência como precisão, já Gonzalo Higuain começa a transformar-se num jogador monocórdico, uma especie de pequeno Raúl, com quem tem aprendido. Desperdiça a velocidade, o posicionamento e o um contra um, em troca do último toque. Um negócio digno de Fausto que pode valer-lhe cifras interessantes para quem colecciona estatística. Mas que prende muito a equipa na hora de apostar numa verticalidade sustentada. E define bem a diferença de dois estilos. O Barcelona continua a ser uma equipa, a todos os registos, completa. O Madrid, um puzzle repleto de cacos desfeitos onde cada artesão exime a sua pericia para beneficio próprio. Se logo sobra algo para o colectivo, agradece-se. Talvez nesse detalhe se defina não só uma liga. Pode definir-se uma época.

